IníciobrasilEUA: segregação volta ao debate político sob Trump - 26/06/2026 - Mundo

EUA: segregação volta ao debate político sob Trump – 26/06/2026 – Mundo

Dentro de um vagão de trem exposto no Museu Nacional de História e Cultura Afro-Americana, em Washington, uma placa relembra um período em que a segregação racial era política de Estado nos Estados Unidos: “Somente para brancos”.

Ali, uma gravação reproduz a pergunta de uma criança ao pai: “por que os negros sentam em outra parte do trem?”.

A cena remete a um país que, até os anos 1960, mantinha leis que separavam brancos e negros em escolas, ônibus, restaurantes e espaços públicos —as chamadas Jim Crow, que institucionalizaram essa separação por décadas após a Guerra Civil, especialmente no sul do país.

Mais de meio século depois do fim da segregação legal, o tema ainda alimenta disputas políticas. O governo de Donald Trump eliminou programas federais de diversidade, pressionou instituições culturais a adotarem uma visão mais patriótica da história americana e passou a questionar políticas criadas para combater a discriminação racial.

Após a Segunda Guerra Mundial, o movimento contra a segregação ficou fortalecido. Segundo David Garrow, historiador e biógrafo de Martin Luther King Jr., a luta pelos direitos civis foi fruto de um processo gradual: veteranos negros que lutaram na guerra retornaram aos EUA depois de terem vivido em países onde a segregação não era praticada da mesma forma.

A luta contra o nazismo abriu espaço para a mudança. “A ênfase no combate ao fascismo e ao racismo antissemita da Alemanha nazista criou um ambiente intelectual e mental favorável à mudança”, afirma Garrow. Segundo ele, a virada decisiva ocorreu em 1954, quando a Suprema Corte decidiu que a segregação escolar era inconstitucional, e isso foi uma nova inspiração para o movimento.

Nos anos seguintes, boicotes, marchas e protestos puseram fim ao sistema de segregação. A aprovação da Lei dos Direitos Civis de 1964 e da Lei dos Direitos de Voto de 1965 representou uma das maiores expansões de direitos da história americana.

Luther King, rosto mais conhecido daquele movimento, estava ao lado do presidente Lyndon Johnson na assinatura da segunda lei, que proibiu os mecanismos usados por estados do Sul para impedir o voto de eleitores negros e ampliou os poderes federais para fiscalizar eleições em locais com histórico de discriminação racial.

O discurso “Eu Tenho um Sonho”, pronunciado durante a Marcha sobre Washington em 1963, tornou-se um dos símbolos mais duradouros da história do país. Hoje, um memorial dedicado ao pastor ocupa lugar de destaque no National Mall, ao lado de monumentos a presidentes e veteranos de guerra.

Voto e representação

Seis décadas após a aprovação da Lei dos Direitos de Voto, a disputa sobre a participação política de minorias continua, tanto no acesso às urnas quanto na definição dos distritos eleitorais. Uma das frentes é o “Save America”, projeto de lei apoiado por Trump que demanda comprovação documental de cidadania para o registro eleitoral.

Seus defensores dizem que a medida combate fraudes; já Trey Walk, pesquisador da ONG Human Rights Watch, argumenta que ela pode criar obstáculos para grupos historicamente marginalizados —entre eles, americanos negros mais velhos, nascidos durante a segregação, que têm dificuldades históricas para obter documentos oficiais.

Outra frente são os mapas eleitorais, um dos principais campos de batalha da Lei dos Direitos de Voto. Ao longo das décadas, a legislação foi usada para contestar e eventualmente redesenhar distritos considerados prejudiciais à representação de minorias raciais e para garantir que eleitores negros e latinos tivessem condições reais de eleger seus candidatos.

Diferentemente do Brasil, onde deputados federais são eleitos por sistema proporcional em listas estaduais, os parlamentares nos EUA são escolhidos em distritos desenhados pelos próprios estados.

O debate ganhou novo fôlego este ano, quando a Suprema Corte limitou o alcance da lei em disputas sobre mapas eleitorais —uma decisão vista por grupos de direitos civis como um revés para mecanismos historicamente usados para ampliar a representação política de minorias.

Além disso, segundo Walk, a postura do governo federal também tem mudado. “Tradicionalmente, o Departamento de Justiça se envolvia em casos que buscavam aumentar a representação de eleitores negros e latinos, garantindo que eles fossem representados de forma justa nos mapas eleitorais”, afirmou.

Agora, diz o pesquisador, autoridades federais passaram a questionar essas mesmas iniciativas: “Em alguns casos, eles estão atuando do outro lado e dizendo que mapas que buscavam aumentar a representação são ilegais e constituem formas de discriminação.”

Essa mudança reflete uma leitura que ganhou força em setores conservadores e na Suprema Corte. “Existe essa ideia de que simplesmente considerar raça, deixar de ser completamente ‘daltônico’ em relação à raça, já seria uma forma de discriminação”, explica Walk.

Fiscalização fragilizada

As conquistas do movimento dos direitos civis não se limitaram ao fim da segregação ou à ampliação do direito ao voto. Nas décadas seguintes, elas deram origem a uma estrutura permanente encarregada de fazer cumprir essas leis e investigar denúncias de discriminação.

Embora o combate às políticas de diversidade, equidade e inclusão tenha se tornado uma das principais bandeiras do governo Trump, pesquisadores e organizações de direitos civis afirmam que as mudanças vão além da revisão de programas. Na avaliação deles, elas atingem justamente a estrutura criada após o movimento dos direitos civis para garantir que as leis antidiscriminatórias fossem efetivamente aplicadas.

Para Walk, um dos legados mais importantes do período foi a criação da rede federal de proteção de direitos, com escritórios encarregados de fiscalizar o cumprimento de leis sobre igualdade racial, direito ao voto, moradia e discriminação.

É justamente essa estrutura, segundo o pesquisador, que vem sendo enfraquecida no governo Trump. A Divisão de Direitos Civis do Departamento de Justiça, por exemplo, perdeu cerca de 70% de seus funcionários desde o início do segundo mandato do republicano, e investigadores e advogados responsáveis por fiscalizar violações de direitos civis deixaram seus cargos ou foram remanejados para outras funções.

O impacto, segundo Walk, vai além da burocracia: a redução da capacidade de fiscalização diminui a supervisão sobre instituições historicamente acusadas de discriminação.

Como exemplo, ele cita as investigações federais abertas após os assassinatos de George Floyd, em Minneapolis, e Breonna Taylor, em Louisville, que identificaram padrões de discriminação e abuso policial —mecanismos de monitoramento que, sob Trump, o governo decidiu abandonar.

“Os sistemas e leis criados para proteger comunidades historicamente excluídas estão agora sendo usados contra essas mesmas comunidades”, diz o pesquisador.

Essas tensões ajudam a explicar por que batalhas que pareciam resolvidas há décadas continuam no centro da política americana. A segregação legal foi derrubada, mas permanecem as disputas sobre quem consegue votar, quem consegue eleger representantes e qual deve ser o papel do governo federal na proteção desses direitos.

Há um entendimento de que a segregação racial foi um erro, mas o país segue dividido sobre o significado das conquistas que vieram com o fim dela.

Os vagões segregados preservados no museu em Washington pertencem hoje a um passado que quase nenhum americano defende. As placas que separavam brancos e negros desapareceram dos ônibus, escolas e restaurantes do país há décadas.

Para Trey Walk, a questão não é se os EUA voltarão a ver sinais explícitos de segregação. “Talvez não voltemos a ver placas sobre bebedouros ou ônibus dizendo quem pode usar cada espaço. Mas quando a discriminação acontece nas comunidades, não haverá para onde recorrer em busca de reparação. Isso cria um ambiente mais permissivo para a discriminação e o assédio. Quando as pessoas sabem que não haverá consequências, isso se torna possível.”

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