A investigação sobre a morte da estudante de medicina Letícia de Morais Vasconcelos Rodrigues, de 40 anos, continua revelando novos detalhes sobre o caso que chocou Barbacena, no Campo das Vertentes, em Minas Gerais. A vítima foi assassinada com mais de 100 facadas dentro do apartamento onde morava. O principal suspeito do feminicídio é o namorado dela, Gustavo Dutra Lima, de 25 anos, que foi preso e teve a prisão em flagrante convertida em preventiva.
Além da brutalidade do crime, a investigação passou a considerar um importante antecedente: meses antes de ser assassinada, Letícia havia registrado um boletim de ocorrência contra Gustavo. No documento, registrado em 21 de fevereiro deste ano, a estudante relatou episódios de ameaças e ciúmes excessivos por parte do namorado, que também era colega dela na Faculdade de Medicina de Barbacena.
O registro agora integra o conjunto de elementos analisados pela Polícia Civil de Minas Gerais, que apura a dinâmica do crime, a motivação e o histórico do relacionamento entre vítima e suspeito.


Ex-marido encontrou o corpo
Novas informações obtidas por meio do Boletim de Ocorrência revelam como o corpo da estudante foi encontrado na noite de sábado, 27.
Segundo o documento, uma amiga, que também era vizinha de Letícia, começou a se preocupar depois de não conseguir contato com ela. A situação chamou ainda mais atenção quando perceberam que o carro da estudante não estava na garagem do prédio.
Diante da falta de respostas, a amiga entrou em contato com o ex-marido da vítima. Os dois tentaram localizar uma chave reserva do apartamento, mas não tiveram sucesso. Em seguida, decidiram ir até o imóvel acompanhados pelo padrasto de Letícia.
Sem conseguir acessar o apartamento pela entrada principal, o ex-marido pulou o muro que separava as sacadas dos imóveis vizinhos e entrou por uma porta de vidro que estava destrancada.
Ao descer para o primeiro andar da residência, encontrou Letícia caída na sala. Ele tentou chamá-la, mas não obteve resposta. Em seguida, retornou para a sacada e pediu ajuda.
Logo depois, o ex-marido, a vizinha e o padrasto da estudante arrombaram a porta principal do apartamento enquanto acionavam o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) e a Polícia Militar.
Em depoimento, o ex-marido contou que foi casado com Letícia durante aproximadamente 16 anos. O relacionamento terminou, mas os dois tiveram dois filhos.
Mais de 100 facadas
De acordo com a investigação preliminar e o trabalho da perícia, Letícia foi atingida por mais de 100 golpes de faca. Os ferimentos estavam concentrados principalmente na cabeça, pescoço e costas, demonstrando a extrema violência do ataque.
A Polícia Civil segue reunindo provas para esclarecer toda a dinâmica do crime.


Namorado é apontado como principal suspeito
Segundo a Polícia Militar, Gustavo Dutra Lima passou a noite no apartamento da vítima e deixou o prédio por volta das 8h15 da manhã de domingo, 28.
Quando os policiais chegaram ao imóvel, perceberam que o celular e o veículo de Letícia não estavam no local.
Durante as buscas, Gustavo foi localizado e preso em Bom Jardim de Minas, município situado a cerca de 180 quilômetros de Barbacena.
Após passar por audiência de custódia, a Justiça converteu a prisão em flagrante em prisão preventiva.
Conforme informou a Secretaria de Estado de Justiça e Segurança Pública de Minas Gerais, o suspeito está detido no presídio de São João del Rei.
A defesa dele, representada pelos advogados Tatiana Cristina Cavalieri Tomaz da Silva Chaves e Marcelo José Cerqueira Chaves, informou que não irá se manifestar sobre o caso neste momento.


Boletim de ocorrência reforça investigação
O boletim registrado por Letícia meses antes do assassinato passou a ter relevância na investigação.
Segundo a apuração, a estudante relatou às autoridades que sofria ameaças e enfrentava episódios de ciúmes excessivos durante o relacionamento com Gustavo.
A Polícia Civil trabalha agora para entender se esse histórico tem relação direta com o crime.
Além disso, o nome de Gustavo Dutra Lima aparece em outros processos registrados no Tribunal de Justiça de Minas Gerais (TJMG). Conforme o tribunal, existem registros relacionados a perturbação da ordem, difamação e posse de drogas para consumo pessoal. Outros detalhes sobre esses casos não foram divulgados.


Motivação ainda é desconhecida
Apesar dos avanços na investigação, a motivação do assassinato ainda não foi esclarecida.
Em nota, a Polícia Civil de Minas Gerais informou que o caso é investigado como feminicídio e destacou que novas informações não serão divulgadas neste momento para preservar o andamento da apuração.
Os investigadores continuam reunindo depoimentos, imagens e demais provas para esclarecer todas as circunstâncias do crime.
Quem era Letícia
Natural de Montes Claros, Letícia de Morais Vasconcelos Rodrigues cursava medicina em Barbacena e estava na reta final da graduação.
Em 2025, ela comemorou nas redes sociais a apresentação do Trabalho de Conclusão de Curso (TCC), etapa que marcava a conclusão da formação acadêmica.
Após a confirmação da morte, a Faculdade de Medicina de Barbacena divulgou uma nota de pesar, manifestando solidariedade aos familiares, amigos e colegas da estudante.
Nas redes sociais, pessoas próximas também prestaram homenagens e descreveram Letícia como uma mulher doce, educada, dedicada à família e muito querida por todos que conviviam com ela.
O corpo da estudante foi sepultado na segunda-feira, no Cemitério Parque Repouso da Saudade, em Barbacena.
O caso provocou forte comoção na cidade e voltou a chamar atenção para episódios de violência contra a mulher em que vítimas já haviam denunciado ameaças, comportamentos abusivos ou sinais de risco antes de serem assassinadas. Enquanto isso, a investigação prossegue para esclarecer a motivação do crime e todos os fatos relacionados ao histórico entre a vítima e o principal suspeito.

