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Enquanto critica a Águas do Pará, Daniel Santos não esclarece aplicação de quase R$ 10 milhões

Enquanto insiste em criticar publicamente a outorga da concessionária Águas do Pará, o ex-prefeito Daniel Santos mantém silêncio sobre a destinação de R$ 8,6 milhões que recebeu, em 24 de fevereiro de 2026, direto na conta-corrente da Prefeitura Municipal de Ananindeua, cuja destinação nunca foi esclarecida. Ao se apresentar como um dos principais cobradores da “qualidade dos serviços de abastecimento de água e esgotamento sanitário” no município, Daniel Santos tenta encobrir o destino do dinheiro que entrou nos cofres municipais justamente em decorrência da concessão que ele hoje contesta.

Documentos obtidos pela reportagem comprovam que a Prefeitura de Ananindeua recebeu, em 24 de fevereiro de 2026, o valor exato de R$ 8.607.745,70 referente à distribuição da outorga paga pelo consórcio Aegea Saneamento, vencedor do leilão de concessão dos serviços de água e esgoto realizado pelo Governo do Pará na Bolsa de Valores de São Paulo (B3). A empresa opera atualmente sob a marca Águas do Pará.

Os recursos foram transferidos por meio de quatro recibos bancários emitidos pelo Banco do Estado do Pará (Banpará), Agência Senador Lemos. Os documentos mostram que os valores saíram de conta vinculada à Secretaria de Planejamento do Estado do Pará e foram creditados diretamente na conta-corrente nº 001085418-5, de titularidade da Prefeitura Municipal de Ananindeua.

A distribuição ocorreu da seguinte forma: R$ 5.867.726,35 referentes ao Bloco A; R$ 1.534.319,78 relativos ao Bloco B; R$ 50.824,06 do Bloco C; e R$ 1.154.875,51 do Bloco D. Somados, os quatro repasses alcançaram R$ 8.607.745,70.

Daniel Santos enfrenta cobrança após receber recursos ligados à Águas do Pará sem transparência

Os documentos eliminam qualquer dúvida sobre o ingresso dos recursos nos cofres municipais. O que permanece sem resposta é como esse dinheiro foi utilizado.

Concessão criticada, mas financeiramente aproveitada

O caso revela uma contradição política que tem chamado atenção nos bastidores do município. Nos últimos meses, Daniel Santos passou a adotar um discurso cada vez mais duro contra a Águas do Pará, responsabilizando a concessionária por problemas relacionados ao abastecimento e à infraestrutura de saneamento.

Entretanto, durante sua gestão, Ananindeua participou do modelo regionalizado de concessão implantado pelo Governo do Estado e recebeu recursos financeiros diretamente vinculados à operação.

Na prática, o município não apenas integrou o processo de concessão como também foi beneficiado por ele. Isso torna inevitável um questionamento: se o modelo era tão prejudicial quanto hoje sustenta o ex-prefeito, por que sua administração recebeu os recursos sem apresentar qualquer contestação pública ao mecanismo de distribuição da outorga?

Onde foi parar o dinheiro?

A pergunta que ecoa entre moradores e especialistas é simples: qual foi a destinação dos R$ 8,6 milhões? Os valores oriundos da concessão poderiam ter servido para reforçar investimentos em drenagem, saneamento, recuperação de canais, combate a alagamentos e melhoria da infraestrutura urbana. São justamente áreas que continuam entre as principais reclamações da população de Ananindeua.

Em diversos bairros, moradores ainda convivem com ruas alagadas durante o período chuvoso, canais obstruídos, esgoto a céu aberto e deficiência na rede de drenagem. Apesar disso, não há ampla divulgação pública indicando quais obras ou programas específicos foram financiados com o dinheiro recebido da outorga.

A falta de transparência torna-se ainda mais relevante porque o município historicamente enfrenta dificuldades de planejamento no setor. Relatórios técnicos e auditorias já apontaram, em diferentes momentos, fragilidades na estrutura de governança do saneamento básico local, dificultando o acompanhamento das metas e dos investimentos.

Contratos milionários e falta de prestação de contas

O debate sobre a aplicação de R$ 8,6 milhões também coincide com um período de intensa contratação por parte da administração municipal. Nos meses que antecederam sua saída do cargo para disputar novos projetos políticos, Daniel Santos homologou contratos milionários nas áreas de infraestrutura, limpeza urbana e meio ambiente.

Somente no primeiro semestre de 2026, a prefeitura autorizou cerca de R$ 113 milhões em contratos relacionados a serviços ambientais e obras de infraestrutura. Porém, o mistério continua, uma vez que não há, até o momento, informações públicas que permitam identificar se os R$ 8,6 milhões provenientes da outorga foram vinculados a algum desses contratos ou destinados a outras ações específicas.

A ausência dessa prestação de contas alimenta dúvidas sobre a efetividade do uso dos recursos e reforça a necessidade de esclarecimentos à sociedade.

Interesse público e transparência

A discussão ganha ainda mais relevância diante do histórico de fiscalizações e investigações envolvendo contratos públicos em Ananindeua. Órgãos de controle, como o Ministério Público e os tribunais de contas, já conduziram diversas apurações relacionadas à aplicação de recursos municipais ao longo dos últimos anos.

Nesse contexto, a cobrança por transparência não representa uma disputa política, mas uma exigência de interesse público.

Os comprovantes bancários obtidos pela reportagem demonstram que os recursos foram efetivamente recebidos pela prefeitura. A população, porém, continua sem saber quais benefícios concretos esses milhões recebidos por Daniel Santos proporcionaram ao município.

Enquanto isso – como se pudesse esconder esse alto valor recebido em uma cortina de fumaça – o ex-prefeito faz o papel de “crítico da concessão do saneamento”, sem, no entanto, apresentar resposta razoável para uma questão fundamental: onde foram aplicados os milhões de reais que Ananindeua recebeu justamente por causa da concessão que ele hoje condena?

A reportagem solicitou posicionamento ao ex-prefeito Daniel Santos e à Prefeitura de Ananindeua sobre a destinação dos recursos repassados em fevereiro de 2026. Até o fechamento desta edição, não houve retorno. O espaço permanece aberto para manifestação.

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