No primeiro trimestre de 2024, o Brasil registrou o período mais letal da história recente para feminicídio, com uma média de uma mulher morta a cada cinco horas, evidenciando a persistência de falhas estruturais na proteção das mulheres e no combate à violência de gênero, apesar do aumento no número de denúncias e registros policiais.
Contexto Institucional e Histórico da Violência de Gênero no País
A análise dos dados consolidados pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública revela que, entre janeiro e março de 2024,476 casos de feminicídio foram oficialmente registrados em todo o território nacional, o que corresponde a uma taxa de 0,69 homicídios por dia, sendo 88% das vítimas mulheres – indicativo de uma epidemia que se arrasta há décadas sem solução efetiva. A ampliação do mapeamento e a ampliação do escopo das denúncias, impulsionada por campanhas de conscientização e pela própria evolução das instituições de saúde e assistência social, refletem um avanço na cobertura dos casos, mas não necessariamente na eficácia das respostas estatais. A lentidão dos procedimentos investigativos, a insuficiência de delegacias especializadas e a falta de políticas preventivas continuam sendo os principais entraves para conter o crescimento da violência.
Nos últimos cinco anos, o número anual de feminicídios no Brasil oscilou entre 1.200 e 1.300 casos, mas o primeiro trimestre de 2024 já supera a média mensal registrada em 2023 em mais de 25%, sinalizando uma aceleração preocupante da trajetória violenta. Esse agravamento coincide com episódios notórios envolvendo menores como vítimas ou autores, como o caso do infanticídio ocorrido em fevereiro no interior do Rio Grande do Sul, que reacendeu o debate sobre a urgência de reformas no sistema de proteção à infância e na justiça penal.
No primeiro trimestre de 2024, o Brasil registrou 476 feminicídios – uma média de uma mulher morta a cada cinco horas – o maior patamar desde o início da série histórica oficial.
Repercussão Jurídica e Estratégias Futuras para a Segurança Pública
A Procuradoria-Geral da República e o Conselho Nacional de Justiça já acionaram mecanismos constitucionais para apurar omissões administrativas nas unidades federativas com os maiores índices de impunidade, enquanto parlamentares articulam projetos que prevêem a criação de centros regionais de atenção integral à mulher, com atuação conjunta entre polícia, saúde e assistência social. Ao mesmo tempo, movimentos sociais pressionam pela aprovação do PL 1505/2023, que endurece as penas para crimes contra a dignidade da pessoa humana com qualificadora de gênero, visando fechar brechas legais que ainda permitem dilatações processuais injustificadas.
O debate sobre a redução da maioridade penal ganha força entre setores conservadores que enxergam na violência contra mulheres um argumento para revisão do Estatuto do Desarmamento e da responsabilização jurídica mais ágil, embora especialistas alertem que medidas punitivistas isoladas não substituem investimentos em prevenção primária e em redes de proteção efetivas.



