De um lado, o aroma do jambu, das ervas medicinais, dos frutos regionais, o vai e vem das embarcações na Baía do Guajará e o cotidiano do Ver-o-Peso. Do outro, palcos espalhados por diferentes cidades e países. Esse encontro ganhou forma em “Banzeiro”, segundo álbum de Dona Onete, lançado em 23 de junho de 2016 pelo selo Ná Music, que completa dez anos nesta terça-feira (23) e leva para além do Pará elementos culturais, linguagens e referências do Estado.
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Ao lembrar da data, a artista destacou o significado da obra. “Olha, ver o ‘Banzeiro’ completar 10 anos é uma emoção muito grande”, iniciou em conversa com a reportagem do Grupo Liberal.
Dona Onete detalhou a construção da coletânea e os elementos presentes na obra. “Esse disco carrega as histórias, os sabores, as cores e os sons da nossa terra. Saber que ele continua navegando por aí, tocando o coração das pessoas e levando um pedacinho do Pará para o mundo me enche de felicidade e gratidão”, afirmou.
Em uma publicação nas redes sociais, ela também celebrou o amadurecimento do projeto. A postagem recebeu mensagens de fãs e artistas. “Um marco”, escreveu o cantor Naré.
“Não tem uma festa que eu discote que não toque essa obra-prima”, afirmou o cantor mexicano Sebastián Piracés, que mora há muitos anos no Brasil. “Que privilégio fazer parte disso”, comentou o multi-instrumentista Daniel Serrão.
Produção e repertório
O álbum reúne 12 composições autorais e foi produzido musicalmente por Pio Lobato, que também assinou as guitarras do projeto. A banda base reúne nomes como JP Cavalcante (percussão), Vovô (bateria) e Breno Oliveira (contrabaixo).
No repertório do disco, transitam gêneros como carimbó, bolero, banguê e canção popular, com faixas como a que dá nome ao álbum, “Tipiti”, “Proposta Indecente” e “No Sabor do Beijo”.
Uma das faixas de maior alcance é “No Meio do Pitiú”, que ganhou projeção própria. A música ultrapassou 37 milhões de reproduções orgânicas no YouTube e se tornou um dos principais registros associados ao Mercado do Ver-o-Peso, em Belém.
Segundo a assessoria da artista, durante a produção houve dúvidas sobre a permanência da faixa no repertório, mas a decisão de mantê-la foi preservada. “Durante o processo de criação do disco, ela insistiu para que a faixa permanecesse no repertório, mesmo diante das dúvidas iniciais sobre o potencial da música. O tempo transformaria a escolha em um dos momentos mais emblemáticos de sua carreira”, informaram.
A artista também participou da produção artística ao lado de Rodrigo Viellas, Marcel Arede e Geraldinho Magalhães. O projeto foi selecionado pelo edital Natura Musical 2014, com apoio da Lei Semear, e teve produção executiva de Viellas e Viviane Chaves, além de gestão de carreira da AmpliDiversão.
Conquistas e circulação internacional
Ao longo dos últimos anos, “Banzeiro” acumulou mais de um milhão de reproduções em plataformas digitais, alcançando ouvintes em mais de 150 países. Em 2021, ganhou edição especial em vinil pela Três Selos, com tiragem esgotada.
O álbum também chegou ao primeiro lugar da World Music Charts Europe, parada internacional dedicada à música do mundo.
Em 2018, a faixa-título foi regravada por Daniela Mercury, em versão que misturou axé e carimbó e foi escolhida como música do Carnaval daquele ano. O videoclipe reuniu 205 figurinos e 99 artistas, além de coreografia oficial do FitDance.
Em 2024, “Banzeiro” voltou a circular no país após ser executado no Big Brother Brasil, quando a participante Alane Dias cantou a faixa durante uma festa do programa.
Trajetória
Professora, pesquisadora, compositora e guardiã da cultura popular amazônica, Dona Onete iniciou a carreira solo aos 72 anos.
Após o álbum de estreia, “Feitiço Caboclo”, foi com “Banzeiro” que sua música ampliou a circulação internacional, abrindo caminho para apresentações nos Estados Unidos, México, Colômbia, Argentina, países da América Latina, Europa e também no Sudeste Asiático.
Hoje, aos 87 anos, a artista segue acumulando momentos marcantes na carreira. Em setembro de 2025, abriu o espetáculo Amazônia Live – Hoje e Sempre, realizado em um palco flutuante sobre o Rio Guamá, ao lado de Joelma, Gaby Amarantos e Zaynara, na mesma estrutura que recebeu a cantora Mariah Carey.
No mesmo ano, voltou a dividir o palco com as três artistas paraenses durante o festival The Town, em São Paulo. Ainda em 2025, foi homenageada no Festival Psica. Na ocasião, lançou a composição inédita “Chegou Dona Mariana”, que abriu o show “Quatro Contas”, referência à relação com as caboclas encantadas da Amazônia que, segundo ela, protegem e a guiaram ao longo da vida artística.
A artista também ganhou um documentário, intitulado “Dona Onete, Meu Coração Neste Pedacinho Aqui”, que teve estreia em 2025 no Festival do Rio, marcando a primeira exibição da obra em circuito de festivais.




