Há poucos rastros memorialísticos hoje no prédio da Casa da Linguagem, cravado na esquina das avenidas Nazaré e Assis de Vasconcelos, que remetam à passagem do poeta Max Martins por lá. A sala em que funcionava o escritório dele, que foi o primeiro diretor da instituição, hoje serve a outros fins. Não há quadros, mas a presença dele está entranhada nas paredes e na lembrança de quem permanece por lá, especialmente de quem conviveu com ele.
Caso de Elaine Oliveira, mestre em Estudos Literários e professora da Universidade da Amazônia, que chegou à Casa da Linguagem em 1997, seis anos depois da sua abertura, agregada à então Fundação Curro Velho – hoje extinto enquanto fundação, o Curro Velho, assim como a Casa da Linguagem, foi transformado em departamento da Fundação Cultural do Pará.
“Ele era uma referência para os poetas. Mas ao mesmo tempo era uma pessoa muito simples, vinha andando da casa dele para cá. A gente se sentia à vontade para conversar com ele, que estava sempre rodeado de gente. Os escritores vinham até aqui conversar, tomar café: Clei Souza, o Marcílio Caldas, o Ney Paiva, Paulo Nunes, o Vasco Cavalcante, o Sergio Wax”, conta a professora e pesquisadora, também proprietária da Mezanino Editorial, pela qual lançou um livro no marco dos 96 anos de Max, “Impossível Não Te Ofertar”, com outros autores escrevendo poemas pra ele.
Max Martins: Poeta e Diretor da Casa da Linguagem
“Ele sempre estava conversando com os funcionários. Também com os alunos, ia ver as aulas. O que ele queria sempre era o dicionário na mesa dele. E o cinzeiro, que estava sempre cheio”, lembra Elaine. “Não era do trabalho burocrático, mas era quem dava o norte para as oficinas, planejava, junto com a Maria Lúcia Medeiros”, completa, lembrando a escritora que está na gênese da Casa.
Elaine ainda não estava por lá, mas ouviu de todos os envolvidos a história da criação da Casa da Linguagem, incluindo ainda a professora e pesquisadora Amarílis Tupiassú. “O Curro Velho era a proposta da pesquisa de mestrado da [artista visual] Dina Oliveira. Houve toda uma articulação, na época, com a então secretária estadual de Educação, Terezinha Gueiros, e com o escritor João de Jesus Paes Loureiro, que indicou a existência dessa casa, onde era o [grupo escolar] Floriano Peixoto”, diz Elaine.


A ideia, então, era contemplar a linguagem verbal que o Curro Velho, criado com uma proposta de arte-educação, ainda não abarcava no prédio do Telégrafo, onde havia cursos de artes visuais e teatro. “Maria Lúcia dizia que a Casa tinha que ser um lugar onde o professor pudesse exercitar metodologias que ele não podia fazer na escola e nem aprende na universidade, era o lugar do encantamento com a palavra, onde ele poderia perceber que é possível trabalhar de uma maneira poética na sala de aula”, conta Elaine.
Amarílis Tupiassú lembra esse processo de debates intensos, junto com Maria Lúcia Medeiros, logo envolveram Max, com a decisão de que, para dar à Casa da Linguagem a relevância que ela precisava, era simbólico tê-lo como diretor. “Todos os textos, propostas, foram escritos por mim e pela Lucinha. Sempre estive presente, mas eu tinha a dedicação exclusiva já com a universidade [UFPA]”, diz Amarílis, que permaneceu dando aulas voluntariamente na casa, inclusive sobre a poesia de Max.
Ainda atuando na Casa, Elaine diz que a presença de Max e de Maria Lúcia Medeiros permanece por lá, onde os dois são homenageados todos os anos. “Estamos planejando uma homenagem para Max Martins pelo centenário”, confirma Elaine, antecipando que a agenda especial deve ocorrer no segundo semestre.
O Legado Poético de Max Martins
O poeta Marcílio Caldas Costa, autor de diálogonuvem e O mergulho do afogado, ainda lembra do impacto que teve ao ler, quando estudante, “Para sempre a terra”. “A compreensão que eu tinha sobre poesia foi implodida. Eu queria saber mais sobre aquele poeta. Um professor conseguiu o Não para consolar, fiz cópia e aquele material passou a ser um mapa que eu abria, dobrava e desdobrava, me perdia e seguia perdido; o que em poesia é, talvez, o melhor caminho”, diz Marcílio, para quem H’era e Para ter onde ir são pedras de toque na poesia brasileira.
Em 2001, Marcílio chegou a atuar na Casa da Linguagem. “Tive o privilégio de trabalhar e conviver um pouco com o Max, tivemos inúmeras conversas na sala dele. Falávamos muito sobre poesia e arte”, diz o poeta, que depois de um tempo venceu os receios e mostrou seus poemas. “Lembro que ficou em silêncio, lendo e fumando. Parava em alguns e comentava. Fez algumas sugestões. Pediu pra que eu trocasse algumas palavras e cortasse outras em certos poemas. No mais, disse que gostou do livro. E claro, fiz as mudanças que ele sugeriu. Meses depois, a prefeitura de Belém lançou o Prêmio Bruno de Menezes de Poesia. Inscrevi o livro e, para minha surpresa, foi um dos vencedores”.
“Certamente, as interlocuções com o Max foram de fundamental importância para que eu chegasse a um projeto de livro. Essa troca é algo que lembro com muito carinho até hoje”, diz.
Lá nesse lugar onde, descreve Amarílis, a linguagem tinha seu espaço num contexto saussuriano, da linguagem como tudo o que tem significado, Max Martins estava de fato em casa, dentro daquilo que ele sempre perseguiu em sua obra poética: “Ele se volta muito para a própria compreensão da palavra, para o que é escrever. É perceber que estamos imersos em palavra e que nada sobrevive fora dela, ou melhor, fora do signo, que é maior, é tudo que tem significação”, diz a professora e pesquisadora a quem Max dizia que entendia perfeitamente sua poesia.
A Coleção Max Martins pela ed.ufpa
– O Estranho
A estreia em livro, aos 26 anos, quando encontrara a mulher que o acompanharia até o final da vida e acabara de perder o pai, fatos que aparecem nesses primeiros poemas de nítida influência do Drummond modernista de Alguma Poesia.
– Anti-retrato
Segundo livro de Max, publicado originalmente em 1960, “inaugura algumas linhas de força de sua lírica, que vão perdurar ao longo de toda a obra”, diz a crítica Eliane Robert Moraes.
– H’era
No Natal de 1971, Max Martins recebeu o seu presente de Maria Sylvia e Benedito Nunes com certa decepção. Afinal, o livro ganho trazia exatamente o título de um poema seu, sem atentar que se tratava da edição com os seus próprios poemas, organizada e paga pelos amigos.
– O risco subscrito
O Risco Subscrito = metapoema + erotismo + experiência madura com a poesia concreta + leitura poética do Estruturalismo (sobretudo Barthes) + Budismo + cosmo amazônico sem regionalismo + eloquência verbal sob rigor formal.
– 60/35
Editado originalmente em 1986, celebrava então 60 anos de idade e 35 de poesia de Max Martins. Segundo Age de Carvalho, traz “versos breves e cheios de vigor, muitos deles entre os melhores que Max escreveu (penso sobretudo em “O”, “Isto por aquilo”, “M/M” e “De um poema sonhado”, todos magistrais)”.
– A fala entre parêntesis
Renga – cadeia de poemas – de Max Martins e Age de Carvalho em que os dois poetas “levam a tensa conversação do texto a estender-se às duas tradições poéticas, a oriental e a ocidental, igualmente por eles festejadas”, diz Benedito Nunes.
– Caminho de Marahu
Dito por Max como seu livro preferido dentre os que escreveu. Nesses poemas, ele “parece ter ido sempre afinando o verbo numa direção pessoal de investigação íntima”, diz Davi Arrigucci Jr.
– Marahu poemas
Originalmente publicado nas obras completas, em 1992, aqui estão os poemas que Max escreveu durante a estada de seis meses em Viena, em 1990.
– Para ter onde ir
Publicado em 1992, com poemas escritos desde 1986, é considerado o livro mais ‘oriental’ do autor, segundo Maria Esther Maciel, um interesse que surgiu nos anos de 1960 e fez parte do seu repertório até o fim da vida.
– Colmando a lacuna
Considerado derradeiro livro de poemas inéditos publicado por Max em vida. Poemas à amizade, à natureza, ao erotismo sempre, mas também poesia-anotação de viagens e um diário íntimo, dando notícia das primeiras mazelas da velhice.
– Say it (over and over again)
Publicação póstuma de 2021, com poemas inéditos reunidos.
FONTE: ed.ufpa

