m esquema que atinge diretamente a fé pública e compromete documentos essenciais à vida civil levou à cassação do vereador Carlos Renan Vieira Furtado, em Viseu, no nordeste do Pará. O julgamento político ocorreu na manhã de sexta-feira, 19, após reviravoltas judiciais que autorizaram a Câmara a decidir o caso.

Por 9 votos a 2, os parlamentares decretaram a perda do mandato, em meio a denúncias e escândalos de comprovada participação na distribuição de certidões falsas à população.
A sessão foi marcada por forte mobilização política e presença popular, com maioria expressiva no plenário favorável à cassação. Mesmo com campanha intensa nas redes sociais na tentativa de barrar o processo, Carlos Renan não conseguiu reverter o cenário.
Votaram contra a perda do mandato os vereadores Domingos Leite e Albério Jackes. No entanto, ambos também aparecem sob suspeita, com indícios de participação direta na entrega de certidões irregulares. Há relatos e declarações de pessoas que afirmam ter recebido documentos das mãos dos dois parlamentares.
As investigações revelam um cenário alarmante: certidões de nascimento, casamento e óbito – documentos que garantem validade jurídica aos principais atos da vida civil – teriam sido falsificadas e distribuídas como legítimas. O município pode ter sido palco de um verdadeiro “balcão” de emissão irregular. O impacto é profundo e atinge diretamente a segurança jurídica da população. Muitas famílias podem estar hoje com documentos sem validade legal, sem sequer saber.
As consequências já são concretas: cidadãos teriam perdido benefícios sociais, enfrentado dificuldades para comprovar identidade, resolver questões previdenciárias ou formalizar relações civis.
Centro do escândalo
No núcleo da investigação está Anastácio Nunes da Costa Júnior, ex-tabelião do Distrito de São José do Piriá. Mesmo após o fechamento do cartório onde atuava, ele teria continuado operando ilegalmente. Segundo as apurações, Anastácio se apropriou de livros oficiais e selos cartorários que deveriam ter sido devolvidos ao Judiciário, utilizando-os para produzir certidões fora dos trâmites legais.
Diante da gravidade, a Justiça determinou medidas cautelares, incluindo uso de tornozeleira eletrônica e mandados de busca e apreensão. O caso tramita em inquérito criminal na Vara Única de Viseu.
O agora ex-vereador Carlos Renan surge nas investigações como peça-chave na circulação dos documentos. Ele teria atuado diretamente na entrega das certidões à população, incluindo registros de nascimento. Há provas de que os documentos tenham sido utilizados para obtenção de benefícios sociais e previdenciários, o que pode configurar uso indevido de recursos públicos com base em registros fraudulentos.
O caso se desdobra em duas frentes: enquanto a falsificação de documentos é apurada na Justiça comum, a conduta do vereador passou a ser investigada também na esfera eleitoral, com acompanhamento da Polícia Federal. A apuração busca esclarecer se a distribuição das certidões foi utilizada como instrumento de favorecimento político, especialmente em períodos eleitorais, sob a aparência de ação social.
Reviravolta judicial
Antes da cassação, o vereador tentou suspender o processo na Justiça. Inicialmente, o pedido foi negado, com apontamento de possível tentativa de obstrução. Uma liminar chegou a suspender temporariamente o julgamento, mas foi derrubada pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ) no último dia 15 de junho. Ao revogar a decisão, o presidente do STJ, ministro Herman Benjamin, destacou que impedir o julgamento na fase final poderia abrir caminho para a impunidade.
Com isso, a Câmara de Viseu ficou autorizada a concluir o processo – resultando na cassação que encerrou o mandato de Carlos Renan e abriu um novo capítulo em um dos casos mais graves registrados no município.
Papo Reto

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