Com a chegada do inverno entre junho e julho, cresce a procura por xarope para tosse no Brasil. Mas especialistas alertam: não existe comprovação científica de que esses medicamentos funcionem contra a tosse aguda causada por resfriados e outras infecções virais comuns da infância. Pior: o uso pode trazer efeitos colaterais graves, especialmente em crianças menores de dois anos.
Elisabeth Fernandes, da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), é direta: ‘Do ponto de vista médico, não existe um xarope com eficácia comprovada para tratar a maioria dos casos de tosse aguda causada por resfriados e outras infecções virais comuns da infância’.
Estudos não encontram benefício
Uma revisão publicada pela Cochrane em 2014 analisou 29 ensaios clínicos com 4.835 participantes. A conclusão foi clara: ‘Não foram encontradas boas evidências a favor ou contra a efetividade dos medicamentos de VL (venda livre) na tosse aguda’, afirmaram os pesquisadores.
Dos 29 estudos, 19 relataram efeitos adversos. ‘Efeitos colaterais infrequentes, principalmente menores, tais como náuseas, vômitos, dor de cabeça e sonolência’, descreveram os pesquisadores da Cochrane.
A Organização Mundial da Saúde (OMS) já havia publicado revisão técnica sobre tosse em 2001 com conclusões semelhantes. A American Academy of Pediatrics (AAP) e a American College of Chest Physicians (CHEST) também não recomendam o uso desses medicamentos.
Tosse é mecanismo de defesa
Paulo Telles explica a função da tosse: ‘A tosse é uma consequência da inflamação e, ao mesmo tempo, uma ferramenta para remover secreções, partículas e restos do processo infeccioso’.
Em quadros virais comuns, a tosse dura de 10 a 14 dias. ‘Temos que ressaltar que com ou sem xarope essa evolução acontece de forma igual. O uso de remédios não reduz gravidade, tempo ou risco de complicações, e não existem evidências que tragam benefícios, podendo inclusive levar a efeitos colaterais e riscos’, afirma Telles.
Riscos em crianças pequenas
Elisabeth Fernandes alerta para os perigos em crianças: ‘Em crianças pequenas, especialmente menores de dois anos, podem ocorrer efeitos mais graves, como depressão respiratória, alteração do nível de consciência e intoxicações por erro de dose’.
A Anvisa já suspendeu xaropes com clobutinol no passado por questões de segurança.
O que fazer então?
Roberta Pilla, da Associação Brasileira de Otorrinolaringologia e Cirurgia Cérvico-Facial (ABORL-CCF), orienta: ‘Costumo explicar aos pais que não existe um xarope capaz de ‘curar’ a tosse. Muitas vezes, a melhor conduta é oferecer conforto à criança enquanto o organismo se recupera. Além disso, evitar medicamentos desnecessários reduz o risco de efeitos colaterais e de exposições que não trazem benefício comprovado’.
Mel pode ser usado em crianças acima de um ano. Lavagem nasal com solução salina também ajuda.
Quando procurar o médico
Se a tosse durar mais de quatro semanas, é hora de buscar avaliação médica. ‘Nessas situações, é importante investigar causas como pneumonia, asma, bronquiolite, coqueluche ou outras condições respiratórias’, alerta Roberta Pilla.

