No dia 14 de maio, a Fraternidade São Pio 10º fez uma “declaração de fé católica” em nome de “nosso Senhor Jesus Cristo”, que “fundou uma única igreja, que triunfou sobre Satanás, que conquistou o mundo, que permanece conosco até o fim dos tempos e que virá novamente para julgar os vivos e os mortos”.
Endereçou a carta pública ao “santíssimo padre”, papa Leão 14. Inicia o texto dizendo estar há mais de meio século empenhada em expôr “uma questão de consciência diante dos erros que estão destruindo a fé e a moral católicas”.
O que quer esse grupo católico ultratradicionalista e por que ele tem dado dor de cabeça a todos os seis papas de 1970 para cá?
Para começar a responder essa pergunta, é importante explicar de onde vem o nome da instituição que agora bate de frente com Leão 14 . Pio 10º liderou a Santa Sé no começo do século 20 e publicou uma encíclica na qual condena os “modernistas” da Igreja. “Eles arrastam católicos à heresia, mais ainda, à completa destruição de toda religião!”, disse então.
É o mesmo espírito da entidade que o homenageia. Fundada em 1970, pelo arcebispo francês Marcel Lefebvre, ela nasceu como uma reação às transformações promovidas pelo Concílio Vaticano 2º, realizado de 1962 a 1965.
O concílio foi uma grande reunião em Roma para modernizar a Igreja Católica. Ele mudou as missas de latim para o idioma local, fez o padre rezar de frente para o povo (antes era só de costas) e abriu o diálogo com outras religiões. Antimodernistas como Lefebvre rejeitavam essas reformas: preferiam manter as coisas como eram antes.
A Fraternidade Pio 10º comprou briga com o Vaticano ao marcar para esta quarta-feira (1º) a consagração de novos bispos sob sua influência. O problema é que grupo católico algum pode decidir por conta própria uma ordenação do tipo. Não tem autorização papal para isso, algo incontornável dentro de uma igreja tão afeita à sua hierarquia. A pena para quem seguir em frente é a excomunhão.
A crise coloca diante de Leão 14 um teste de autoridade, mas o conflito é mais antigo. Atingiu seu ponto máximo em 1988. Temendo pelo futuro da organização após sua morte, que ocorreria três anos depois, Lefebvre consagrou quatro bispos sem aval do papa João Paulo 2º, violação das mais graves na disciplina eclesiástica. O Vaticano excomungou os envolvidos e classificou o episódio de “ato cismático”.
O cisma acontece quando um grupo decide romper totalmente com as regras internas para criar um caminho próprio. O exemplo mais famoso foi a Reforma Protestante, em 1517. Martinho Lutero discordou de várias práticas da Igreja. Em vez de tentar mudar as coisas por dentro, seu movimento acabou rachando o cristianismo e criando novas abas cristãs, de onde viriam as atuais igrejas evangélicas.
A relação entre o Vaticano e a fraternidade é de vaivéns. Em 2009, Bento 16 suspendeu as excomunhões dos quatro bispos numa tentativa de reabrir o diálogo. O gesto, porém, foi ofuscado pela repercussão de declarações antissemitas de um dos beneficiários da medida. Richard Williamson havia questionado a existência das câmaras de gás nazistas e minimizado a dimensão do Holocausto.
O papa Francisco também fez acenos: validou casamentos celebrados pelo grupo e permitiu que padres ligados à fraternidade, que vive uma situação canônica irregular, pudessem ouvir confissões dos fiéis.
Apesar das divergências doutrinárias, a fraternidade nunca rompeu de vez com a Santa Sé. Foi o caso dos chamados sedevacantistas, que consideram ilegítimos os papas posteriores ao Concílio Vaticano 2º.
Nos últimos anos, de carona “no hype do tradicionalismo” como onda global, também ganharam visibilidade correntes católicas desgostosas com a modernização da Igreja, afirma o antropólogo Rodrigo Toniol, da UFRJ. Mas a Fraternidade Pio 10º em particular, segundo ele, “é um caso mais dramático porque, mesmo dentro do catolicismo, carrega a marca da controvérsia há muitas décadas”.
Seus seguidores povoam o mesmo imaginário conservador e contrarrevolucionário de grupos como Opus Dei e Legionários de Cristo, mas há uma diferença importante, diz Toniol. “Estes dois últimos são muito mais disciplinados e tementes ao papa.”
Chefe do Departamento de Ciências da Religião da PUC Minas, Rodrigo Coppe Caldeira diz que, numericamente, o grupo é pequeno. São menos de mil sacerdotes associados à fraternidade, “que ocupa as margens do catolicismo institucional”, afirma.
Não é à toa, contudo, que a instituição está em evidência, a despeito do tamanho modesto. “O que merece atenção é ela funcionar como a ponta mais visível de uma sensibilidade tradicionalista bem mais ampla e que tem um crescimento entre jovens e convertidos principalmente nos Estados Unidos e na França.”
Entre católicos de diferentes gerações, inclusive recém-convertidos, cresce a nostalgia por uma Igreja percebida como mais solene e estável. Ritos tradicionais viram símbolos de reverência e continuidade.
“É uma contradição que vale a pena registrar”, afirma Caldeira. Quando, em 2021, papa Francisco impõe rígidas restrições à missa tridentina, celebrada em latim, “ele acaba empurrando parte dessa demanda para a própria Fraternidade Pio 10º”.
Nesta terça (30), o papa Leão 14 fez um último apelo para que o grupo desista do plano de ordenar os bispos. Em carta, o sumo pontífice escreveu que a iniciativa representaria um cisma dentro da Igreja Católica e pediu que a organização “renuncie ao projeto”.
Agora é esperar pelo desfecho dessa crise, se no cisma ou na negociação. O papa pode concordar com as ordenações dos bispos, algo tido como improvável, ou a fraternidade pode desistir delas. Caso nada disso aconteça, o caminho é a excomunhão. Ou vai ou racha.

