Lula (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) chegaram ao último debate presidencial, realizado pela TV Globo na sexta-feira (23), com discursos diferentes sobre a condução da economia, mas várias promessas semelhantes. Os dois defenderam reajustes do salário mínimo acima da inflação, ampliação de benefícios sociais, renegociação de dívidas das famílias e investimentos em infraestrutura.
As diferenças apareceram principalmente nos instrumentos escolhidos para colocar essas propostas em prática. Lula apostou na continuidade e ampliação dos programas de seu governo, enquanto Flávio apresentou alternativas que, em alguns casos, retomam iniciativas da gestão de Jair Bolsonaro.
Em comum, os candidatos também deixaram dúvidas sobre como pretendem financiar suas promessas em um cenário de restrições orçamentárias. O ajuste das contas públicas, considerado um dos principais desafios do próximo governo, recebeu menos atenção do que as medidas destinadas a ampliar a renda e aliviar o orçamento das famílias.
Renegociação de dívidas está entre as prioridades dos dois
O endividamento das famílias ganhou destaque nas propostas econômicas dos candidatos.
Lula defendeu uma nova versão do Desenrola, programa de renegociação de dívidas lançado em seu governo. A proposta prevê operações de até R$ 150 bilhões para a compra de dívidas com desconto, facilitando a renegociação por consumidores e pequenos empreendedores.
Flávio apresentou uma alternativa semelhante, mas com outro formato. O candidato pretende transformar a Caixa Econômica Federal em um chamado Banco da Prosperidade, que atuaria na aquisição de dívidas com desconto e na oferta de crédito em condições mais favoráveis.
A proposta prevê carência de seis meses para pessoas físicas e de um ano para empresas.
Nos dois casos, a intenção é reduzir o peso das dívidas sobre o orçamento das famílias e recuperar a capacidade de consumo. Mas permanecem dúvidas sobre a origem dos recursos, a distribuição dos riscos e o custo das operações para o setor público.
Bolsa Família: Flávio quer ampliar proteção a quem consegue emprego
Uma das propostas de Flávio é permitir que beneficiários do Bolsa Família continuem recebendo o auxílio por até dois anos depois de conseguirem um emprego formal ou abrirem um negócio.
A intenção é evitar que o ingresso no mercado de trabalho provoque uma perda imediata de renda. Se o trabalhador perder o emprego ou o empreendimento não prosperar, poderá retornar ao programa.
A ideia, no entanto, não parte do zero. O Bolsa Família já conta com uma regra de proteção que permite a manutenção parcial do benefício para famílias cuja renda aumente, desde que respeitados determinados limites.
Pelas regras aplicáveis a novos ingressos a partir de julho de 2025, a permanência geral é de até 12 meses, com pagamento de 50% do benefício, para famílias com renda por pessoa de até R$ 706, nos casos de renda não estável.
A proposta de Flávio ampliaria esse período de transição para dois anos, mas ainda não está claro se o benefício seria pago integralmente, quais limites de renda seriam adotados e quanto a mudança custaria.
Habitação: Flávio quer retomar o Casa Verde e Amarela
Na política habitacional, Flávio propõe substituir o nome Minha Casa, Minha Vida por Casa Verde e Amarela, programa utilizado durante o governo de Jair Bolsonaro.
O candidato afirma que pretende manter e ampliar o acesso à casa própria, com uma meta de financiamento de 2,5 milhões de moradias.
Entre as medidas anunciadas estão a oferta de juros reduzidos, a regularização fundiária, parcerias com a iniciativa privada e o incentivo ao registro dos imóveis em nome das mulheres.
A principal dúvida é como essas promessas se traduziriam nas condições oferecidas às famílias. Flávio ainda não detalhou as faixas de renda, os valores dos subsídios ou as taxas de financiamento que seriam praticadas.
O Minha Casa, Minha Vida atual combina financiamentos com juros favorecidos e subsídios públicos, especialmente para famílias de menor renda. Sem informações adicionais, não é possível determinar se a mudança proposta por Flávio manteria as mesmas condições de acesso.
Lula promete ampliar educação integral e Pé-de-Meia
Na educação, Lula defendeu a universalização do ensino em tempo integral na educação básica, até o ensino médio.
A proposta busca ampliar a permanência dos estudantes nas escolas públicas, com atividades pedagógicas e complementares ao longo do dia.
O presidente também prometeu estender aos universitários o modelo de incentivo financeiro do Pé-de-Meia, atualmente voltado à permanência de estudantes no ensino médio.
A expansão da jornada escolar exige investimentos em infraestrutura, contratação de profissionais e manutenção das unidades. Já a ampliação dos incentivos financeiros representa uma despesa adicional recorrente.
As duas iniciativas podem contribuir para reduzir a evasão escolar e melhorar a formação da mão de obra, mas também exigem planejamento orçamentário de longo prazo.
Transporte, infraestrutura e impostos
Lula reiterou a proposta de tarifa zero no transporte público aos fins de semana e defendeu a continuidade dos investimentos do PAC (Programa de Aceleração do Crescimento), incluindo obras ferroviárias e rodoviárias.
Também destacou a atração de investimentos industriais, citando a instalação da montadora chinesa BYD na Bahia.
Flávio, por sua vez, defendeu a ampliação das concessões rodoviárias, a expansão da malha ferroviária e a isenção de pedágios para motociclistas.
O candidato também prometeu reforçar o seguro rural e a segurança jurídica para produtores do agronegócio, além de estimular investimentos em data centers na Zona Franca de Manaus.
Na área tributária, criticou a perspectiva de uma alíquota próxima de 28% para o Imposto sobre Valor Agregado (IVA), previsto na reforma tributária, mas não apresentou um desenho alternativo detalhado.
Lula também voltou a defender o fim das apostas online, relacionando o crescimento das bets ao endividamento das famílias.
Promessas sociais contrastam com desafio fiscal
Embora apresentem visões diferentes sobre o papel do Estado, os dois candidatos assumiram compromissos que podem aumentar as despesas públicas ou reduzir receitas.
A manutenção de reajustes reais do salário mínimo, por exemplo, tem impacto sobre benefícios previdenciários e assistenciais vinculados ao piso nacional, ampliando a rigidez do Orçamento.
No caso de Lula, a expansão de programas sociais, educacionais e investimentos públicos exigirá espaço fiscal em um cenário de despesas obrigatórias crescentes.
Flávio, por sua vez, defende uma mudança na política econômica e maior controle dos gastos, mas também promete preservar benefícios, ampliar programas e oferecer condições favorecidas de crédito e financiamento.
O desafio será conciliar esses compromissos com a necessidade de estabilizar a dívida pública e recuperar a capacidade de investimento do governo.
Agenda de longo prazo ficou em segundo plano
O debate também evidenciou a dificuldade de deslocar a discussão econômica das necessidades imediatas para os problemas estruturais do país.
Embora os candidatos tenham apresentado propostas para infraestrutura, educação e atração de investimentos, temas como produtividade, modernização industrial, inteligência artificial, inovação tecnológica e qualificação profissional tiveram espaço limitado.
São questões fundamentais para elevar o potencial de crescimento da economia brasileira, especialmente em um cenário de transformação tecnológica e maior competição internacional.
O próximo presidente terá de enfrentar simultaneamente dois desafios: reorganizar as contas públicas e criar condições para que a economia cresça de maneira sustentada.
O debate mostrou que os candidatos têm propostas para aliviar problemas imediatos da população. Ficou menos claro como pretendem financiar essas medidas e, principalmente, como transformar esse alívio de curto prazo em ganhos duradouros de produtividade, renda e crescimento.



