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Floresta em pé, renda em alta

Em um pequeno laboratório de formulações naturais, em Belém, a biodiversidade amazônica ganhou outro significado. O que começou como pesquisa e interesse pela saboaria artesanal se transformou em um negócio que hoje aposta exclusivamente em óleos vegetais amazônicos para produzir cosméticos conectados ao território. A trajetória da Koa Saboaria & Biocosmética da Amazônia ajuda a explicar um movimento maior que cresce no Pará: a bioeconomia baseada na floresta em pé.

Da pesquisa ao propósito

Fundadora da marca, Dany Neves, especialista em saboaria natural amazônica, conta que a decisão de trabalhar apenas com óleos nativos surgiu durante o processo de aprendizagem da saboaria artesanal. Em 2017, enquanto participava de cursos e aprofundava pesquisas sobre formulações naturais, percebeu que ingredientes de fora eram valorizados, enquanto muitos óleos amazônicos permaneciam pouco conhecidos até mesmo entre consumidores da região.

“O fato de pessoas na Amazônia consumirem óleo de rosa mosqueta e desconhecerem óleos extremamente potentes, como o de pracaxi, começou a me incomodar”, relata Dany.

A inquietação virou propósito. Em vez de manteiga de karité, jojoba ou argan, a Koa passou a formular seus produtos com ingredientes como cupuaçu, maracujá, castanha-do-Pará, buriti, andiroba e pracaxi. “Eu me perguntava: por que usar matérias-primas de fora enquanto estou no centro da maior biodiversidade do planeta?”, afirma.

Mais do que uma escolha de formulação, Dany explica que a opção representa coerência com o território amazônico e valorização das cadeias locais. Para ela, a floresta produz não apenas insumos, mas também identidade, memória e linguagem cosmética.

Do óleo amazônico ao sabonete

Mais do que utilizar ingredientes da floresta, a Koa escolheu um caminho menos comum dentro da cosmética artesanal: produzir sabonetes do zero.

Pequenos negócios transformam ingredientes da floresta em produtos sustentáveis e de valor agregado
Foto: Irene Almeida/Diário do Pará.

Enquanto boa parte do mercado trabalha com bases glicerinadas industrializadas, produzidas em outras regiões e apenas personalizadas com pequenas quantidades de ativos, a marca aposta no chamado hot process, método de saponificação que transforma diretamente os óleos vegetais em sabonete.

O processo demanda mais tempo, conhecimento técnico e adaptação constante às condições amazônicas, marcadas pela alta umidade e pela sazonalidade das matérias-primas. Para Dany Neves, porém, a escolha nunca esteve ligada à praticidade.

“Fazer um sabonete do zero é muito mais trabalhoso do que comprar uma base pronta e adicionar um ingrediente. Mas, se eu fosse apaixonada por café, não escolheria um café solúvel apenas por ser mais prático. Eu iria querer escolher um grão especial, entender espécies, torra e preparo. No fim, não é sobre poupar tempo, mas sobre fazer e consumir um produto de qualidade”, compara.

Ela explica que a opção pelo hot process também nasceu da vontade de trabalhar com matérias-primas locais de forma integral.

“Quando se usa uma base pronta, estamos falando de um produto industrial fabricado em outras regiões, com insumos de outras regiões, ao qual se adiciona apenas uma pequena quantidade de ingredientes amazônicos”, afirma.

Dentro da proposta da Koa, produzir a própria base a partir da transformação de óleos amazônicos sempre fez mais sentido. “Queria desenvolver cosméticos realmente conectados ao território”, resume Dany.

Durante muito tempo, a fundadora enxergou a Koa quase como um espaço de pesquisa.

“Minha primeira escolha foi ser saboeira, não empreendedora”, conta. “Passei anos estudando formulação e comportamento das fórmulas no nosso clima. O crescimento da Koa veio muito desse conhecimento.”

A estruturação do negócio ganhou força a partir de 2023, quando a demanda passou a exigir planejamento, gestão e organização produtiva.

Da floresta ao laboratório

A empresa trabalha com uma rede de fornecedores formada por cooperativas, associações e pequenas indústrias de beneficiamento, abastecida por matérias-primas provenientes de diferentes regiões do Pará, como Nordeste Paraense, Marajó e Baixo Tocantins, além de outros estados amazônicos, como Amazonas e Maranhão. A composição dessa cadeia muda ao longo do ano, acompanhando a sazonalidade dos ingredientes da floresta.

Dany Neves – especialista em saboaria natural e Biocosméticos da Amazônia – empreendedora KOA. Foto: Irene Almeida/Diário do Pará.

A relação comercial, explica Dany Neves, prioriza fornecedores locais e cadeias ligadas à sociobiodiversidade amazônica.

“Muitas vezes, essa conexão acontece por meio de cooperativas, pequenos intermediários ou empresas de beneficiamento que fazem a ponte entre produtores e pequenos negócios”, afirma.

Para a fundadora da Koa, a qualidade do produto também depende da origem dos insumos e da relação construída com quem está na ponta da cadeia.

Embora pequenos empreendimentos não tenham estrutura própria de certificação ou monitoramento formal, a marca busca fornecedores alinhados ao manejo sustentável e prioriza transparência sobre a procedência das matérias-primas.

“Valorizamos relações de confiança construídas ao longo do tempo e, sempre que possível, buscamos conhecer melhor os territórios e os processos ligados a esses insumos”, diz.

A dinâmica nem sempre é simples. A extensão da Amazônia, a sazonalidade e a diversidade de ingredientes exigem adaptação constante, mas também reforçam uma lógica central da bioeconomia: a floresta não gera riqueza sozinha, ela depende de redes produtivas organizadas e de valor agregado distribuído ao longo da cadeia.

Conhecimento que gera valor

A experiência acumulada transformou a Koa em mais do que um pequeno negócio. Desde 2021, a marca passou a compartilhar técnicas de saboaria artesanal em oficinas realizadas em parceria com ONGs e instituições, principalmente com grupos de mulheres.

Da floresta para o sabonete: marca paraense transforma óleos amazônicos em negócio sustentável Foto: Irene Almeida/Diário do Pará.

A proposta é ampliar o acesso ao conhecimento e incentivar a agregação de valor aos próprios insumos amazônicos.

“Fortalecer esse tipo de conhecimento tem um potencial enorme na nossa região, tanto do ponto de vista econômico quanto cultural”, afirma Dany. “Ajuda a conectar a produção de cosméticos ao território e às matérias-primas locais.”

Bioeconomia em expansão

A experiência da Koa se insere em um setor que já movimenta cifras expressivas no Pará. Estudo da Fapespa aponta que a bioeconomia da sociobiodiversidade movimenta cerca de R$ 13,5 bilhões por ano no Estado, reunindo cadeias ligadas à floresta, aos rios e à agricultura familiar.

Entre os principais segmentos aparecem mandioca, pesca, açaí, cacau, castanha-do-Pará e os óleos vegetais, base importante para setores como cosméticos e farmacêutico.

Os números mostram que o potencial da bioeconomia vai além da extração de matéria-prima. O estudo aponta que o impacto econômico cresce quando há industrialização e agregação de valor no próprio território — lógica seguida por empresas que transformam insumos amazônicos em produtos acabados.

Nas cadeias da andiroba e da copaíba, utilizadas pela indústria cosmética e farmacêutica, comunidades organizadas conseguem reter parcela maior do valor final do produto, reforçando a importância do beneficiamento local e da organização produtiva.

Desafios e apoio ao empreendedor

Embora o potencial econômico seja evidente, transformar a biodiversidade em negócio ainda exige superar obstáculos.

Segundo Renata Batista, gerente da Unidade de Sustentabilidade e Inovação do Sebrae no Pará, o empreendedor que deseja entrar nesse mercado precisa começar pela formalização.

Renata Batista – Gerente da Unidade de Sustentabilidade e Inovação do Sebrae no Pará. Foto: Irene Almeida/Diário do Pará.

“O primeiro passo é abrir o CNPJ e definir o enquadramento tributário. Depois, buscar o registro da marca no INPI e procurar a Vigilância Sanitária para entender as exigências da produção”, explica.

Dependendo do tipo de cosmético, o produto pode exigir notificação simplificada ou registro específico junto à Anvisa.

O Sebrae/PA orienta empreendedores em temas como regularização, gestão, planejamento e acesso ao crédito. Hoje existem linhas voltadas à bioeconomia e aos negócios sustentáveis, operadas por instituições como Banco da Amazônia, Banpará e cooperativas de crédito, geralmente entre R$ 10 mil e R$ 100 mil, voltadas à estruturação e capital de giro.

Renata alerta que os erros mais comuns nos primeiros anos envolvem ausência de regularização sanitária e ambiental, falta de planejamento logístico e dependência excessiva de um único fornecedor de matéria-prima.

“O empreendedor não pode depender apenas do apelo sustentável. Gestão financeira, posicionamento de marca e estratégia comercial também são fundamentais”, afirma.

Floresta, inovação e futuro

A própria Koa ainda enfrenta parte dessas barreiras. Dany afirma que o acesso ao crédito segue difícil para pequenos negócios amazônicos, especialmente os ligados à produção artesanal e à sociobiodiversidade.

Mesmo assim, ela avalia que o cenário vem mudando.

“O grande desafio é transformar o valor cultural e ambiental da floresta em cadeias econômicas valorizadas pelo mercado, sem reproduzir modelos predatórios”, diz.

Para a fundadora da Koa, a Amazônia começa a ocupar um novo lugar no debate econômico.

“Estamos vivendo um momento em que a região passa a ser vista não apenas como fornecedora de insumos, mas também como território de pesquisa, conhecimento, criação e inovação.”

A bioeconomia paraense, mostram que os números e as histórias que surgem dela, já deixou de ser promessa. Entre óleos vegetais, ciência, tradição e empreendedorismo, a floresta segue produzindo riqueza, agora também em forma de marca, identidade e oportunidade.

Bioeconomia em números no Pará

  • 🌱 Cada R$ 1 investido na bioeconomia gera, em média, R$ 1,13 no PIB do Pará
  • 💰 O mesmo investimento retorna cerca de R$ 0,19 em massa salarial
  • 🧾 A atividade também gera R$ 0,06 em impostos indiretos para o Estado
  • 🏭 Na produção primária, cada R$ 1 aplicado movimenta R$ 1,14 no PIB
  • ⚙️ Quando há industrialização, o retorno sobe para R$ 1,27 no PIB
  • 🛒 A comercialização apresenta o maior impacto: R$ 1 investido gera R$ 1,40 no PIB
  • 📈 Os números mostram que agregar valor aos produtos amazônicos aumenta o retorno econômico
  • 🌳 Cadeias produtivas organizadas fortalecem empregos, renda e arrecadação no Pará
  • 🧴 O setor de biocosméticos aparece como uma das apostas da bioeconomia paraense
  • 📊 Estudo da Fapespa aponta que processamento e inovação ampliam os ganhos da floresta em pé

Como abrir um pequeno negócio de biocosméticos

1. Formalização e regularização

  • Abrir um CNPJ e escolher o enquadramento tributário
  • Registrar a marca no INPI
  • Procurar a Vigilância Sanitária municipal ou estadual
  • Adequar o espaço às boas práticas de fabricação
  • Regularizar a empresa junto à Anvisa
  • Garantir a rastreabilidade da matéria-prima

2. Crédito e estruturação

  • 💵 Linhas de crédito variam entre R$ 10 mil e R$ 100 mil
  • 🏦 O financiamento pode ser buscado no Banco da Amazônia, Banpará e cooperativas parceiras do Sebrae/PA
  • 🏭 Recursos podem ser usados em equipamentos, estrutura e capital de giro

3. Apoio técnico

  • 🤝 O Sebrae/PA oferece orientação para plano de negócio, gestão, regularização e acesso ao crédito

📌 Fonte: Fapespa

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