Brasil colheu 343 milhões de toneladas de grãos em 2025 e deve manter patamar elevado em 2026, com produção ainda acima de 300 milhões de toneladas. É um avanço expressivo, sustentado por tecnologia, ganhos de produtividade e expansão territorial, mas a engrenagem que deveria escoar essa riqueza segue funcionando no limite – e, em alguns pontos, já no colapso.

O diagnóstico é recorrente, mas agora vem reforçado por números duros: a logística brasileira consome cerca de 30% dos custos da produção agrícola – um peso que não aparece no campo, mas explode na conta final do produtor, do exportador e, em última instância, da competitividade internacional do País.
A espinha dorsal desse problema é conhecida: excesso de dependência rodoviária. Mesmo com uma malha de 1,7 milhão de quilômetros de estradas, apenas cerca de 216 mil são pavimentados. Na prática, o transporte de grãos ainda se apoia majoritariamente em caminhões, que respondem por quase 70% do fluxo de cargas agrícolas.
O resultado é previsível: filas, desgaste de frota, gargalos em portos e custos inflados por longas distâncias – em muitos casos, entre 1.500 e 2.000 quilômetros até o embarque final.
Mal comparando
A comparação internacional escancara o desequilíbrio. Em países de referência logística, a participação de ferrovias e hidrovias reduz drasticamente o custo do escoamento. No Brasil, esses modais seguem subutilizados: ferrovias transportam cerca de 22% dos grãos e hidrovias apenas 9%, apesar do potencial natural do País.
A consequência mais visível aparece nos portos. Em 2025, o País movimentou 1,4 bilhão de toneladas, mas com forte concentração e pressão sazonal. O Porto de Santos sozinho respondeu por cerca de 28% do total nacional, seguido por Paranaguá e Itaguaí. A concentração cria gargalos que se repetem ano após ano.
As novas fronteiras
Enquanto isso, novas fronteiras agrícolas avançam mais rápido que a infraestrutura. Regiões como Matopiba e o Norte do Mato Grosso impulsionam a produção, mas dependem de corredores logísticos ainda incompletos – como o chamado Arco Norte, que cresce, mas ainda convive com limitações de acesso, licenciamento e integração intermodal.
Outro ponto crítico é a armazenagem. O País possui capacidade para cerca de 202 milhões de toneladas, mas a produção já ultrapassa esse limite com folga. O déficit chega a mais de 130 milhões de toneladas em alguns cálculos. Na prática, isso obriga o produtor a vender rápido, muitas vezes em períodos de baixa de preço, ou a estocar de forma improvisada, pressionando ainda mais o sistema de transporte.
Descompasso crônico
Há também um problema estrutural de investimento. O Brasil aplica menos de 0,2% do PIB em infraestrutura de transporte, quando o necessário seria algo próximo de 4%, segundo entidades do setor. O resultado é um descompasso crônico entre expansão produtiva e capacidade logística.
Mesmo com avanços recentes em concessões rodoviárias, projetos ferroviários e expansão de terminais privados, o ritmo ainda é insuficiente para preencher a lacuna. A previsão é que, sem mudanças consistentes, a infraestrutura se torne um gargalo estrutural definitivo para o agronegócio até 2034.
No fundo, o País vive uma contradição clássica: lidera a produção global de diversos produtos agrícolas, mas ainda depende de uma logística cara, lenta e vulnerável. A safra cresce; a eficiência de escoamento, não. E quando a conta chega, ela não vem em tonelada – vem em perda de competitividade.
Papo Reto

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