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Vietnã faz 50 anos de reunificação com legado controverso – 02/07/2026 – Mundo

Pouco mais de um ano após o fim da guerra de quase duas décadas no Vietnã, o país reuniu formalmente seus lados Norte e Sul, isolados durante o conflito que matou ao menos 1,1 milhão de vietnamitas. A reunificação, que marcou a fundação da República Socialista, completou 50 anos nesta quinta-feira (2).

O evento histórico encerrou uma divisão consolidada no século 20. O Norte vivia sob o modelo socialista, liderado pela figura revolucionária de Ho Chi Minh.

Já o Sul, de economia capitalista, foi comandado pelo presidente Nguyen Van Thieu na maior parte do conflito. Eles foram amparados pela Europa Ocidental e pelos Estados Unidos, cuja intervenção deixou marcas profundas —tanto no país asiático quanto na própria história americana.

“Sabemos que o Vietnã foi mais bombardeado do que toda a Europa na Segunda Guerra Mundial. Eles têm terras contaminadas e pontes destruídas, porque os EUA quiseram acabar com tudo que desse mobilidade para eles.”, diz Marta Luedemann, pesquisadora e professora de Geografia da Universidade Federal de Alagoas (UFAL).

Apesar do poder bélico rival, o apoio de potências socialistas e táticas de guerrilha mantiveram o Vietnã do Norte forte. Com a pressão interna e os Acordos de Paz de Paris de 1973, o então presidente americano, Richard Nixon, iniciou a retirada das tropas, selando o destino do Sul.

“O Vietnã do Sul perdeu a guerra quando os EUA desistiram de apoiá-los. Sozinhos, eles não tinham como lutar contra o Norte, que era apoiado pela União Soviética e pela China“, explica Tuong Vu, professor de ciência política e diretor do Centro de Pesquisa sobre o Vietnã da Universidade de Oregon.

No dia 30 de abril de 1975, as tropas do Norte invadiram a capital Saigon (hoje Cidade de Ho Chi Minh), derrubando a administração de Duong Van Minh —que assumira dias antes, após a renúncia de Thieu. O país seria unificado no ano seguinte.

Os primeiros anos trouxeram crise econômica e isolamento sob uma economia planejada. Vu, que viveu no Vietnã, diz se recordar do período de escassez extrema: “Você tinha que solicitar uma permissão [ao regime] para ir de um lugar para outro. Eles tinham um sistema muito rígido. Pela metade da década de 1980 tivemos uma grande fome. Eu estava lá e vi a fome”.

Diante do colapso, em 1986 o Partido adotou o Doi Moi (renovação), abrindo o país ao mercado. “Eles observaram o caso da China, com as ‘Quatro Modernizações’ de Deng Xiaoping, que geraram uma resposta muito rápida. Isso foi um estímulo para que eles também passassem por esse processo”, afirma Luedemann. “O Estado ficou na infraestrutura e nos projetos estratégicos, como energia, políticas sociais e comunicações.”

A mudança foi drástica. A economia cresceu mais de 12 vezes, com melhores indicadores de desenvolvimento. “O Vietnã teve fome. Dois anos depois, estávamos exportando arroz”, diz Vu.

Com investimentos internacionais, o país teve avanços sociais, tirando milhões da pobreza e gerando apoio à estrutura de poder. “O Partido Comunista usou a reforma para impulsionar sua legitimidade, argumentano que, por causa de suas políticas, o país alcançou o crescimento econômico”, ressalta Dũng Phan, pesquisador sênior do programa de estudos sobre o Vietnã no Instituto de Estudos do Sudeste Asiático (ISEAS).

O regime hoje enfrenta críticas globais. O país ocupa a 174ª posição entre 180 nações no ranking de liberdade de imprensa da Repórteres Sem Fronteiras. Relatórios da Anistia Internacional e Human Rights Watch apontam condenações arbitrárias por “propaganda contra o Estado” e intensa repressão institucional.

“O sistema não admitiria que é repressivo. Eles justificam dizendo que os ativistas estão ‘abusando da liberdade e da democracia’ e afirmam ter uma democracia que é melhor que a do Ocidente”, diz Vu.

Para Phan, o cidadão comum prioriza melhorias socioeconômicas. “Muitos pensam que há influência ocidental tentando instigar sentimentos anti-Estado. É por isso que concordam com a repressão a esses ativistas, pois veem isso como uma ameaça à estabilidade política”.

Vu observa que essa visão passa pelo ensino estatal. “O currículo é fortemente controlado pela propaganda. O que os jovens aprendem na escola é a serem leais e gratos ao Partido”. Não há oposição formal estruturada internamente, e valem as regras sociais de sucessão no Partido Comunista.

Por outro ângulo, Luedemann enxerga o progresso pela objetividade. “Eu não vejo o caso do Vietnã como sendo uma ditadura de perseguição. O saldo é muito positivo quando você retira 30 milhões de pessoas da miséria extrema. Aí o custo social valeu muito.”

Enquanto as visões divergem sobre liberdades, os números são consenso. Apesar de enfrentar o desafio de qualificar sua indústria e estar em meio às pressões da China e dos EUA, o Vietnã emerge no século 21 como uma das grandes histórias de recuperação econômica da Ásia.

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