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Entenda propostas de Keiko e Sánchez para o Peru – 16/06/2026 – Mundo

Com menos de 1% de atas pendentes na apuração das eleições presidenciais do Peru, apenas 90 mil votos separam a líder, Keiko Fujimori, de seu adversário, Roberto Sánchez. A disputa opõe dois projetos de país —ao menos no papel.

Na prática, sabe-se que o Congresso, ainda mais fortalecido pelo restabelecimento do Senado em julho, dará as cartas em qualquer que seja o governo. Os nove presidentes que passaram pela Casa de Pizarro na última década, quatro derrubados pelo Legislativo, são prova disso.

De qualquer forma, as principais diferenças nos planos de governo estão na segurança, área em que a populista de direita evoca a memória de seu pai, o ditador Alberto Fujimori (1990–2000), e reforma do Estado, na qual Sánchez propõe uma nova Constituição para fundar um país plurinacional. A promessa foi herdada de seu padrinho político, o ex-presidente preso por tentativa de golpe Pedro Castillo (2021–2022).

Segurança

O tema foi o protagonista das eleições devido à onda de criminalidade que a nação vive, a pior desde o conflito armado do final do século 20. Entre 2018 e 2025, as denúncias anuais de homicídios passaram de 1.000 para 2.600, enquanto as de extorsão aumentaram mais de oito vezes, chegando a 26,5 mil.

Para Keiko, que batizou seu plano de governo de “Peru com ordem”, a insegurança é o principal problema do país. Ela promete reduzir o índice de assassinatos em 20% nos cinco anos de seu mandato e fala em construir o que chama de Centro Nacional de Comando e Videovigilância, um sistema que conectaria as 24 regiões do país e usaria inteligência artificial para prever comportamentos suspeitos e evitar crimes.

Promessas mais chamativas envolvem a criação de quatro megaprisões de segurança máxima e a volta dos chamados “juízes sem rosto”, um recurso usado por seu pai para preservar a identidade de magistrados que levou à prisão de centenas de inocentes, segundo organizações de direitos humanos.

Sánchez mudou o seu plano de governo quando foi para o segundo turno. em uma tentativa de se aproximar do centro. O primeiro documento falava, por exemplo, em entregar o país com 70% menos homicídios. O segundo plano é mais genérico, mas mantém algumas propostas.

Ele quer revogar o que chama de “leis pró-crimes” que, na visão do partido, favorecem grupos armados, criar o Sistema Nacional Integrado de Informação Criminal, que atuaria sob um só comando, e reformar a polícia. Nesse projeto, a instituição ganharia uma unidade de elite “com inteligência e poder de fogo para combater organizações criminosas”.

Economia

Embora as reformas de Fujimori tenham deixado como legado uma macroeconomia estável para o Peru, o país é um dos mais desiguais e com as mais altas taxas de informalidade da América Latina. Os candidatos têm abordagens diferentes para esses problemas.

Seguindo a linha de seu pai, Keiko baseia a sua política econômica no corte de gastos públicos, na desburocratização de procedimentos para a iniciativa privada e na atração de capital estrangeiro. A candidata promete reduzir o déficit peruano, que já é um dos menores da região, para 1% do PIB até 2031 e atrair ao menos US$ 5 bilhões de investimento, o que geraria 3 milhões de vagas de emprego formais, segundo sua equipe.

A primeira proposta de Sánchez propunha romper com o modelo do ditador por meio de medidas como o controle estatal de recursos estratégicos do país e a intervenção no Banco Central peruano. Em sua guinada para o centro após ir para o segundo turno, porém, ele moderou a retórica e prometeu respeitar a independência do órgão financeiro.

As promessas, no entanto, ainda são muito diferentes em relação às de Keiko: aumentar o investimento público em pesquisa e tecnologia, fortalecer a agricultura familiar e estabelecer uma reforma tributária progressiva.

Reforma do Estado

A principal proposta de Keiko nesse âmbito é uma reforma no sistema de justiça do Peru. As mudanças incluem a expansão de um sistema que digitaliza procedimentos judiciais para todo o território e a redução do tempo médio de processos em 30%.

Já os planos de Sánchez, mesmo após o seu reposicionamento pós-primeiro turno, são bem mais ousados. O carro-chefe nessa área é a proposta de uma Constituinte para enterrar a Carta Magna estabelecida por Fujimori em 1993 e criar uma nova que funde um Estado plurinacional e reconheça os povos originários do Peru.

Política exterior

Em relação à política exterior, a proposta mais radical de Keiko é sair da OEA (Organização dos Estados Americanos) para conseguir aplicar a ferramenta de “juízes sem rosto”, que não é aceita pelo órgão. No restante, a política costuma ser pragmática e destacar a estabilidade econômica do país à atração de investimentos e parcerias.

Em uma entrevista à AFP pouco antes do primeiro turno, porém, a candidata afirmou que seu papel, caso eleita, seria “motivar os Estados Unidos a voltarem a participar mais ativamente” da economia peruana. “A América Latina está girando para uma corrente na qual se prioriza a liberdade, os investimentos e recuperar o controle e a segurança”, afirmou à agência de notícias. “Faltam Colômbia e Peru.”

Os dois países decidirão seus líderes nos próximos dias, e a vitória da direita em ambos, como parece o mais provável, isolaria ainda mais o Brasil de Lula (PT) na América do Sul, palco de uma onda conservadora que já chegou a Chile, Argentina, Equador, Paraguai e Bolívia.

Os planos de política externa de Sánchez, por sua vez, não poderiam ser mais alinhados à ideologia do PT. O político fala em transformar o Peru em uma ator ativo para a integração da América Latina e cita o Brics, grupo de países de economia emergente fundado em 2006.

“O surgimento do Brics e novas formas de cooperação Sul-Sul abrem um caminho diferente. Não se trata de substituir uma dependência por outra, mas de diversificar nossas relações internacionais, fortalecer a integração latino-americana e construir alianças baseadas no respeito mútuo e no benefício compartilhado”, diz o plano de governo do presidenciável.

Após o primeiro turno, em mais um aceno a indecisos, o candidato falou em uma entrevista coletiva que a “boa vizinhança, as relações respeitosas entre as nações” costumam ser prioridade. “O Peru, que mantém relações históricas com os Estados Unidos, não pode ser a exceção. Essa será a missão do nosso governo”, afirmou.

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