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Quase um século antes de Trump, Roosevelt expandiu poderes da Presidência para combater Grande Depressão – 23/06/2026 – Mundo

No auge da Grande Depressão, em 1934 —primeiro ano do governo do democrata Franklin Delano Roosevelt— cerca de 24% da força de trabalho americana estava desempregada. Se esse índice fosse comparado às taxas registradas pelo Banco Mundial em 2024, cem anos depois, os Estados Unidos daquele período ficariam atrás apenas de três países: Botsuana, Djibuti e África do Sul.

Esse número representava a realidade devastadora do país na época. Famílias inteiras foram despejadas e ergueram favelas em boa parte das grandes cidades americanas —as chamadas “Hoovervilles”, em referência a Herbert Hoover, presidente na época da quebra da Bolsa de 1929.

Operários urbanos passaram a depender de instituições de caridade para escapar da fome. Estas muitas vezes não conseguiam lidar com a enorme demanda, e agricultores perderam suas terras em níveis nunca vistos no país até então.

Historiadores estimam que milhões de pessoas viviam em estado de desnutrição crônica, e homens vagavam pelas ferrovias do país às centenas de milhares à procura de emprego e de alguma forma de enviar sustento de volta para suas famílias.

Para lidar com essa crise sem precedentes, Roosevelt liderou a maior expansão do poder da Presidência americana desde a Guerra Civil: o New Deal (novo acordo), que redefiniu a relação dos americanos com o governo.

Com o apoio do Congresso e da Suprema Corte, Roosevelt criou dezenas de agências para regular o mercado de trabalho e a economia, resgatou agricultores e bancos rurais, fortaleceu sindicatos e alterou a forma como a Constituição era compreendida para que o governo federal passasse a ter mais poder do que os estados na condução da política econômica.

“Ele tornou o governo federal peça central no combate à Depressão”, diz Lizabeth Cohen, professora de história americana na Universidade Harvard. “Mas ele também criou uma relação com o povo e o eleitorado. Ele usava o rádio para ter as chamadas conversas à beira da lareira, onde ele falava diretamente com as pessoas.”

“E você vê nos Arquivos Nacionais as cartas que as pessoas escreviam para Roosevelt e Eleanor [a primeira-dama] como se fossem parentes ou bons amigos”, afirma Cohen. “As pessoas tinham fotografias de Roosevelt nas suas casas, ou em bares e restaurantes. Na casa da minha mãe, que cresceu nos anos 1930, Roosevelt era idolatrado. Ele foi presidente por muito tempo, e foi o único que ela conhecia na adolescência e início da vida adulta.”

Mais de 90 anos depois da chegada de Roosevelt ao poder, Donald Trump conduz sua própria campanha para aumentar o poder da Casa Branca. Suas medidas o transformaram em um dos presidentes mais poderosos das últimas décadas e suscitam comparações com Roosevelt.

Além disso, o democrata foi o mais longevo ocupante do cargo. Governou de 1933 até sua morte, em 1945 —a emenda que limita a dois os mandatos do presidente foi adotada em 1947 como reação direta ao longo período de Roosevelt no poder. Trump, por sua vez, flerta frequentemente com a ideia de desobedecer a Constituição e se candidatar novamente a um terceiro mandato.

Especialistas, entretanto, adotam cautela ao analisar as semelhanças entre os dois presidentes. “Roosevelt chegou ao poder vindo de uma vitória avassaladora”, diz Reuel Schiller, professor de direito da Universidade da Califórnia em San Francisco. “Como consequência, ele tinha amplas maiorias na Câmara e no Senado. Assim, grande parte das mudanças que conduziu foram feitas por meio do Legislativo.”

Para Schiller, o cenário tem um “constraste dramático” com o o que ocorre hoje. “Donald Trump não trabalha dessa maneira. Apesar de ter maioria no Congresso, as inovações de Trump vêm sendo feitas por decreto“, prossegue o jurista, usando um eufemismo. “Em outras palavras, Trump diz ter novos poderes por causa de leis existentes. Roosevelt disse que tinha novos poderes porque o Congresso os criou.”

O republicano vem tentando utilizar o poder da Presidência de novas formas em uma série de áreas —como para conduzir sua campanha em massa de deportação, criar barreiras para a entrada de imigrantes e levar o país para uma guerra contra o Irã. Em todas elas, a Justiça reagiu, de forma mais ou menos eficaz.

Entretanto, a seara em que Trump foi derrotado de maneira inequívoca foi a comercial, quando viu a Suprema Corte derrubar as centenas de tarifas que havia erguido contra dezenas de países, incluindo o Brasil.

“As pessoas podem ter fortes opiniões a respeito da expansão do poder do governo federal no New Deal, mas ninguém pode negar que ela ocorreu por meio do devido processo legislativo”, pondera Schiller.

O que não significa que não havia oposição contundente às medidas de Roosevelt, diz o professor. O democrata precisou convencer a Suprema Corte de que o que ele estava fazendo, ao intervir diretamente na economia, era constitucional.

“Existia a ideia de que a Justiça precisava proteger o direito das pessoas de firmar um contrato de trabalho sem interferência do governo”, afirma Schiller. “Esse direito fazia parte das liberdades civis do cidadão. Certas formas de regulação, como limites no número de horas trabalhadas, o salário mínimo e a existência de sindicatos poderiam interferir nessa liberdade.”

O que o governo argumentou na Corte, com sucesso, foi que não era possível ter uma “Constituição de charrete”, isto é, um documento pré-industrial, em uma época de economias globalizadas, e que o Judiciário deveria reconhecer que o texto poderia evoluir com o tempo. Outro argumento, segundo Schiller, era de que “a Justiça não deveria interferir nos processos políticos e não deveria interferir de jeito nenhum quando há uma recessão enorme e desemprego a níveis históricos.”

Para Cohen, a historiadora de Harvard, parte da cultura política do New Deal estava relacionada ao fato de que o governo federal existia para proteger as pessoas e intervir quando há uma crise. Mais tarde, essa ideia se estendeu ao papel dos EUA no mundo —e à decisão de apoiar os Aliados na Segunda Guerra Mundial.

“Roosevelt lidou com um isolacionismo muito forte. Os americanos saíram da Primeira Guerra dizendo ‘nunca mais’ e participaram dela por apenas um ano. Antes de Pearl Harbor [ataque japonês contra o Havaí que foi o gatilho para a entrada dos EUA na Segunda Guerra], Roosevelt decidiu que, se não podia se juntar aos Aliados, poderia ao menos equipá-los. E isso ajudou a economia americana, não era só solidariedade. O New Deal não tirou os EUA da Grande Depressão. A Segunda Guerra Mundial, sim.”

A historiadora diz que o principal paralelo entre Trump e Roosevelt não está na liderança do país em uma guerra ou na expansão do poder presidencial, mas na relação com o eleitorado.

“Trump utiliza suas redes sociais para criar um relacionamento direto com o povo americano, assim como Roosevelt fazia com o rádio”, diz Cohen. “De certa forma, ele trouxe de volta essa conexão entre o presidente e as pessoas. Muitos americanos não gostam dele, mas ainda sim isso é uma emoção, não mais indiferença frente a um governo federal sem rosto.”

Para Schiller, a resposta para comparações entre o republicano de hoje e o democrata de 90 anos atrás é simples.

“A teoria de governo de Roosevelt tinha como fundamento a compaixão. A regulação econômica e a criação do Estado de bem-estar social tinha que ocorrer porque as pessoas estavam sofrendo. O diagnóstico que Trump faz dos problemas do país é muito, mas muito diferente. Para ele, o país está sendo invadido por imigrantes ou por pessoas com opiniões políticas diferentes, e o que é necessário para resolver esse problema é crueldade, não compaixão.”

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