A AIEA (Agência Internacional de Energia Atômica) afirmou nesta quarta-feira (24) que as inspeções sobre o programa nuclear do Irã vão ser retomadas, mas que seu escopo ainda precisa ser definido nas negociações entre a teocracia e os Estados Unidos que pausaram a guerra no Oriente Médio por 60 dias.
“As inspeções vão de fato ocorrer”, disse o argentino Rafael Grossi, o diretor-geral da agência ligada à ONU, em uma entrevista no Japão. “Nós estaremos trabalhando nas modalidades —datas, procedimentos, lugares— em breve”, completou.
“O parágrafo oitavo do memorando diz explicitamente que as atividades nucleares serão supervisionadas pela AIEA. Obviamente, para isso precisamos inspecionar. Então vai acontecer. Claro, se o Irã não cumprir o acordo, aí é outra história”, afirmou Grossi.
O vice-chanceler iraniano Kazem Kazem Gharibabadi, ao comentar a fala, disse que só haverá debate sobre inspeções após a conclusão de negociações de paz e o fim de sanções ocidentais contra seu país. Na prática, não é muito diferente do que Grossi afirmou, mas os cronogramas são díspares.
A AIEA não tem poder de impor seu trabalho a nenhum dos seus 181 membros, grupo que inclui o Irã. Ela assina acordos de salvaguardas individualmente, inclusive com Estados que não a integram: há hoje 190 acordos cobrindo 1.406 instalações com material nuclear.
O programa nuclear do Irã voltou a ser notícia na confusa busca pela paz com Donald Trump. Ele é o ponto de fundo mais contencioso do conflito desde a década passada, quando o americano retirou seu país do acordo de 2015, que visava impedir o acesso da teocracia à bomba atômica.
Por aquele arranjo, Teerã reduziria e limitaria o potencial seu estoque de urânio enriquecido, matéria-prima das armas, e coibiria suas capacidades de torná-lo pronto para uso militar por 15 anos. Em troca, foram relaxadas as sanções que asfixiavam sua economia.
Os termos do memorando de 14 pontos assinado na semana passada por EUA e Irã são bem menos claros e, se concretizados, muito mais favoráveis a Teerã —fortalecendo o regime que teve sua liderança decapitada pela guerra empreendida por Trump e Israel por cinco semanas a partir de 28 de fevereiro.
Uma das justificativas para o conflito era justamente a questão nuclear. Depois que o republicano deixou o acordo de 2015, em 2018, o Irã enriqueceu ao menos 440,9 kg de urânio a 60%, nível suficiente para talvez 15 armamentos de baixo rendimento ou, com trabalho extra de chegar a 90%, cerca de 10 bombas.
A AIEA se queixa de ter perdido gradualmente o acesso ao trabalho de inspeção combinado com os iranianos. Grossi disse à Folha, há duas semanas em Viena, que a única forma de ter certeza de que os aiatolás não avançavam rumo à bomba era retomar a checagem.
A agência, naquela mesma semana, emitiu uma resolução dura contra o Irã, exigindo a volta dos inspetores e uma checagem in loco do tamanho do estoque de urânio. O texto foi denunciado por Teerã como parcial e favorável aos EUA em meio a uma guerra.
Nesta semana, o vice-presidente J. D. Vance anunciou que os iranianos haviam topado a volta das inspeções, o que o Irã negou. A teocracia disse que o tema não foi nem discutido, o que parece improvável, e tais vaivéns retóricos têm marcado as difíceis negociações.
Seja como for, Trump voltou a subir o tom, dizendo que nem estaria à mesa se os rivais não tivessem debatido o assunto.
O foco na questão das inspeções é o que será verificado. A AIEA quer acesso total, inclusive aos lugares danificados pelos americanos e israelenses em seus bombardeios. O Irã veta isso desde o ataque pontual dos EUA a instalações nucleares de junho de 2025.
A negociação continua, com o Vance viajando nesta terça do Qatar para o Kuwait, onde discute pontos do acordo com os aliados árabes, que o Irã atacou duramente em retaliação pela ação israelo-americana durante o conflito.
A questão nuclear pode ser a de fundo, mas a guerra produziu uma nova carta de barganha para os iranianos, que fundamentalmente pode mudar as relações de poder no Oriente Médio, o controle sobre o estreito de Hormuz.
Passagem de 20% do petróleo e gás natural liquefeito do mundo antes do conflito, a via é na prática controlada pelo Irã, que quer a instalação de um pedágio para embarcações. Apesar de Trump negar isso, o memorando assinado com a teocracia é omisso sobre o tema.
Há por fim o complicado fator Israel, aliado americano deixado para trás na negociação do acordo. O governo de Binyamin Netanyahu, buscando sobreviver até as eleições de outubro, tem ignorado a exigência iraniana de deixar o Líbano, onde combate o grupo pró-Teerã Hezbollah com uma ocupação militar.

