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Alunos desafiam o tempo e retomam os estudos em busca de novos sonhos, nas Usinas da Paz | Pará

As Usinas da Paz vêm se consolidando como espaços de transformação social, cidadania e aprendizado para milhares de paraenses. Entre os diversos serviços oferecidos gratuitamente à população, a Educação de Jovens e Adultos (EJA), desenvolvida em parceria com a Secretaria de Estado de Educação (Seduc), tem proporcionado uma nova oportunidade para pessoas que não tiveram acesso à escola ou não conseguiram concluir os estudos na idade adequada. Mais do que promover alfabetização e escolarização, o projeto fortalece a autoestima, amplia perspectivas de futuro e contribui para a inclusão social de jovens, adultos e idosos que encontram nas Usinas da Paz um caminho para retomar sonhos e construir novas histórias.

Aos 63 anos, Kátia do Socorro Silva Parente voltou a ocupar uma carteira escolar e descobriu que nunca é tarde para aprender. Há dois anos, ela frequenta as aulas de alfabetização oferecidas na Usina da Paz do bairro da Cabanagem, em Belém, e comemora cada conquista, desde a leitura das primeiras palavras até a possibilidade de seguir estudando.


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Kátia do Socorro Silva Parente. (Cristino Martins | O Liberal)

Ao recordar o início da trajetória, Kátia explica que precisou recomeçar do básico para desenvolver a leitura. “Eu comecei conhecendo as letras e palavras pequenas para aprender a ler. Depois fui aprendendo palavras maiores. Hoje eu já consigo ler um pouco mais. Ainda tenho dificuldade para escrever algumas coisas, mas ler eu já consigo”, afirmou.

Ela conta que decidiu procurar a alfabetização ao descobrir que havia uma turma voltada para pessoas que precisavam começar os estudos do zero. “Quando eu soube que tinha alfabetização, resolvi me inscrever. Achei que fosse primeira, segunda ou terceira série, mas era começando do zero mesmo. Foi muito bom para mim. Muitas coisas a gente esquece, mas quando a professora explica, a gente entende e vai aprendendo”, comentou.

Moradora da comunidade atendida pela Usina da Paz, Kátia divide a rotina entre os afazeres domésticos, os estudos e outras atividades oferecidas pelo complexo. Além das aulas de alfabetização, ela participa de atividades físicas e leva os exercícios para fazer em casa.

Segundo ela, a retomada dos estudos trouxe benefícios que vão além da aprendizagem. “Tem feito muita diferença para mim. A gente vai aprendendo mais e também vai esquecendo um pouco os problemas. Quando está estudando, fazendo atividade, a mente fica ocupada. Para mim, é um alívio”, destacou.

Kátia também deixa uma mensagem para quem ainda tem receio de voltar à sala de aula. “Não desistam do objetivo de estudar, porque nunca é tarde para aprender. Eu sempre tive vontade de me formar. Não consegui naquela época, mas hoje estou correndo atrás”, frisou.

Apesar dos desafios, ela continua alimentando sonhos para o futuro. “Sempre tive vontade de fazer o Enem. A gente tem que tentar. Se eu pudesse escolher uma profissão, gostaria de ser psicóloga. Esse sempre foi o meu sonho”, afirmou.

Alfabetização

Outra história de superação é a da costureira Maria Amélia Reis Souza, de 64 anos. Sem lembrar exatamente em que série interrompeu os estudos, ela decidiu procurar a Usina da Paz para aprender a ler e compreender melhor as anotações, medidas e marcações utilizadas no trabalho.

Ao lembrar do primeiro contato com a alfabetização, Maria Amélia destaca a transformação que viveu nos últimos anos. “Quando eu cheguei aqui, não sabia nada. Só sabia mal assinar o meu nome. Hoje eu já estou lendo um pouco, já consigo fazer atividades e formar frases. Estou muito feliz. Só tenho que agradecer a Deus, aos professores, à direção e a todos que ajudam a gente”, agradeceu.


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Maria Amélia Reis Souza, de 64 anos. (Cristino Martins | O Liberal)

Ela conta que quase desistiu antes mesmo de iniciar as aulas, mas foi incentivada a permanecer e encontrou na filha uma importante aliada durante o processo. “Eu saí da fila triste, mas me explicaram que teria alfabetização. Minha filha me incentivou muito e eu resolvi vir. Comecei fazendo as atividades aos poucos e hoje já consigo ler. Não muito ainda, mas já consigo”, contou.

Os avanços conquistados na sala de aula também passaram a refletir diretamente no trabalho como costureira. “Melhorou muito. Hoje eu já entendo melhor os moldes, consigo fazer as medidas e compreender melhor algumas coisas da costura. Isso me ajudou bastante”, destacou.

Maria Amélia afirma que pretende continuar estudando enquanto tiver oportunidade. “Enquanto tiver professora e eu puder continuar, eu quero seguir aprendendo e melhorando. O meu projeto é continuar estudando e aproveitar tudo o que eu puder aprender”, pontuou.

Ao falar sobre as conquistas alcançadas, ela cita palavras que antes não conseguia ler. “Hoje eu consigo ler palavras como casa, bola, dado e mola. Pode parecer simples, mas para mim é uma grande conquista”, ressaltou.

Por trás das histórias de superação vividas por alunos como Kátia e Maria Amélia existe um trabalho pedagógico que busca acolher, motivar e respeitar o ritmo de aprendizagem de cada estudante. É o que destaca a professora Denise de Andrade Estumano, que atua nas turmas de alfabetização da Usina da Paz da Cabanagem.

Pedagoga e mestranda em Educação, Denise explica que o trabalho com jovens, adultos e idosos exige sensibilidade e atenção às necessidades individuais de cada aluno. “Eles chegam com a expectativa de aprender a ler e escrever. Por isso, o acolhimento é essencial para desenvolver um bom trabalho. O professor precisa deixá-los mais tranquilos para que possam aprender. Nós buscamos criar um ambiente alfabetizador e motivador, porque isso faz diferença no desenvolvimento deles”, afirmou.

Segundo a professora, a metodologia utilizada vai além da sala de aula. As atividades incluem experiências externas que ajudam a relacionar o aprendizado com situações concretas do cotidiano. “Nós realizamos aulas extraclasse e trabalhamos o letramento envolvendo a nossa fauna e a nossa flora. Essas atividades ajudam a criar um ambiente mais motivador para eles. Quando o aluno se sente acolhido e estimulado, o aprendizado acontece de forma mais natural”, explicou.

Ela observa que muitos estudantes chegam enfrentando dificuldades que interferem diretamente na autonomia do dia a dia. “Muitos relatam que não conseguem pegar um ônibus por causa da falta da leitura, não conseguem dar um troco ou até mesmo fazer uma medida. Aqui eles aprendem não apenas a ler e escrever, mas também uma leitura de vida, necessária para conduzir as atividades do cotidiano”, destacou.

Para Denise, as turmas representam um importante instrumento de inclusão social e cidadania. “O trabalho desenvolvido nas Usinas da Paz é uma política pública de cidadania. O nosso papel é acolher essas pessoas e trabalhar a inclusão. São comunidades que muitas vezes dependem desse suporte para melhorar a qualidade de vida e ampliar as oportunidades no mercado de trabalho”, ressaltou.

A professora explica que o primeiro passo é identificar o nível de conhecimento de cada estudante para construir estratégias adequadas de ensino. “É essencial saber onde eles pararam. Há alunos que reconhecem apenas as letras e outros que já conhecem as sílabas. A partir dessa avaliação, conseguimos desenvolver um trabalho mais eficiente. Quando eles percebem que estamos respeitando a trajetória de cada um, ficam mais motivados”, comentou.

Desde que assumiu a turma, no início de 2026, Denise afirma já ter percebido avanços significativos. “Eu já vi um grande progresso deles em relação à leitura e à escrita. Muitos chegam inseguros, mas aos poucos vão ganhando confiança e desenvolvendo suas habilidades”, pontuou.

Para ela, acompanhar essa transformação é uma das maiores recompensas da profissão. “Quando escolhi a Educação, sabia que tinha uma missão. Trabalhar com pessoas que realmente precisam desse apoio é algo muito motivador. Quando a gente faz o bem, a gente também se sente bem. Ver a mudança na vida dessas pessoas é gratificante e faz parte da minha missão como educadora”, afirmou.

Denise destaca ainda que a alfabetização de jovens, adultos e idosos exige o mesmo cuidado dedicado às etapas iniciais da educação. “Eles retornam aos estudos muitas vezes partindo do zero. Por isso, precisamos trabalhar com inclusão, respeito e incentivo. Com o suporte das Usinas da Paz, conseguimos desenvolver um trabalho muito importante para a aprendizagem e para a autoestima desses alunos”, concluiu.

As histórias de Kátia e Maria Amélia refletem uma iniciativa que vem sendo desenvolvida nas Usinas da Paz desde a inauguração da primeira unidade, no Icuí-Guajará, em Ananindeua, em outubro de 2021.

Segundo o coordenador do Programa TerPaz da Seduc, Rodrigo da Silva de Jesus, atualmente 89 jovens, adultos e idosos participam das atividades de alfabetização ofertadas nos complexos. “Desde a inauguração da primeira Usina da Paz, já atendemos 764 alunos. Toda usina inaugurada passa a oferecer esse serviço para a população”, informou.

Atualmente, a atividade de Alfabetização de Jovens e Adultos está presente em todas as 31 Usinas da Paz inauguradas e em funcionamento no Pará. “A formação das turmas ocorre conforme a demanda identificada em cada território. Dessa forma, as unidades podem contar com uma ou mais turmas em funcionamento, de acordo com o interesse da comunidade e o número de matrículas realizadas”, explicou.

Segundo Rodrigo, a ampliação da oferta acompanha a expansão do próprio programa. “Com a inauguração de novas Usinas da Paz, a atividade poderá ser disponibilizada para atender a população local, ampliando o acesso à alfabetização e à inclusão educacional de jovens, adultos e idosos”, afirmou.

A quantidade de turmas varia conforme a procura registrada em cada território atendido. “Em geral, as unidades podem contar com uma ou mais turmas em funcionamento, conforme o quantitativo de matrículas efetivadas”, informou.

O coordenador explica que a proposta pedagógica foi elaborada pela equipe técnica da Seduc e está alinhada às diretrizes do Programa Alfabetiza Pará. “A proposta prioriza o desenvolvimento das habilidades de leitura, escrita e raciocínio lógico-matemático. A atividade é destinada a jovens, adultos e idosos que não foram alfabetizados ou que necessitam fortalecer competências básicas de aprendizagem”, destacou.

Rodrigo explica ainda que as atividades são voltadas para pessoas que não tiveram acesso à educação ou não concluíram os estudos na idade adequada. “Dentro da alfabetização, eles aprendem língua portuguesa e matemática. Trabalhamos a identificação das letras, pequenas leituras, números e formas geométricas. Temos histórias de pessoas que procuraram as aulas porque queriam aprender a ler placas de informação ou identificar o ônibus correto”, relatou.

Segundo ele, o objetivo é ir além da alfabetização e incentivar a continuidade da trajetória escolar. “Nós incentivamos aqueles que desejam retornar ao ensino regular e também ajudamos no cadastro para o Encceja, para que possam concluir o ensino fundamental e o ensino médio”, explicou.

Os resultados observados ao longo dos últimos anos demonstram o impacto da iniciativa nos territórios atendidos pelas Usinas da Paz. “Atualmente, o índice médio de frequência dos participantes matriculados é superior a 75%, demonstrando o engajamento dos alunos e a importância da oferta educacional nos territórios atendidos”, ressaltou.

Além dos avanços na alfabetização, o coordenador destaca que a proximidade das unidades com as comunidades tem contribuído para reduzir a evasão e fortalecer a permanência dos estudantes. “O acompanhamento pedagógico contínuo e a oferta das atividades em espaços acessíveis e próximos das comunidades têm contribuído para fortalecer a permanência dos participantes, reduzindo situações de abandono e ampliando as oportunidades de inclusão social e exercício da cidadania”, pontuou.

O coordenador destaca ainda que a maior parte dos estudantes é formada por adultos e idosos, principalmente mulheres, que conciliam trabalho, família e estudos. “Muitas dessas pessoas procuram não apenas o aprendizado da leitura e da escrita, mas também um espaço de convivência, reconhecimento e cidadania. Elas fazem amizades, participam de atividades externas e encontram um ambiente acolhedor”, destacou.

Além da alfabetização, as Usinas da Paz oferecem uma ampla rede de serviços voltados à cidadania, saúde, qualificação profissional, esporte e lazer. Na Usina da Paz da Cabanagem, por exemplo, mais de 70 serviços são disponibilizados gratuitamente à população.

Segundo o diretor da unidade, Vando Silva, o objetivo é aproximar serviços essenciais das comunidades e facilitar o acesso da população a oportunidades que antes exigiam deslocamentos para outros pontos da cidade. “A Usina da Paz da Cabanagem dispõe de mais de 70 serviços. Temos cursos profissionalizantes, atividades esportivas, assistência social, atendimento psicológico, odontologia, clínica médica e emissão de documentos. O objetivo é trazer comodidade para a comunidade, porque muitas vezes as pessoas não têm condições de se deslocar para acessar esses serviços”, afirmou.

Entre as atividades oferecidas estão hidroginástica, natação para bebês, crianças, adolescentes e adultos, boxe, muay thai, karatê, jiu-jítsu, capoeira, futsal, vôlei e basquete. Na área da assistência, a unidade disponibiliza emissão da Carteira de Identidade Nacional, segunda via de certidões, atendimento social, psicológico e encaminhamentos para consultas e exames especializados. “O paciente faz a consulta aqui na Usina da Paz e já sai com o encaminhamento para exames ou especialistas. Também temos o banco de empregos, onde a pessoa pode cadastrar o currículo e consultar vagas disponíveis”, explicou.

De acordo com Vando, os serviços não são exclusivos para moradores da Cabanagem. “A Usina da Paz é aberta para todos. Qualquer pessoa pode utilizar os serviços, seja moradora da Cabanagem, de outros bairros ou até mesmo de outros municípios”, destacou.

O diretor também ressalta que os cursos de qualificação profissional têm contribuído para a inserção de moradores no mercado de trabalho e para a criação de pequenos negócios. “Recebemos muitos relatos de pessoas que participaram de cursos profissionalizantes e conseguiram uma vaga de emprego ou abriram o próprio negócio. Temos cursos de gastronomia, costura, informática, auxiliar administrativo, refrigeração e diversas outras áreas. A Usina da Paz está ajudando a mudar a realidade da comunidade por meio da qualificação profissional”, pontuou.

Segundo ele, a procura pelos serviços tem aumentado à medida que mais moradores conhecem as oportunidades oferecidas nos complexos. “Cada vez mais a demanda da Usina da Paz aumenta e mais pessoas estão sendo qualificadas para o mercado de trabalho. É uma transformação que a gente acompanha diariamente”, concluiu.

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