IníciobrasilÁfrica do Sul: Protestos contra imigrantes ganham força - 30/06/2026 - Mundo

África do Sul: Protestos contra imigrantes ganham força – 30/06/2026 – Mundo

Manifestantes envoltos em bandeiras e empunhando bastões de madeira se reuniram em diversas partes da África do Sul nesta terça-feira (30) para marchas anti-imigrantes, algumas das quais tiveram breves surtos de violência sob forte vigilância policial, enquanto lojas permaneciam fechadas e trabalhadores estrangeiros ficavam em casa.

Milhares de cidadãos estrangeiros de outros países africanos já haviam fugido do país antes do “prazo final” de terça-feira estabelecido pelos manifestantes para que todos os imigrantes em situação ilegal deixassem o território.

Em partes da principal cidade comercial, Johannesburgo, e da cidade portuária de Durban, centenas de manifestantes marcharam envoltos em bandeiras sul-africanas e carregando bastões de madeira, observados pela polícia com veículos blindados e helicópteros de apoio.

“As pessoas não estão trabalhando, os empregos estão sendo tomados por estrangeiros ilegais. Não é justo”, disse Silindile Xaba, 31, parte de um grupo de mulheres entoando falas xenófobas no centro de Durban.

XENOFOBIA

Os imigrantes interpretaram o prazo como uma ameaça física, e havia sinais esparsos de violência até o meio-dia no horário local, embora as marchas tenham sido majoritariamente pacíficas. A polícia disse ter prendido alguns saqueadores, sem fornecer mais detalhes.

Em Thembisa, subúrbio ao norte de Johannesburgo, manifestantes violentos atiraram pedras contra a polícia e suspeitos de serem imigrantes, enquanto tiros esporádicos podiam ser ouvidos perto do centro comercial.

O jornal Daily Maverick relatou que a polícia mobilizou veículos táticos e disparou tiros em Benoni, no leste de Johannesburgo, após ser ameaçada por 500 manifestantes.

Um porta-voz da polícia não respondeu imediatamente a um pedido de comentário. No densamente povoado assentamento de Soweto, manifestantes saquearam alguns barracos de estrangeiros, informou a emissora nacional SABC.

Pelo menos cinco pessoas foram mortas em atos de violência desde que os protestos começaram em abril, com milhares expulsas de suas casas ou tendo seus negócios e propriedades vandalizados.

Nesses ataques, que têm ocorrido esporadicamente na África do Sul desde 2008, pouca distinção é feita entre aqueles que entraram legalmente e os que não entraram.

O grupo March and March, liderado por um ex-apresentador de rádio responsável pelos últimos protestos, nega encorajar a violência e diz que não pode ser responsabilizado por atos espontâneos de raiva de sul-africanos contra imigrantes em situação irregular.

“Estamos tentando canalizar essa raiva em direção ao governo”, disse Jacinta Ngobese à agência Reuters em uma entrevista há duas semanas.

“Infelizmente, não podemos estar em cada comunidade dizendo a eles (…) como se comportar. Eles vivem com essas pessoas.”

Proprietários de imóveis em Durban e Johannesburgo estavam despejando ilegalmente inquilinos estrangeiros por medo de terem seus prédios vandalizados, disseram testemunhas.

“Todas essas pessoas foram expulsas por seus proprietários”, disse Mabako Majole, líder da comunidade congolesa, ao lado de cerca de cem pessoas dormindo ao relento no centro de Durban. “Todas essas pessoas são legais. Elas têm documentos.”

As marchas em várias cidades devem atrair muitos milhares de sul-africanos, em sua maioria pobres ou desempregados, que culpam os estrangeiros por suas dificuldades.

Milhares de policiais foram mobilizados e militares ficaram de prontidão com um orçamento emergencial de 600 milhões de rands (R$ 190 milhões), disse um porta-voz militar.

A onda de sentimento anti-imigrante e o que críticos dizem ser uma falha da polícia em proteger as vítimas mancharam a reputação da África do Sul pós-Nelson Mandela como defensora dos direitos humanos e tensionaram as relações com outras nações africanas.

Os imigrantes são culpados por tomar empregos, impulsionar a criminalidade e pressionar os serviços públicos —alegações que cientistas sociais dizem não ter evidências.

“Há ruas na cidade onde as lojas são todas administradas por estrangeiros. Na minha cidade natal (Ulundi), etíopes são donos de muitas lojas. Isso prejudica as pessoas que estavam lá antes”, disse Meluneki Dlamini, 31 anos e desempregado, à Reuters durante a marcha em Durban.

Trinta anos após o fim do apartheid, a África do Sul permanece desigual, o crescimento econômico é lento e um terço das pessoas está sem trabalho. Apesar disso, continua sendo a maior economia da África e segue atraindo imigrantes.

A população imigrante é de cerca de 3 milhões ou aproximadamente 4% do total, segundo a StatsSA —uma proporção relativamente baixa pelos padrões globais.

MEMBROS DE MILÍCIAS PRESOS

A vice-comissária nacional de polícia, Tebello Mosikili, disse que 103 casos criminais foram abertos contra membros de mílicias civis anti-estrangeiras desde março, e que o Estado tem o dever de garantir que as manifestações sejam pacíficas.

Alguns políticos ecoaram as preocupações dos manifestantes mesmo enquanto condenavam a violência.

“As profundas preocupações dos sul-africanos sobre a imigração ilegal (…) são reais e merecem ser ouvidas”, disse o presidente Cyril Ramaphosa em um comunicado na segunda-feira (29).

“Mas o direito de protestar (…) não permite que as pessoas ameacem ou intimidem outras, ou se envolvam em atos de vandalismo ou violência.”

Autoridades sul-africanas observam que países ocidentais enfrentam tensões semelhantes em relação à imigração, frequentemente alimentadas por políticas divisivas e desinformação.

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