A análise aprofundada das comunidades ribeirinhas do município do Acará, no nordeste do Pará, e a criação de centro cultural para potencializar o desenvolvimento da população da região foi tema de um Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) de Arquitetura, em uma universidade em São Paulo. Batizado de “As Comunidades Ribeirinhas e as Edificações sobre a Água no Baixo Acará”, o projeto feito por Maria Clara Mattar foi aprovado com louvor na última terça-feira (16/6). Ela contou como a percepção da necessidade do equipamento veio a partir de sua experiência pessoal por mais de 20 anos no local e de que forma o trabalho pode impactar positivamente na vida dos ribeirinhos.
A família de Maria possui um sítio no Baixo Acará. E, a partir da convivência com o local e o carinho pela região, ela percebeu “a carência de equipamentos públicos” nos setores de lazer, saúde e educação para as comunidades que moram lá. Por isso, surgiu a ideia de ela elaborar em seu TCC um trabalho que trate dessa deficiência. Além de pesquisar sobre a Amazônia, dos povos indígenas e da arquitetura vernacular — tipo de construção regional, feita sem a supervisão de arquitetos ou engenheiros e que utiliza saberes tradicionais de uma comunidade.
A criação do centro cultural busca potencializar o desenvolvimento da população da região do Baixo Acará. (Foto: Maria Clara Mattar)
“É um centro cultural voltado para as comunidades do Baixo Acará, com atividades que enaltecem a cultura regional, lazer e, de certa forma, como sustento próprio. Ao mesmo tempo que existem salas de educação, bibliotecas e de informática, também coloquei um centro gastronômico pensando na produção do açaí, chocolate e cacau, além de salas de artesanato para o desenvolvimento de miriti, biojoias e cerâmica”, explicou Mattar sobre o projeto.
“Para falar sobre edificações na água, eu entro em arquitetura vernacular para entender como ela se manifesta em diversas regiões, mas como isso acontece na região amazônica, principalmente com as palafitas. É um trabalho que estuda esses três quesitos (a Amazônia, povos indígenas e arquitetura vernacular) para conseguir unir esses três elementos”, complementou.
Maria Clara afirmou que, desde o início do curso, já tinha intenção de elaborar um TCC voltado para o tema da sustentabilidade. Com o passar dos anos de estudo, ela uniu a vontade de trabalhar com esse assunto junto à saudade do Pará. “Foi muito natural que, nesse momento final, eu voltasse o olhar para a minha própria região”, destacou.
Na pesquisa, a arquiteta verificou o crescimento no número de equipamentos privados e a falta de ferramentas públicas no Baixo Acará. “Esse foi um dos principais pontos abordados no trabalho: perceber que essa região está cada vez mais sendo ocupada e há uma carência maior de equipamentos de saúde, educação, lazer para as pessoas que moram ali”, disse.
A arquiteta relatou que o que a marcou na produção desse trabalho foi entender a história de sua família na região e as mudanças materiais pelas quais o sítio passou desde a década de 80. Por meio dessas observações, ela conseguiu entender situações parecidas que acontecem em locais fora do Baixo Acará, como, por exemplo, a Ilha do Combu, em Belém.
“Houve momentos em que ele (sítio) foi uma arquitetura vernacular e se adaptou à região de uma forma muito inteligente e se integrou com o ambiente usando a madeira, palha ou a telha de cerâmica. Mas houve épocas com uma ruptura abrupta desse sítio com o meio externo, que é o que observo na Ilha do Combu e em alguns investimentos privados. Então, tiveram momentos em que o sítio estava trazendo materiais de fora (concreto), que utilizamos num contexto diferente, e não deu certo. A palafita acabou caindo, quase como se a natureza a rejeitasse”, detalhou.
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