O senador Flávio Bolsonaro (PL) e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) escalaram seus vices, Alfredo Gaspar (PL-AL) e Geraldo Alckmin (PSB), para dialogar com eleitores mais resistentes às suas candidaturas e tentar reduzir a rejeição no segundo turno.
Enquanto Gaspar, deputado federal por Alagoas, se dedicou a percorrer o Nordeste, principal reduto eleitoral de Lula, Alckmin buscou atrair eleitores conservadores e moderados, reforçando a estratégia petista de dissociar a direita do bolsonarismo.
Levantamento da CNN mostra que Gaspar cumpriu 24 agendas entre os dias 9 e 24 de outubro. Dessas, 22 foram no Nordeste, o equivalente a 91,7% do total. As únicas exceções foram compromissos em Brasília e Belo Horizonte.
Em 16 dias de programação, o vice de Flávio passou por oito dos nove estados nordestinos. Apenas o Rio Grande do Norte ficou de fora, porque a mobilização no estado ficou a cargo do senador Rogério Marinho, coordenador da campanha de Flávio Bolsonaro.
A ofensiva buscou ampliar os apoios a Flávio e evitar que a mobilização petista no Nordeste retirasse votos do senador na região.
No primeiro turno, Lula venceu nos nove estados do Nordeste, com 63,77% dos votos válidos, contra 30,85% de Flávio Bolsonaro. O presidente recebeu 21,5 milhões de votos na região, ante 10,4 milhões do senador, uma vantagem de 11,1 milhões.
Alagoas foi o estado nordestino em que Flávio mais se aproximou de Lula. O petista recebeu 54,73% dos votos, contra 40,45% do adversário, uma diferença de 14,28 pontos percentuais. Maceió, capital e base eleitoral de Gaspar, foi a única capital nordestina em que o candidato do PL venceu.
Esquerda e direita contra o bolsonarismo
Do lado petista, a ampliação do espaço de Alckmin foi defendida por aliados após o primeiro turno. A orientação era reduzir o protagonismo da primeira-dama Janja da Silva e dar mais exposição ao vice, considerado capaz de atrair eleitores conservadores e moderados.
Com uma programação própria, Alckmin passou a dialogar com segmentos mais resistentes ao petista, entre eles empresários, eleitores de direita e prefeitos de partidos fora da base governista.
A trajetória do ex-tucano, que disputou a Presidência contra Lula em 2006 e se aliou a ele em 2022, serviu de argumento para a campanha. A mensagem era que o eleitor não precisava ser de esquerda ou petista para apoiar a chapa.
Peças de campanha chegaram a apresentar Alckmin como motivo para eleitores que não se identificavam com a esquerda votarem na chapa.
Um dos acenos ocorreu em Salvador, em 15 de outubro, quando o vice defendeu a redução da maioridade penal para 16 anos em casos de crimes graves, como homicídio e latrocínio. A declaração foi dada um dia depois de a oposição apresentar uma emenda à PEC da Segurança Pública sobre o tema, uma das principais bandeiras de Flávio.
Na mesma agenda, Alckmin defendeu que um eventual ajuste fiscal em um quarto mandato de Lula tivesse como alvo os supersalários e privilégios, e não os aposentados.
O vice-presidente também participou de um encontro suprapartidário em Hortolândia, na região de Campinas. Idealizada pelo ministro do Trabalho, Luiz Marinho (PT), a reunião buscou atrair prefeitos, vice-prefeitos, vereadores e ex-prefeitos, inclusive da base do governador Tarcísio de Freitas (Republicanos), aliado de Flávio.
A aposta foi aproveitar os vínculos construídos por Alckmin, que governou São Paulo por quatro vezes, para ampliar o apoio à chapa no interior paulista. O recado às lideranças era que uma eventual vitória de Lula não resultaria em uma gestão de revanchismo e que haveria espaço para aproximação com outros partidos.
Como mostrou a agência Reuters, Alckmin também foi cotado para assumir o Ministério da Fazenda em caso de reeleição de Lula. A sinalização foi considerada uma forma de transmitir segurança sobre a condução fiscal a empresários e investidores.
O vice ainda participou de uma sabatina com evangélicos e de um ato com o movimento Judias e Judeus pela Democracia, em São Paulo. Nesse último compromisso, apontou como um dos principais desafios da reta final a mobilização dos cerca de 33 milhões de eleitores que não votaram no primeiro turno.



