São Paulo — Em uma das eleições mais polarizadas da história brasileira, a Avenida Paulista foi palco de uma das maiores manifestações desde as “Diretas Já”, levando às ruas cerca de 2 milhões de brasileiros no último sábado (26/10). Entre bandeiras vermelhas, cartazes provocativos e gritos estudantis, diferentes setores sociais se reuniram em apoio à candidatura de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) à Presidência da República. O ato antecedeu uma reviravolta eleitoral, que reelegeu Lula com uma diferença de 4,4 milhões de votos de seu opositor, Flávio Bolsonaro (PL).
A vitória do petista se torna ainda mais curiosa quando analisamos o contexto internacional e a maré de extrema-direita na América Latina. Países como a Colômbia também passaram por eleições muito acirradas entre partidos progressistas e conservadores. No entanto, o resultado foi diferente: Iván Cepeda, candidato esquerdista, perdeu as eleições à presidência para Abelardo De La Espriella, candidato da direita radical, por uma diferença de cerca de 25o mil votos.
O Brasil escolheu seguir em direção contrária à conjuntura latino-americana — até do previsto pelas grandes pesquisas eleitorais que apontavam, em sua maioria, Flávio à frente —, mesmo em um cenário desfavorável ao campo progressista. Nesse contexto, surge o questionamento: qual fator foi essencial para a vitória de Lula, que freou o avanço direitista radical no continente?
América Latina e sua mudança política
Após um momento de predominância esquerdista — conhecida como a “segunda onda rosa”, iniciada em 2018 com a eleição de Andrés Manuel López Obrador no México —, os países da América Latina vêm passando por uma mudança política radical com a ascensão de Javier Milei (Argentina), Abelardo de la Espriella (Colômbia), Keiko Fujimori (Peru) e José Antonio Kast (Chile).
WASHINGTON DC, UNITED STATES - OCTOBER 14: United States President Donald Trump greets the President of Argentina Javier Milei at the White House in Washington DC , October 14, 2025. (Photo by Celal Gunes/Anadolu via Getty Images)
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Segundo André Araújo, professor de Relações Internacionais da FESPSP (Escola de Sociologia e Política de São Paulo), essa guinada à extrema-direita envolve dois pontos principais: busca por soluções rápidas às desigualdades e a influência trumpista na região.
“[…] Há uma percepção generalizada de descontentamento com as condições de vida, especialmente em relação à economia e à segurança pública. Na medida em que os governos não entregam resultados no curto prazo — devido inclusive a tensionamentos internos —, o eleitorado opta por outra linha político-ideológica a cada ciclo eleitoral […] O segundo mandato de Donald Trump apresenta uma política externa mais ativa na América Latina, inclusive com ações militares. A atuação estadunidense soma-se às pautas internas locais, influenciando, por exemplo, a discussão sobre segurança pública ao declarar grupos do crime organizado como organizações terroristas. Além disso, as sanções aplicadas buscam impactar a política doméstica ao transmitir a percepção de um aparente isolamento internacional do governo afetado”, explica o especialista.
“[…] Há uma percepção generalizada de descontentamento com as condições de vida, especialmente em relação à economia e à segurança pública. Na medida em que os governos não entregam resultados no curto prazo — devido inclusive a tensionamentos internos —, o eleitorado opta por outra linha político-ideológica a cada ciclo eleitoral […] O segundo mandato de Donald Trump apresenta uma política externa mais ativa na América Latina, inclusive com ações militares. A atuação estadunidense soma-se às pautas internas locais, influenciando, por exemplo, a discussão sobre segurança pública ao declarar grupos do crime organizado como organizações terroristas. Além disso, as sanções aplicadas buscam impactar a política doméstica ao transmitir a percepção de um aparente isolamento internacional do governo afetado”, explica o especialista.
Aqui no Brasil, o cenário é o mesmo dos países vizinhos. Apesar das melhoras nos indicadores econômicos e de desemprego, o descontentamento popular é relacionado, principalmente, ao poder de compra e à segurança pública, que pautam as principais discussões políticas. Além disso, há um grande interesse de Donald Trump no Brasil, não só pela forte relação econômica do país com a China, mas pelos recursos naturais brasileiros, em especial, as terras raras.
Ainda assim, a reeleição de Lula contrariou a tendência observada em parte da região, colocando em evidência os fatores que contribuíram para esse resultado, entre eles, a mobilização popular.
Avenida Paulista como palco ideológico
Entre os fatores apontados para a reeleição de Lula, a mobilização popular ganhou destaque em São Paulo, onde grandes manifestações progressistas ocuparam a Avenida Paulista durante o segundo turno. Marcada por disputas políticas e ideológicas, a via foi palco de grandes atos favoráveis ao impeachment de Dilma Rousseff, em 2016, e, posteriormente, de manifestações bolsonaristas.
Para a cientista política e coordenadora do Curso de Graduação em Sociologia e Política da FESPSP (Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo), Tathiana Chicarino, esse período representou um maior protagonismo da extrema-direita nas ruas. As manifestações progressistas em 2026, nesse contexto, representariam uma retomada desses espaços por movimentos de esquerda.
Lula empunha bandeira do Brasil durante hino nacional no sábado, pré-segundo turno.
Lula se aproxima de apoiadores na Avenida Paulista.
Lula cumprimenta apoiadores em último ato de campanha.
Apoiadores se emocionam ao ver Lula na Avenida Paulista.
Apoiadora sobe em poste para ver Lula na Avenida Paulista
Lula sobe em caçamba e abandona trio elétrico no último ato de campanha na Avenida Paulista.
Apoiadora chora ao ver Lula de perto na Avenida Paulista.
A especialista aponta que essa movimentação foi essencial para a reeleição de Lula e pode ser compreendida pelo conceito de “contágio”.
“As grandes manifestações foram muito importantes para a vitória do Lula por fazer essa articulação entre redes e ruas, e estar na rua acaba também fomentando uma mobilização nas redes, na medida que as pessoas postam, chamam. A gente trabalha isso em termos de sociologia dos movimentos sociais com o conceito de contágio. As pessoas vão se contagiando com essa mobilização e isso é muito potente do ponto de vista político […] E essa foi uma mobilização que tinha como um horizonte muito específico, o de virar voto. Então, foi fundamental para energizar a militância, para trazer novos apoiadores, para também tirar um pouco desses fantasmas, desses pânicos morais relacionados a mobilizações de esquerda, de que são violentos, que não têm família” explica Tathiana.
“As grandes manifestações foram muito importantes para a vitória do Lula por fazer essa articulação entre redes e ruas, e estar na rua acaba também fomentando uma mobilização nas redes, na medida que as pessoas postam, chamam. A gente trabalha isso em termos de sociologia dos movimentos sociais com o conceito de contágio. As pessoas vão se contagiando com essa mobilização e isso é muito potente do ponto de vista político […] E essa foi uma mobilização que tinha como um horizonte muito específico, o de virar voto. Então, foi fundamental para energizar a militância, para trazer novos apoiadores, para também tirar um pouco desses fantasmas, desses pânicos morais relacionados a mobilizações de esquerda, de que são violentos, que não têm família” explica Tathiana.
Para além disso, as manifestações construíram pontes entre a juventude e a terceira idade, que participaram de atos e compartilharam experiências políticas. Para Chicarino, isso pode ser explicado por conceitos como “afeto do medo” e “pacto geracional”.
“O medo de que o Brasil sucumbisse à extrema direita na presidência da República. Esse afeto foi extremamente mobilizador, considerando comunicação digital, mobilização de rua e tudo mais […] Mas eu acho que tem uma coisa interessante também que a gente pode trabalhar, que é a questão do pacto geracional. Jovens chamando idosos e vendo idosos na rua com muita alegria. Nós passamos por vários momentos na política mais recente em que esses encontros de gerações estavam muito fragilizados. Esse pacto geracional que faz parte de uma comunidade política, democrática, ele de alguma maneira foi observado agora nessas manifestações”.
Em um cenário de avanço da extrema-direita na América Latina e de uma influência predatória do governo Trumpista, a mobilização popular na cidade de São Paulo ganhou destaque na reta final da disputa presidencial brasileira. A retomada da Avenida Paulista por movimentos progressistas, a articulação entre ruas e redes sociais e o “pacto geracional” evidenciaram a força da organização popular paulistana, apontada pelos especialistas como um dos fatores que contribuíram para a reeleição de Lula e para o resultado brasileiro na contramão da tendência regional.



