A reeleição de Lula assegura continuidade à política externa universalista que marcou seu retorno ao Planalto. O Brasil seguirá buscando agir como ator global, com voz nas grandes disputas e capacidade de dialogar com parceiros distintos, sem alinhamentos automáticos.
A ambição de protagonismo, porém, encontra um cenário internacional mais adverso e restrições domésticas maiores do que as enfrentadas no início de seu mandato.
A prioridade ao Sul Global, ao Brics, à reforma da governança internacional e ao financiamento climático deve permanecer.
A relação com a China seguirá central, tanto pelo comércio quanto pelos investimentos em infraestrutura, energia e tecnologia. Mas aprofundar essa parceria não significa dar a Pequim condições privilegiadas em todas as áreas.
Preservar autonomia exige negociar agregação de valor aos minerais críticos, transferência de tecnologia e participação brasileira nas cadeias produtivas, sem substituir uma dependência por outra.
Com os Estados Unidos, a convivência será especialmente difícil. Donald Trump enxerga o hemisfério como espaço de primazia norte-americana e tem recorrido a tarifas e pressões políticas para disputar a influência chinesa.
Lula precisará negociar com Washington em comércio, segurança e investimentos, mesmo sem afinidade política com a Casa Branca.
Se a derrota de Flávio Bolsonaro for judicializada ou Trump questionar o resultado, o conflito poderá ultrapassar divergências diplomáticas e alcançar a legitimidade do governo brasileiro. Não é um desfecho inevitável, mas é um risco a ser administrado.
O entorno regional também mudou. A presença de governos de direita em países importantes da América Latina reduz a disponibilidade de parceiros para projetos liderados por Brasília e dificulta consensos políticos.
Isso não inviabiliza o Mercosul nem a cooperação em energia, infraestrutura e segurança, mas exigirá uma diplomacia menos dependente de afinidades entre presidentes e mais atenta aos interesses concretos de cada país.
A projeção internacional de Lula, sozinha, não resolve o relativo isolamento brasileiro na região.
Há ainda um desafio que depende diretamente do presidente. Lula foi reeleito por uma frente ampla, mas, no mandato anterior, conduziu a política externa com um círculo excessivamente fechado de interlocutores de confiança.
Em momentos de controvérsia, pareceu pouco exposto a avaliações divergentes e aos custos políticos de determinadas posições. A lealdade dos assessores pode garantir coesão, mas não substitui o contraditório nem corrige erros de percepção.
A composição do gabinete, a autonomia efetiva do chanceler e a presença de outras correntes da coalizão na formulação das prioridades internacionais mostrarão se essa lógica será revista.
Também será necessário dialogar com o Congresso, governadores e setores econômicos que não compartilham todas as preferências do Planalto. A direita saiu fortalecida das eleições, e uma vitória presidencial não equivale a um cheque em branco para uma agenda externa.
O desafio de Lula não é abandonar a pretensão de protagonismo, mas traduzi-la em influência e resultados. Sem ampliar quem participa das decisões, corre o risco de confundir a projeção internacional do presidente com a capacidade de influência do país. A ver.



