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Pesquisas apontam que Daniel arrisca teto eleitoral com polarização no Pará

A

s pesquisas de intenção de voto realizadas ao longo dos últimos meses no Estado constroem um retrato claro do que está em jogo – e esse retrato tem uma geometria incômoda para quem quer crescer além do patamar onde já está.

Estudos sugerem que parte do eleitorado não processa a eleição pela ótica da polarização nacional, mas à luz da gestão estadual/Fotos: Divulgação.

Desde o segundo semestre de 2025, quando os primeiros levantamentos sistemáticos começaram a mapear a disputa pelo Palácio dos Despachos, Daniel Santos oscilou dentro de uma faixa relativamente estreita. A Doxa o registrou com 27,7% em abril de 2026. A Quaest, em levantamento realizado entre 21 e 25 de abril com 900 eleitores e margem de erro de três pontos percentuais, captou um empate técnico entre ele e Hana Ghassan – com Daniel oscilando entre 22% e 24% nos dois cenários testados. A Veritá chegou a registrá-lo em 31,8% no início de abril, num cenário em que Hana aparecia com 18,7% e Mário Couto com 12,7%. O Paraná Pesquisas, em março, apontou Daniel liderando o primeiro cenário estimulado com 39,1%, mas empatado tecnicamente com Hana e Éder Mauro no segundo.

Lidos em conjunto, os dados revelam um candidato que construiu uma base sólida, reconhecida como líder ou co-líder na maioria dos levantamentos, mas cujo crescimento apresenta resistência significativa a partir de determinado ponto. Esse ponto, nas pesquisas que o colocam mais alto, gravita em torno de 30% a 32%. Não é casual que esse número coincida, com razoável precisão, com o percentual do eleitorado paraense que se identifica com o bolsonarismo como campo político.

O próprio levantamento da Quaest para o cenário presidencial oferece a chave interpretativa: no Pará, Flávio Bolsonaro, candidato bolsonarista à Presidência, aparece com 32% das intenções de voto, numa disputa onde Lula registra 35%. São, portanto, dois campos de tamanho semelhante – nenhum deles majoritário – competindo pelo poder num Estado em que a faixa de eleitores não alinhados a nenhum dos dois polos pode perfeitamente definir o resultado.

Eleitorado decide

A pesquisa da Quaest para o governo do Pará produziu um dado que merece leitura cuidadosa. Quando perguntados sobre a preferência majoritária do eleitorado em relação à polarização nacional, os resultados apontaram para um perfil desvinculado tanto do lulismo quanto do bolsonarismo. Oito em cada dez eleitores não souberam apontar quem é o candidato de Lula no Estado – apenas 17% citaram Hana. No campo bolsonarista, 87% desconheciam o nome apoiado pelo ex-presidente. Daniel sequer foi identificado pela maioria como o candidato do campo conservador.

Esse desconhecimento não é ignorância política. É um sinal de que o eleitorado paraense, na sua parcela mais ampla e disputável, não está processando a eleição estadual pelo prisma da guerra nacional PT versus PL. Está avaliando candidaturas à gestão do Estado, à continuidade ou ruptura com o projeto de Helder Barbalho, à credibilidade pessoal dos concorrentes – não ao alinhamento com Jair Bolsonaro ou Lula.

É exatamente o eleitor – desalinhado, avesso à polarização, que tende a acompanhar candidatos com perfil de gestão e proximidade com o poder local – que Hana Ghassan disputa com mais eficiência estrutural. E é também esse eleitor que Daniel precisaria conquistar para superar a barreira dos 30% e construir uma vitória.

Densidade eleitoral

Para compreender o peso do cenário, é preciso ter em conta uma variável que transcende os números imediatos das pesquisas para governador: Helder Barbalho. O ex-governador que deixou o Palácio dos Despachos para concorrer ao Senado carrega consigo, neste momento eleitoral, uma aprovação de 63% registrada pela Quaest em abril de 2026 – número que o Paraná Pesquisas havia captado em 61,4% em março. O Real Time Big Data, ainda em fevereiro, havia registrado aprovação de 80% entre os eleitores paraenses. A variação entre institutos é esperada; o que não varia é a direção: Helder tem aprovação majoritária e sólida.

Mais do que isso, 56% dos eleitores acreditam que ele merece eleger um sucessor – dado da própria Quaest. E Helder lidera com folga a corrida ao Senado, com entre 40% e 50,1% das intenções de voto nos diferentes levantamentos, uma vantagem de mais de 20 pontos sobre o segundo colocado. Essa densidade eleitoral – aprovação alta, capacidade de transferência de voto, estrutura de máquina com 13 deputados estaduais, centenas de vereadores e prefeituras estratégicas espalhadas pelo estado – é o ambiente em que Hana cresce.

É um ambiente profundamente adverso para quem precisa de crescimento fora da base já fidelizada. A máquina de Helder não apenas sustenta Hana – ela estrutura o território, financia a presença capilar, mobiliza prefeitos e vereadores, e constrói a narrativa de continuidade que protege a candidatura governista mesmo quando os números oscilam.

Risco do palanque

Por meses, a estratégia de Daniel foi a ambiguidade. O ex-prefeito de Ananindeua, que passou pelo PSDB, pelo MDB e pelo PSB antes de chegar ao Podemos em 2026, construiu sua imagem como alguém que representa a alternativa ao grupo de Helder sem se definir inteiramente como bolsonarista. Helder e sua máquina de propaganda se esforçaram sempre em empurrar Daniel para o bolsonarismo, mas essa identidade não está construída. A própria imprensa paraense já o descreveu como o “candidato camaleão” – aquele que tenta captar votos de campos distintos sem jamais se comprometer plenamente com nenhum deles.

Essa ambiguidade tinha uma lógica eleitoral: ao não se identificar abertamente com o bolsonarismo, Daniel poderia eventualmente atrair eleitores de centro, da esquerda e de direita moderada que desejam uma alternativa ao grupo dominante sem se sentir obrigados a abraçar o campo de Jair Bolsonaro. O dado que indica 87% de desconhecimento sobre seu alinhamento bolsonarista, paradoxalmente, era um ativo – deixava espaço para que cada eleitor o interpretasse a partir de suas próprias lentes.

O problema começa quando o candidato sobe ao palanque de Flávio Bolsonaro. A visita do senador ao Pará revelou, nos bastidores, a tensão inerente a essa posição. Daniel compareceu ao evento em Belém com discrição calculada, evitou protagonismo, publicou apenas uma nota protocolar. Seus aliados leram o comportamento como estratégia de “aliança silenciosa” – aceitando o apoio sem a publicidade completa. Mas quanto mais o palanque nacional bolsonarista se consolida, mais difícil se torna manter essa posição ambígua. As câmeras registram a presença. As redes sociais distribuem as imagens. O eleitor desalinhado, que não queria votar “num candidato do Bolsonaro”, vai construindo gradualmente a percepção de que é exatamente isso que está diante dele.

Estratégia ou armadilha?

Há uma metáfora anglófona, o rabbit hole – o buraco do coelho -, que descreve a experiência de entrar num caminho que parece apenas uma investigação legítima, mas que vai puxando o sujeito cada vez mais fundo, em espiral, até que ele perde a noção do panorama geral. A imagem vem de “Alice no País das Maravilhas”: você desce um pequeno degrau, depois outro, depois mais um, e quando percebe está tão fundo que não consegue mais ver a saída.

É exatamente esse o risco que a estratégia de alinhamento ao campo bolsonarista nacional representa para Daniel Santos na disputa pelo governo do Pará. O primeiro passo – participar de um evento com Flávio Bolsonaro – parece razoável: afinal, o campo conservador precisa de palanque estadual. O segundo passo – deixar o PL indicar o vice numa chapa conjunta – também tem uma lógica de soma de forças.

O terceiro – aparecer em propagandas com a narrativa nacional de “combate ao establishment petista-barbalhista” – parece natural dentro da gramática do campo.  Mas cada passo aprofunda o buraco. Cada imagem de palanque consolida uma identidade que o eleitor do centro paraense – aquele 40% a 50% que não se identifica com nenhum dos dois polos nacionais – vai processando como sinal de que Daniel é, afinal, o candidato do bolsonarismo. E quando esse eleitor chega a essa conclusão, ele não decide por Daniel. Ele vai para Hana, ou fica em casa.

As pesquisas já captam esse movimento nas suas bordas. A Doxa de maio de 2026 apontou uma virada de Hana sobre Daniel na disputa pelo governo – um movimento que os institutos atribuem, entre outros fatores, ao crescimento da identificação de Hana com a continuidade de um governo aprovado e ao gradual selamento da identidade conservadora de Daniel.

Aritmética não fecha

Para ganhar a eleição, um candidato a governador precisa construir, em primeiro turno, uma maioria absoluta dos votos válidos – ou chegar em primeiro lugar com uma vantagem suficiente para vencer no segundo. Nenhum dos dois caminhos está aberto para quem permanece com 30% do eleitorado.

O bolsonarismo, como mostram os levantamentos, mobiliza aproximadamente um terço do eleitorado paraense – número relevante, mas insuficiente para a vitória numa disputa com múltiplos candidatos competitivos. Para crescer além desse terço, Daniel precisaria avançar sobre eleitores que, por definição, não são bolsonaristas – eleitores de centro, independentes, moderados que não se identificam com o campo de Flávio Bolsonaro, mas também não são entusiastas do grupo Helder-Hana-Lula.

É exatamente esse eleitor que a polarização nacional expulsa. Quando a disputa estadual passa a ser interpretada como uma extensão da guerra Lula versus Bolsonaro, o eleitor paraense avesso a esse enquadramento tende a ler Hana como o “menos pior” – afinal, ela está do lado de um governo com 63% de aprovação que divide o País ao meio.

A lógica do rabbit hole é essa: cada passo em direção ao palanque bolsonarista parece reforçar a candidatura no curto prazo – entusiasmo da base, cobertura, mobilização -, mas aprofunda o buraco que Daniel precisaria de saltar para vencer. Ao final do percurso, ele pode chegar às urnas com uma base fiel de 30%, uma identidade consolidada como candidato da direita conservadora, e um eleitorado de centro que migrou definitivamente para Hana. Uma campanha que desceu ao buraco sem perceber quando perdeu a luz lá fora.

As pesquisas já dizem o que precisa ser dito. A questão é se a campanha de Daniel está ouvindo – ou se está fascinada demais com o movimento das suas próprias engrenagens para perceber onde o caminho que tomou vai dar. 

Papo Reto

·Uma proposta de R$ 2,8 milhões por ano para serviços de limpeza, manutenção, portaria e apoio administrativo na Cohab começou a circular nos bastidores.

·O documento, datado de 10 deste mês, gestão Arthur Menezes (foto), que sucede Manoel Pioneiro, prevê 38 postos de trabalho e tem como proponente a Associação Polo Produtivo do Pará/Fábrica Esperança. Até aí, nada de extraordinário.

·O problema é que, quando se tenta descobrir se a proposta virou contrato, o assunto desaparece atrás de portas fechadas.

·Em tempos de transparência digital e portais públicos, contratos custeados com dinheiro do contribuinte não deveriam exigir lanternas, lupa e mapa do tesouro para serem encontrados.

·Enquanto os detalhes permanecem guardados a sete chaves, a conta já é conhecida: R$ 2,8 milhões. O resto segue no escuro.

·Com base em dados do Censo de 2022, o IBGE mostra que os cinco Estados com mais católicos no Brasil são Piauí, Ceará, Paraíba, Sergipe e Rio Grande do Norte.

·O percentual de católicos no Piauí é de 70,40%, e na outra ponta, com menos é Roraima, com 37,89%. O Pará apresenta um percentual de 54,35% de católicos. 

·De Brasília a Belém, decisões políticas, denúncias, infraestrutura e curiosidades movimentam a semana no Estado.

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