Os gastos públicos deram um estímulo à economia brasileira no primeiro semestre de 2026 equivalente a menos da metade do observado no mesmo período de 2022. Ainda assim, essa expansão pode ser mais prejudicial ao equilíbrio econômico agora, porque ocorre em uma economia que já opera aquecida, pressionando a inflação e exigindo juros mais altos.
A avaliação é do economista Bráulio Borges, em estudo publicado nesta quarta-feira (21) pelo Observatório de Política Fiscal do FGV Ibre, com base em dados do Tesouro Nacional.
Pelos cálculos do pesquisador, o impulso das despesas primárias — que não incluem o pagamento de juros da dívida — sobre a demanda foi de aproximadamente R$ 27 bilhões entre janeiro e junho. No primeiro semestre de 2022, havia sido de R$ 58 bilhões, em valores atualizados.
Esses números representam uma estimativa do estímulo à atividade provocado pela mudança nos gastos, considerando que diferentes tipos de despesa têm efeitos distintos sobre a economia. Não correspondem ao valor total desembolsado pelos governos.
A principal explicação para a diferença em relação a 2022 está nos estados e municípios. Há quatro anos, os governos regionais tinham receitas extraordinárias e dinheiro em caixa, o que permitiu uma expansão mais intensa das despesas. Neste ano, o estímulo foi mais modesto, com recuo dos gastos já no segundo trimestre.
Isso não significa que estados e prefeituras estejam gastando pouco. Mesmo após a queda, suas despesas permaneciam quase 30% acima do nível observado no início de 2022, descontada a inflação. O resultado reforça, segundo Borges, a necessidade de olhar além das contas federais para avaliar o efeito do setor público sobre a economia.
Na União, a forte alta das despesas no primeiro trimestre também perdeu força. O gasto caiu no segundo trimestre e, segundo uma estimativa ainda preliminar, voltou a recuar no terceiro, aproximando-se do patamar de meados de 2025.
Para o economista, esse movimento provavelmente reflete a antecipação de pagamentos, como precatórios, emendas parlamentares e outras despesas. Assim, a concentração de desembolsos no início do ano não se sustentou nos meses seguintes.
Embora inferior ao de 2022, o estímulo do gasto público neste primeiro semestre ficou acima do registrado em outros dois anos eleitorais: em 2014, foi de aproximadamente R$ 3 bilhões; em 2018, foi negativo em cerca de R$ 10 bilhões.
A comparação, porém, exige uma ressalva. O cálculo não abrange todas as formas de atuação do governo na economia. Ficam de fora despesas financeiras e medidas realizadas por meio de bancos públicos, fundos e outros instrumentos fora do orçamento primário.
Como indicação complementar, Borges analisa as concessões de crédito direcionado, modalidade que segue regras específicas de destinação e condições. Nesse caso, o impulso observado em 2026 também foi inferior ao de 2022 e ao de 2014, embora superior ao de 2018.
O principal alerta do estudo está no momento em que o estímulo é concedido. Na avaliação do autor, em 2021 e 2022 havia capacidade ociosa, permitindo que o aumento dos gastos ajudasse a recuperar a atividade. Desde 2024, porém, a economia brasileira opera com algum grau de superaquecimento.
Nessas condições, o gasto adicional reforça uma demanda já elevada e dificulta o controle da inflação. A consequência, segundo Borges, é a necessidade de juros reais mais altos para manter os preços alinhados à meta.



