Entre 1985 e 2025, o Cerrado viu a perda de 13,9 milhões de hectares de vegetação nativa em áreas localizadas até 500 metros de rios e cursos d'água, representando 26,9% do total desmatado no bioma nesse período, conforme revelado pela análise da Coleção 11 do MapBiomas, com base em mapas anuais de cobertura e uso da.
Contextualização Científica e Cartográfica da Degradação Ambiental
A análise do MapBiomas, coordenada por André Rigue, demonstra que o declínio da cobertura vegetal nativa nas zonas de transição entre terras agrícolas e corpos d'água reflete uma tendência estrutural de ocupação territorial no Cerrado, onde a expansão agropecuária avançou de 46,7 milhões para 97,9 milhões de hectares em quatro décadas, enquanto a vegetação remanescente nas faixas ribossolares sofre redução contínua. No Alto Tocantins e Araguaia, bacias com maiores índices de desmatamento em áreas de até 500 metros dos cursos hídricos, foram registradas perdas acumuladas de 3,0 milhões e 2,7 milhões de hectares, respectivamente, evidenciando a convergência entre atividades produtivas e impactos ambientais críticos.
Além dos dados quantitativos, o estudo aponta que o Cerrado — segundo maior bioma do país, com 200,4 milhões de hectares — perdeu líquidas 51,7 milhões de hectares de vegetação nativa desde 1985, sendo a vegetação savânica a mais afetada, com diminuição de 34,0 milhões de hectares. A preocupação se agrava ao considerar que 36,5 milhões de hectares da vegetação restante localizam-se dentro da zona crítica de até 500 metros dos rios, equivalente a 36,7% do total preservado no bioma em 2025.
A perda de 13,9 milhões de hectares de vegetação nativa no Cerrado entre 1985 e 2025 equivale a quase metade da área total do Estado de São Paulo.
Repercussões Institucionais e Desafios para a Conservação
O Ministério do Meio Ambiente e as instituições ambientais têm destacado a necessidade de políticas integradas para conter o avanço da fronteira agrícola nas áreas ribossolares, especialmente diante do impacto acumulado sobre as bacias hidrográficas do Alto Tocantins e Araguaia, que respondem por cerca de 41% da redução total da vegetação nativa em áreas críticas. O MAPA (Ministério da Agricultura) reconhece o crescimento da produção agropecuária no bioma como motor central da transformação territorial, mas afirma estar desenvolvendo estratégias para equilibrar desenvolvimento econômico e preservação ambiental.
Especialistas apontam que ações coordenadas entre órgãos ambientais, produtores e governos estaduais são essenciais para conter o ritmo atual de desmatamento. Com a meta de restaurar 17 milhões de hectares até 2030 prevista na Estratégia Nacional para Mudanças Climáticas (ENMC), o desafio inclui reverter padrões históricos sem comprometer a segurança alimentar ou a viabilidade econômica das cadeias produtivas do Cerrado.



