Em agosto do ano passado, o Fifpro (sindicato internacional de jogadores) apresentou resultados de um estudo feito com seu homólogo português e a federação de futebol do país sobre como o calor extremo afeta os atletas.
Reforçou na ocasião uma recomendação à Fifa já feita anteriormente, de que modificasse suas diretrizes para proteger a saúde e o desempenho dos jogadores.
Em maio, um mês antes do início da Copa do Mundo, um grupo de 21 especialistas de todo o mundo publicou uma carta aberta à Fifa sobre o tema.
Profissionais e pesquisadores nas áreas de medicina do esporte, saúde pública, desempenho e ciência do clima diziam, em suma, que as diretrizes para calor da entidade que rege o futebol mundial eram inadequadas e expunham a risco os atletas do Mundial.
Com o torneio em curso, as duas pausas obrigatórias para hidratação (de três minutos cada uma) viraram uma das grandes controvérsias desta edição, provocando muitas críticas (de treinadores, jogadores e torcedores) e alguns elogios (de técnicos e atletas).
Estimativas indicam que o maior ganho parece ser comercial –ao todo serão 208 novas janelas publicitárias, uma vez que a Copa terá ao todo 104 jogos.
Ao optar pela novidade, a Fifa ignorou tanto os representantes dos atletas quanto os cientistas.
Quando anunciou o “cooling break” obrigatório na Copa, em dezembro, a entidade observou que o calendário de jogos havia sido elaborado para “minimizar deslocamentos de equipes e torcedores, maximizar os dias de descanso entre as partidas para todas as seleções e permitir que o maior público global possível acompanhe seus times em diferentes fusos horários”.
Informou que “esse processo complexo” envolveu uma “análise técnica de todas as sedes” (incluindo temperaturas médias e infraestrutura de climatização) e debates entre diversas áreas da entidade, entre as quais “área médica, transmissão e radiodifusão e venda de ingressos”.
“Não há necessidade de pausas para hidratação em todos os jogos em locais fechados com controle térmico nem naqueles em que a temperatura não ultrapasse 26°C ou 28°C. Essas pausas alteram o ritmo da partida. Só devem ser adotadas quando estritamente necessárias por questões de segurança e desempenho”, disse à Folha o fisiologista americano Douglas Casa, professor emérito do Departamento de Cinesiologia da Universidade de Connecticut e um dos signatários da carta aberta à Fifa.
Para ele, o parâmetro da Fifa (excluindo a obrigatoriedade das duas paradas instituída na Copa) para calor é “totalmente inadequado”: pausa de três minutos caso o índice WBGT ultrapasse 32°C . WBGT é a sigla em inglês para Índice de Bulbo Úmido Termômetro de Globo, que estima os efeitos combinados de temperatura, umidade, vento e radiação solar sobre o corpo humano.
Desenvolvido originalmente para proteger o Corpo de Fuzileiros Navais dos EUA contra doenças relacionadas ao calor e mortes durante treinamentos, tornou-se referência internacional sobre o tema.
Com adaptações (esportistas não usam roupas militares), os limites de segurança do WBGT são: 25°C para esforço muito intenso, 26°C para esforço intenso, 28°C para esforço moderado, 30°C para trabalho leve e 33°C em repouso.
“O ideal seria algo em torno de 26°C ou 28°C. Além disso, para que a pausa seja realmente eficaz, ela precisa durar um pouco mais que 3 minutos, entre 5 a 6 minutos”, diz Casa, que é diretor-executivo do Korey Stringer Institute, centro da Universidade de Connecticut dedicado à saúde no esporte.
Ele sugere ainda garantir que todos os vestiários estejam totalmente equipados com sistemas de resfriamento e não marcar jogos em locais como Miami para as 17h ou 18h, horários em que ainda há uma carga significativa de calor radiante –em vez disso, agendá-los para as 20h ou 21h.
“Não vejo nenhuma ação da Fifa em relação às preocupações levantadas na carta. A pausa para hidratação de três minutos foi introduzida antes da nossa carta e não está em conformidade com o que foi sugerido nela”, disse à Folha a climatologista Ivana Cvijanovic, pesquisadora do IRD (Instituto de Pesquisa para o Desenvolvimento, na sigla em francês) e também signatária do documento.
Segundo ela, se a Fifa adotasse um limite mais razoável para o adiamento dos jogos –28°C de WBGT, por exemplo, como faz a União Ciclística Internacional, em vez dos atuais 32°C–, “essas pausas possivelmente poderiam ser evitadas. O ideal seria que tais decisões e recomendações se baseassem em dados reais, permitindo verificar os melhores limites e também a eficácia das pausas”.
Cvijanovic toca em outro ponto nevrálgico, também mencionado na carta.
“O ideal seria que o futebol deixasse de contribuir para o problema que enfrenta. Aceitar patrocínio da indústria de combustíveis fósseis torna o esporte conivente com a situação. Em segundo lugar, é preciso encarar a dura realidade de que os limites de segurança atuais são excessivamente altos e precisam ser reduzidos. E, se isso resultar na exclusão de certas localidades durante o verão, esse é o preço a pagar pela saúde dos jogadores mesmo que tais locais sejam justamente aqueles de onde provêm muitos dos patrocínios.”
A Fifpro indicou à reportagem um artigo científico de 2023 coassinado pelo diretor médico da entidade, Vincent Gouttebarge –o mesmo que conduziu o estudo em Portugal– sobre a mitigação dos efeitos do calor extremo em jogos de futebol, que inclui 11 recomendações, entre elas as de que um índice WBGT acima de 26°C (ou temperatura ambiente acima de 30°C) deve justificar pausas e índice WBGT acima de 28°C (ou temperatura ambiente acima de 36°C) deve levar ao atraso ou adiamento das partidas até que as condições para jogadores, oficiais e torcedores sejam mais seguras.
Diante das críticas, o presidente da Fifa, Gianni Infantino, defendeu a medida.
“Até o último segundo da partida os jogadores atacam. Talvez não, mas talvez seja também um pouco graças a essa pequena pausa. Nunca vimos 90 minutos em um torneio como este jogados com tamanha intensidade”, afirmou.
“Talvez o técnico possa reavaliar certas situações, corrigir certos erros. Os jogadores descansam um pouco e voltam a todo vapor. Bem, isso é necessariamente ruim? Talvez seja bom.”
Sobre a vocação comercial das pausas, Infantino disse que a Fifa não está ganhando dinheiro extra por isso porque os contratos foram assinados antes da decisão de introduzir as pausas para hidratação.
Há, no entanto, possibilidade de que emissoras que detêm os direitos de transmissão escolham que anúncios exibir, e não apenas dos parceiros da Fifa.

