A decisão do ministro Alexandre de Moraes, do STF (Supremo Tribunal Federal), de determinar a apreensão dos passaportes do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), ainda no domingo (25), após a confirmação da derrota para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), é alvo de críticas no entorno do petista.
A avaliação de interlocutores do presidente é que a medida foi precipitada e dá à oposição um argumento para sustentar o discurso de perseguição à família Bolsonaro.
Moraes tomou a decisão após um pedido da PF (Polícia Federal), que apontou risco de fuga. A corporação citou como argumento a saída do Brasil do advogado Willer Tomaz, investigado no mesmo inquérito que Flávio.
Flávio repete Jair e deixa o país após derrota para Lula
Outro motivo para o alerta foi uma declaração do ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro, irmão do senador, feita em 23 de outubro, defendendo que Flávio deixasse o Brasil caso fosse derrotado. “Se meu irmão não ganhar, eu sou a favor de que ele deixe o país com certeza”, disse em entrevista ao podcast americano “CrowderBits”.
A percepção entre petistas é que a decisão de Moraes, naquele momento, era desnecessária depois de Lula conseguir uma virada histórica nas urnas. O presidente reverteu a desvantagem para Flávio no primeiro turno ao conquistar mais de 10 milhões de votos adicionais na etapa final da disputa.
Aliados do presidente afirmam que a apreensão dos passaportes ajuda a alimentar a narrativa de que as eleições não foram transparentes e oferecem argumentos a setores do governo dos Estados Unidos para lançar dúvidas sobre a vitória de Lula.
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, voltou a dizer nesta terça-feira (27), durante um comício no Texas, que as eleições no Brasil foram fraudadas, sem apresentar provas.
“Eles fraudam muito bem [os democratas]. São os maiores fraudadores de eleições da história. Embora o Brasil também esteja fazendo um bom trabalho nisso, não é? Eu não tomei partido, não gostei, não me pareceu muito bom”, disse Trump.
Na avaliação de pessoas próximas a Lula, a medida de Moraes cria um desgaste desnecessário depois de uma campanha marcada por dificuldades internas e pelo esforço para reverter a vantagem de Flávio no primeiro turno, realizado em 4 de outubro.
Lula venceu o segundo turno com 64.256.232 votos, o equivalente a 51,79% dos válidos. Flávio recebeu 59.826.041 votos, ou 48,21%. A diferença foi de 4.430.191 votos.
A decisão de Moraes determinou o cancelamento dos passaportes brasileiros de Flávio, incluindo os diplomáticos, e a entrega, em até 24 horas, de documentos de viagem de outras nacionalidades que eventualmente possuísse. O senador também foi proibido de manter contato com Willer.
Flávio foi intimado na segunda-feira (26). O prazo terminou às 11h de terça-feira, sem que entregasse os documentos. Ao meio-dia, a PF cancelou os passaportes comum e diplomático do senador no sistema da corporação.
Aliados de Flávio têm usado uma fala de Lula durante o debate da Band, no segundo turno, para justificar a saída do senador do Brasil após a derrota na eleição presidencial.
No debate, Lula disse que Flávio teria problemas ao deixar o mandato e perder a imunidade parlamentar. O senador ficará sem cargo eletivo a partir de fevereiro de 2027, pela primeira vez em 24 anos.
“Que você vai perder imunidade, que te prepare, que você vai perder imunidade e você vai ter problema. Porque a sua vida tem muito inquérito, que agora vai andar. Se os seus amigos não estão deixando andar, agora vai andar”, disse Lula.
O senador é alvo de dois inquéritos da Polícia Federal. Segundo relatos feitos à CNN, ele dizia a aliados que corria risco de ser preso.
Uma das investigações envolve o financiamento do filme Dark Horse, sobre a trajetória do ex-presidente Jair Bolsonaro, com recursos atribuídos ao banqueiro Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master. A PF apura o destino do dinheiro e se parte dos recursos foi utilizada para custear despesas de Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos.
O outro inquérito investiga suspeitas de lavagem de dinheiro envolvendo Flávio e Willer Tomaz, por meio de empresas de apostas e plataformas de pagamento. Entre os pontos apurados estão o acesso a uma conta de empresa ligada ao advogado e o custeio de viagens. Flávio nega irregularidades.



