Na ciência política, coalizão é a soma de forças diferentes em torno de um objetivo comum. No modelo clássico, ela se monta de cima para baixo. Partidos negociam apoio, tempo de TV, palanques estaduais e cargos, e levam suas bancadas para dentro da campanha. Existe outro tipo, menos formal, que se forma de fora para dentro, quando grupos da sociedade se mobilizam por conta própria em torno de um candidato.
A dois dias do segundo turno, Flávio Bolsonaro (PL) e Lula (PT) chegam às urnas apoiados em coalizões desses dois tipos. Flávio optou pelo modelo clássico. A federação PP–União Brasil anunciou apoio incondicional ao senador, e o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), se engajou na campanha e esteve com ele no QG nesta sexta para preparar o último debate. Lula também tem partidos ao lado, mas a força que marcou sua reta final veio de fora da política, do eleitorado feminino.
O próprio adversário parece reconhecer isso. Flávio embarcou para o Rio nesta sexta (23) com a folha de anotações para o último debate à mostra e, segundo jornalistas que acompanharam o embarque, deixou propositalmente que ela fosse fotografada. Logo no alto, ao lado da palavra “mulheres”, ele escreveu “falar para elas”, e repetiu a instrução junto aos temas do preço do mercado e da segurança. A palavra “estadista” aparece circulada no canto da página.
É entre as eleitoras que a rejeição a Flávio é maior. A mudança de tom vem depois da postura agressiva do senador no debate da Band, no domingo (18/10), criticada até por aliados. Na propaganda, a campanha passou a exaltar a mãe do candidato e a esposa, Fernanda Bolsonaro, que o apresenta como “o Bolsonaro moderado”.
Os dois se enfrentam às 21h20 desta sexta na TV Globo, no último debate antes de domingo (25). Também nesta sexta termina o horário eleitoral gratuito. A disputa chega ao fim empatada, com 50% dos votos válidos para cada um no Datafolha.
As mulheres são 52,84% do eleitorado, um recorde de 83,9 milhões de eleitoras, e votam diferente dos homens. Em 2022, segundo analistas, pela primeira vez um candidato venceu num gênero e perdeu no outro, e foram elas que deram a vitória a Lula. A divisão se repete agora. No Datafolha divulgado na quinta (22/10), Lula tem 49% entre as eleitoras, contra 44% de Flávio. Na AtlasIntel/Bloomberg, a distância entre elas chega a quase 20 pontos. Entre os homens, Flávio lidera em todas as pesquisas. Com 94% dos eleitores já decididos, o senador disputa uma fatia pequena e decisiva.
Essa coalizão não tem sigla nem assinatura em ata. Ela se faz de declarações de voto, vídeos e atos, e principalmente de milhões de eleitoras anônimas.
Em vídeo, Fátima Bernardes avisou que no dia 25 vota de novo em Lula e Alckmin. A apresentadora associou a escolha à democracia, às liberdades e aos direitos sociais.
Angélica declarou voto na quarta (21/10). Disse não se identificar com a esquerda nem com a direita, mas querer um país sem preconceito, que respeite mulheres, crianças e pessoas LGBTQIA+ e cuide do ambiente em que seus filhos vão crescer. O vídeo veio depois que a sogra, Marta Dora Grostein, também anunciou voto em Lula.
“Meu voto é 13, meu voto é Lula”, escreveu Anitta. Ludmilla encerrou seu post com “Dia 25 é 13”. Xuxa falou em democracia e respeito. Fernanda Montenegro, Camila Pitanga, Débora Bloch, Paolla Oliveira e Bruna Marquezine também estão com o presidente, e Grazi Massafera aderiu nesta sexta. Juliette Freire, campeã do BBB 21, relacionou sua história de vida a políticas como o Bolsa Família e disse reconhecer erros e acertos da esquerda.
A médica que disse não a Bolsonaro
A cardiologista Ludhmila Hajjar, da USP, recusou em 2021 o Ministério da Saúde de Jair Bolsonaro por discordar da condução da pandemia. Nesta semana, declarou voto em Lula. Nesta sexta, defendeu o SUS em vídeo e criticou Claudio Lottenberg, indicado por Flávio para a Saúde. “Eu escolho o SUS. Faça como eu”, disse.
O sinal mais forte dessa coalizão é a travessia de mulheres que já estiveram do outro lado. Joice Hasselmann foi eleita em 2018 pelo partido de Bolsonaro, com votação recorde, e chegou a liderar o governo dele no Legislativo. Tinha anunciado voto nulo, mas mudou de ideia e declarou voto em Lula na quinta (22). “Voto Lula, sem meias palavras”, afirmou no vídeo, que passou de 7 milhões de visualizações. Ela promete voltar à oposição na segunda-feira (26).
Soraya Thronicke fez o mesmo caminho. Eleita senadora em 2018 como aliada de Bolsonaro, chegou a vice-líder dele no Congresso em 2021. Migrou para o PSB e declarou apoio à reeleição de Lula ainda em maio, dizendo que a humanidade do presidente a deixou “de queixo caído”. Pagou um preço por isso e perdeu a disputa pelo Senado em Mato Grosso do Sul no primeiro turno.
Simone Tebet, candidata do MDB à Presidência em 2022 e ex-ministra do Planejamento, vestiu a camisa da Seleção e fez o “L” na campanha #LulaVerdeAmarelo. A deputada Tabata Amaral (PSB-SP), que já foi crítica do PT, também está com Lula. A ex-BBB Milena Lages, a Tia Milena, que já havia curtido publicações bolsonaristas, passou a defender as políticas do governo. Ana Paula Renault, campeã do BBB 26, dirigiu seu vídeo aos eleitores de Renan Santos (Missão) e Augusto Cury (Avante), e alcançou 44,5 milhões de visualizações.
O apoio chegou também de fora do país. Madonna compartilhou com mais de 20 milhões de seguidores uma mensagem pela democracia, pelos povos indígenas e pela Amazônia que terminava com “Vote Lula. Vote 13”.
O cartão está no nome delas
O Bolsa Família ajuda a explicar a divisão. Das 18,9 milhões de famílias atendidas, 84% têm uma mulher como responsável, o que soma 15,8 milhões de mulheres. O programa prioriza as mães solo, e três em cada quatro titulares são negras. O dinheiro chega no nome delas, e são elas que decidem se ele vai para comida, material escolar ou remédio.
O benefício não as afastou do trabalho. Estudo da FGV mostra que beneficiários do programa ficaram com 85% do saldo de empregos formais entre 2023 e julho de 2026. As mulheres somaram 2,54 milhões dessas vagas, mais da metade.
A agenda vai além da renda. A Lei Maria da Penha, sancionada por Lula em 2006, criou mecanismos contra a violência doméstica. A Lei da Igualdade Salarial, de 2023, ampliou a fiscalização das diferenças de remuneração. A Política Nacional de Cuidados, de 2024, reconheceu o trabalho não pago com crianças e idosos, que recai sobretudo sobre elas.
O histórico ajuda a explicar a desconfiança das eleitoras. No governo Jair Bolsonaro, a verba federal para enfrentar a violência contra a mulher despencou. Segundo o Instituto de Estudos Socioeconômicos (Inesc), as propostas de orçamento do período somaram cerca de R$ 23 milhões para essas ações, contra R$ 366 milhões entre 2016 e 2019. O que foi aprovado também foi pouco usado. Em 2021, dos R$ 21,8 milhões autorizados para a Casa da Mulher Brasileira, só R$ 1 milhão saiu do papel.
Também em 2021, Bolsonaro vetou a distribuição gratuita de absorventes a estudantes de baixa renda e mulheres em situação de rua, alegando falta de fonte de custeio. O Congresso derrubou o veto no ano seguinte por 64 votos a 1 no Senado e 425 a 25 na Câmara. Na campanha de 2022, o então presidente dizia ter sancionado mais de 70 leis para as mulheres. A Agência Lupa mostrou que a lista incluía leis sem relação com o tema e normas que ele próprio havia vetado.
A segurança, um dos temas que Flávio anotou para falar com as mulheres, de fato pesa para elas. Para 77% das eleitoras, o assunto está entre os três maiores problemas do país. Pesquisadores observam, porém, que elas tendem a enxergar o tema de forma mais ampla, incluindo escola, saúde e proteção dos filhos, enquanto as propostas da direita se concentram na repressão ao crime. Entre as do senador está o Smart Brasil, uma rede nacional de câmeras de monitoramento.
A divisão de gênero também aparece nos palanques. O apoio mais visível ao senador é masculino, com Neymar, Gusttavo Lima, Zezé Di Camargo, Marrone e mais de 30 sertanejos reunidos em Nerópolis (GO) na terça (2010).
Em junho, o influenciador Paulo Figueiredo, aliado da família, afirmou que as mulheres votam mal, sobretudo as solteiras. Flávio repudiou a fala, mas seguiu contando com o apoio de Figueiredo, que tem trânsito entre lideranças trumpistas nos Estados Unidos. O episódio veio logo depois de Michelle Bolsonaro dizer, em vídeo, que foi maltratada por Flávio. Neste mês, aliados passaram a pedir publicamente que o candidato se afaste de discursos considerados extremistas sobre as mulheres.
Para pesquisadores, a rejeição feminina é em boa parte herdada do pai, condenado a indenizar a deputada Maria do Rosário (PT-RS) por ter dito que não a estupraria porque ela não merecia.
Flávio também tem apoio feminino. Jojo Todynho, MC Mirella, Ana Castela e Regina Duarte declararam voto no senador, e mais de quatro em cada dez eleitoras dizem acompanhá-las. As brasileiras não votam em bloco e seguem, em sua maioria, conservadoras.
Além das famosas, a mobilização reúne professoras, trabalhadoras da saúde, cuidadoras, aposentadas e lideranças comunitárias que não aparecem em listas de celebridades. Muitas são mães e avós preocupadas com renda, escola, saúde e segurança dos filhos. Flávio decidiu falar para elas no último debate, mas elas já vinham falando havia tempo.
As mulheres não votam para si mesmas. Votam pelos filhos e pelos netos. Votam pela floresta e pelo SUS. É a coalizão.
As mulheres que estão com Lula
Entre milhares de apoios declarados abertamente nas redes sociais, de rostos conhecidos e desconhecidos, estes são alguns nomes.
Fátima Bernardes, Angélica, Xuxa, Madonna, Fernanda Montenegro, Fernanda Torres, Anitta, Ludmilla, Ludhmila Hajjar, Joice Hasselmann, Soraya Thronicke, Simone Tebet, Tabata Amaral, Marina Silva, Erika Hilton, Manuela D’Ávila, Juliette, Camila Pitanga, Débora Bloch, Débora Falabella, Marieta Severo, Glória Pires, Taís Araújo, Bruna Marquezine, Paolla Oliveira, Grazi Massafera, Adriana Esteves, Sophie Charlotte, Letícia Colin, Malu Mader, Renata Sorrah, Dira Paes, Andrea Beltrão, Leandra Leal, Tatá Werneck, Maisa, Ana Paula Renault, Alane Dias, Tia Milena, Iza, Ivete Sangalo, Luísa Sonza, Marina Sena, Liniker, Duda Beat, Simone, Marina Lima, Anna Muylaert, Laís Bodanzky, Lúcia Murat, Tata Amaral, Marta Dora Grostein



