A cúpula anual de lideranças dos Brics, realizada na Índia a partir deste sábado (12/9), inicia-se em meio a profundos desentendimentos geopolíticos provocados pela escalada militar no O riente Médio, que ameaça comprometer a possibilidade de consenso entre os cinco membros plenos, especialmente após o impasse entre Irã e Emirados Árabes Unidos sobre a guerra na Faixa de Gaza e o bloqueio iraniano no Estreito de O rmuz.
Contexto Institucional e Tensões Geopolíticas nos Brics
A reunião preparatória dos chanceleres dos Brics, ocorrida em maio de 2025, revelou abertamente o racha dentro do bloco, com o ministro das Relações Exteriores de Teerã, Abbas Araghchi, afirmando que seu país buscava evitar debates sobre o conflito para "preservar a unidade e a coesão dos Brics", enquanto seu homólogo dos Emirados Árabes Unidos, Khalifa Shaheen Al Marar, insistiu na necessidade de abordar diretamente as implicações do conflito regional para a segurança coletiva do grupo.
A tensão entre Irã e Emirados Árabes Unidos intensificou-se após o início da guerra entre Estados Unidos e Irã em fevereiro deste ano, quando Teerã retaliou ataques aéreos norte-americanos em bases no Golfo Pérsico, inclusive em solo emiratense, levando à suspensão indefinida do comércio bilateral por Abu Dhabi, além da acusação formal de que Teerã teria realizado atentados terroristas contra o país vizinho, segundo alegações divulgadas pelas autoridades em Abu Dhabi.
Cinco países se tornaram membros plenos do Brics em 2023: Egito, Etiópia, Irã, Emirados Árabes Unidos e Indonésia.
Repercussão Diplomática e Desafios para o Consenso Global
A ausência de declaração conjunta na reunião de chanceleres reflete o enfraquecimento da capacidade decisória do bloco diante de conflitos regionais que colocam membros em posições opostas, com a diplomacia emiradense acusando Teerã de responsabilidade por ataques civis e o Irã rejeitando qualquer diálogo que pudesse comprometer sua soberania nacional no âmbito do fórum.
Analistas apontam que a edição de 2025 dos Brics representa tanto um desafio quanto uma oportunidade para que líderes busquem pontos de convergência sobre temas globais como segurança alimentar, mudanças climáticas e reformulação do sistema financeiro internacional, embora a atual crise evidencie a dificuldade de articular posições divergentes em um cenário de polarização geopolítica.
O futuro do Brics dependerá da capacidade dos presidentes — incluindo Putin, Lula, Xi Jinping e Dilma Rousseff — de superar as divisões regionais durante a cúpula de líderes prevista para esta semana, sob risco de nova frustração institucional caso não haja breakthrough diplomático capaz de reafirmar o caráter unificado da organização.



