Esta semana, o governo francês autorizou que turistas e
moradores tomem banho nos canais de Paris, além de suspender as aulas e a
circulação de trens em meio à forte onda de calor que deve elevar as
temperaturas a até 40ºC em todo o país. A intenção do governo é reduzir o
deslocamento de pessoas durante o calor sufocante e preservar vidas.

A medida mostra como o calor deixou de ser apenas um
incômodo, como era anos atrás, e se tornou, para além de saúde pública, um
problema institucional. As temperaturas já afetam o funcionamento das
instituições e dos transportes, de modo que, em sequência, acabam alterando
também o comportamento das pessoas dentro de um problema que muitos sentem, mas
ainda não entendem.
Longe, porém, perto
De Paris para Belém a
distância é grande, mas o problema é bem parecido. De acordo com um estudo
publicado pela revista Sustentabilidade em Debate, durante a COP30, a capital
paraense tem picos de temperatura de bulbo úmido de 31,5 °C, medida que
combina índices de calor e umidade para traduzir
melhor os efeitos da temperatura no corpo humano. A pesquisa explica que
valores acima de 29 °C já significam risco extremo para nosso
organismo, que não consegue se resfriar adequadamente
por meio da transpiração.
Fora os momentos de
pico, a média de temperatura de bulbo úmido em Belém é de 28,2 °C, que não está no limite, mas também é considerada de alto risco para a saúde humana. Nesse cenário, por
exemplo, pessoas com condições de saúde pré-existentes agravadas pelo calor devem evitar atividades físicas.
Avassalador e letal
Um estudo recente,
realizado por pesquisadores da Fundação Oswaldo Cruz e da Universidade Federal
da Bahia, cruzou históricos de temperaturas no País com dados sobre óbitos
indica que, em um período de vinte anos, as ondas de calor causaram mais de 120
mil mortes no Brasil.
De acordo com a
pesquisa, esses períodos extensos com temperaturas extremas explicam 0,6% da
mortalidade no País entre os anos de 2000 e 2019. Para piorar, o estudo sugere
que com a mudança climática, o peso desses eventos extremos tende a aumentar na
saúde dos brasileiros.
Omissão torna pior
Não é de hoje que
estudos realizados em diferentes partes do mundo mostram que, caso nada seja
feito, a temperatura média global pode aumentar cerca de 4 °C até o fim do século, muito acima da meta
internacional de 1,5 °C, estabelecida em 2015 no Acordo de Paris.
Se isso ocorrer, cidades como Belém, com bulbo úmido de 28,2 °C, entrarão em uma zona de risco extremo em que o calor e a umidade
atingem níveis tão altos
que o próprio ato de respirar se torna fisicamente
difícil – e é aí que um excedente de 40% de mortes pode ocorrer.
Quem paga o preço
O estudo realizado
pela Fiocruz mostra que os idosos possuem mais limitações em manter os
mecanismos de homeostase corporal para controle de temperatura e, por isso,
foram os mais afetados pelas ondas de calor. Mais de 97 mil óbitos de pessoas
com 65 anos ou mais foram associados a esses eventos, compondo 80% do total no
estudo.
Outro grupo muito afetado são as crianças, muito vulneráveis
à desidratação. Nelas, o calor estimula a proliferação de micro-organismos de
transmissão por via oral tanto por alimentos que podem estar contaminados
quanto pela ingestão de água não própria para o consumo. O estudo constatou que
o cenário elevou consideravelmente a presença de crianças nas unidades de
atendimento do SUS.
Agravante de Belém
Neste cenário, Belém
é uma cidade que sente muito os impactos do calor extremo por ter imensa
população tanto de idosos quanto de crianças. A vulnerabilidade social é outro
agravante por aqui. Quando o calor se intensifica, os bairros mais pobres são
os que mais sofrem pela falta de ar-condicionado e de isolamento térmico.
Os alertas envolvendo
o calor extremo tornam-se ainda maiores dada a expectativa de que, este ano, o
fenômeno El Niño esteja com 63% de probabilidade de que se torne muito forte,
com potencial para entrar no grupo dos maiores eventos climáticos registrados
desde 1950. É melhor colocar não só a barba, mas todo o corpo de molho antes
que seja tarde.

