São Paulo, SP – Diante de uma escassez de combustíveis agravada por sucessivos ataques ucranianos a refinarias e terminais, o governo russo determinou a suspensão das vendas externas de diesel.
A decisão, anunciada por Vladimir Putin durante reunião ministerial transmitida pela televisão, deve vigorar até 31 de julho e atinge diretamente o Brasil, que figurou como terceiro maior comprador do combustível russo em 2025.
Desabastecimento interno leva à decisão
O país enfrenta longas filas em postos de combustível, reflexo da queda na produção causada por bombardeios contínuos contra unidades de refino, depósitos e dutos. Segundo o Financial Times, trata-se da pior crise de abastecimento enfrentada pelos russos desde a dissolução da União Soviética.
O vice-primeiro-ministro Alexander Novak justificou a medida como forma de redirecionar volumes ao consumo doméstico: “Hoje foi introduzida uma proibição das exportações de diesel, e isso permitirá aumentar a oferta para o mercado doméstico”.
Paralelamente ao veto, Moscou passou a comprar combustível no exterior. De acordo com a DW, fontes do setor relatam que a Rússia já importa gasolina por via marítima da Índia desde a semana anterior ao anúncio. O país havia proibido as vendas externas de gasolina em abril, mas a restrição ao diesel amplia o alcance das medidas protecionistas.
Compras brasileiras já haviam recuado
O Brasil passou a depender fortemente do diesel russo a partir de 2023, quando Moscou, sancionada pela União Europeia após a invasão da Ucrânia, buscou novos destinos para sua produção e superou os Estados Unidos como principal fornecedor ao país. Em 2025, o Brasil ocupou a terceira posição entre os importadores, conforme levantamento da consultoria Kpler.
Antes mesmo do anúncio da proibição, entretanto, os volumes já vinham em queda: houve retração de 65% nas compras brasileiras entre maio e junho, período em que os ataques ucranianos se intensificaram, segundo dados da Federação Nacional do Comércio de Combustíveis e de Lubrificantes (Fecombustíveis). No mesmo intervalo, as importações brasileiras vindas dos Estados Unidos cresceram 74%.
As exportações marítimas russas de diesel somaram 1,8 milhão de toneladas em junho, recuo de 39% ante maio e de 46% na comparação com junho de 2025. Entre 1º e 8 de julho, a média diária foi de 214 mil barris, contra 793 mil barris no mesmo período do ano passado, conforme a Kpler.
Analistas preveem disputa por fornecedores
O anúncio elevou as cotações do barril de diesel em um mercado internacional já pressionado pelo conflito no Irã.
Para o analista Abhishek Kumar, da Sparta Commodities, a proibição chega em momento delicado: “A guerra no Irã já havia forçado grandes retiradas de estoques para compensar a interrupção do fornecimento do Oriente Médio, deixando os estoques de diesel em mercados-chave reduzidos”.
Kumar afirmou ainda que Rússia e seus compradores tradicionais devem passar a disputar com países europeus o diesel disponível junto a outros produtores, o que tende a pressionar ainda mais os preços globais.
Putin, durante o anúncio, classificou como “inalcançável” o objetivo ucraniano de gerar instabilidade na economia russa, afirmando que a “resiliência do sistema de energia da Rússia é muito alta”. Já Kiev sustenta que os ataques buscam reduzir a capacidade bélica russa e pressionar Moscou a negociar o fim do conflito.
Foto: Divulgação/Kremlim

