Atormentado por colegas de classe, o adolescente Niall sofre com a violência física e mental, especialmente quando o chamam de gay. O cenário parece prestes a piorar quando ele recebe a notícia de que Ruben, um delinquente conhecido da cidade, saiu do reformatório e vai não só estudar com ele como também dividir seu quarto — as mães dos adolescentes estão morando juntas. Ruben é explosivo e imprevisível. Após alguns dias de convivência, os dois se conectam e se autodenominam irmãos. Ruben defende Niall dos valentões da escola; e o jovem franzino, por sua vez, ajuda o garoto-problema a passar de ano. Protagonistas da excelente minissérie Pela Metade, na HBO Max, a dupla de opostos, inicialmente, parece se completar — porém, eles desenvolvem uma relação parasitária ao longo de três décadas, deixando um rastro de destruição no caminho.

A produção em seis episódios é criação do escocês Richard Gadd, que também assinou a intrigante Bebê Rena, da Netflix, em 2024. Se na minissérie pop o produtor, roteirista e ator de 37 anos discorreu sobre uma experiência pessoal, de quando foi stalkeado por uma mulher, agora, Gadd, que interpreta Ruben na fase adulta, faz da ficção ferramenta para expor dilemas arraigados nele sobre os modelos tradicionais de masculinidade. Ruben representa o estereótipo da força e da dominação do dito macho alfa, postura que esconde feridas emocionais. Niall, por sua vez, vivido por Jamie Bell, reprime a própria sexualidade, preocupado com o que a sociedade e, principalmente, o irmão vão pensar dele, escolha que o leva por uma jornada de mentiras, manipulações e autodestruição.
A masculinidade tóxica é um tema que vem ganhando espaço nas produções de TV e no cinema nos últimos anos. Enquanto o exemplar histórico Taxi Driver, de 1976, foi pioneiro ao evidenciar o perigo de homens presos a padrões de comportamento violentos, títulos atuais, como Pela Metade ou a aclamada minissérie Adolescência, se aprofundam na ideia de que, apesar de serem vítimas de si mesmos, muitos homens acreditam que são martirizados pelo mundo ao redor, que não atende a suas expectativas. Ruben, por exemplo, nunca assume a responsabilidade pelos atos de violência que comete, enquanto Niall se frustra com a maior abertura da sociedade em relação aos amores homoafetivos — afinal, se ele não é capaz da autoaceitação, os demais também não deveriam ser.

No cinema, o tema vem sendo tratado com mais ironia e alfinetadas. A começar por Mestres do Universo, adaptação do desenho animado He-Man — aliás, há figura mais máscula do que um herói que se chama, ao pé da letra em português, Ele-Homem? Na trama, o herói é um garoto delicado que não consegue se tornar o brutamontes convicto que seu treinador quer. Com a invasão de seu reino pelo malvado Esqueleto, ele acaba refugiado na Terra, onde vira um profissional careta de recursos humanos. Isso até ser recrutado para voltar ao lar e derrubar o vilão. Assim, He-Man passa por um longo processo de descoberta, enquanto aprende que músculos podem, sim, andar lado a lado com a vulnerabilidade. “Espero que os homens que vejam o filme possam abraçar esta mensagem”, disse a VEJA o ator inglês Nicholas Galitzine, que dá vida ao herói nas telas.
Mais subjetivo é o filme de terror Obsessão, a grande surpresa de bilheteria do ano nos cinemas. Na trama, um rapaz tímido e dócil se apaixona pela colega de trabalho, mas é incapaz de chamá-la para sair. Seu problema é resolvido pelo sobrenatural quando ele pede a um objeto mágico que a garota o ame acima de tudo — uma “amarração para o amor”. Dito e feito, ela é possuída pela vontade do rapaz e, despida de livre-arbítrio, perde a lucidez, tornando-se uma espécie de encosto. O protagonista, então, vai aprender a duras penas que não há justificativa para ignorar o consentimento de uma mulher.

A receptividade do público para esse tipo de proposta tem sido grande, como demonstram os elogios de homens nas redes sociais aos personagens masculinos da série Off Campus: Amores Improváveis, do Prime Video. Nessa produção, os atletas de um time de hóquei nutrem uma amizade saudável entre si e tratam as garotas com quem se relacionam com respeito. Claro, a autora da série é uma mulher, a escritora Elle Kennedy. Apesar de idealizados, os rapazes não são sobre-humanos, pelo contrário: ao ter empatia pelo próximo e por si mesmos, eles mostram que a gentileza não é oposta à virilidade.
Publicado em VEJA de 26 de junho de 2026, edição nº 3001

