Doca, Pedro Bala, Gardenal, Grandão e BMW. Esses são alguns dos grandes nomes do CV (Comando Vermelho) que seguem foragidos após um ano da Megaoperação que deixou mais de 120 pessoas mortas nos Complexos da Penha e do Alemão, na zona Norte do Rio de Janeiro.
De acordo com as autoridades, a ação do dia 28 de outubro de 2025 tinha como principal objetivo frear o avanço da facção carioca. No entanto, até hoje, os principais líderes da organização não foram localizados.
A CNN Brasil separou quem são os principais nomes do Comando Vermelho que ainda seguem nas ruas e relembra o dia da megaoperação.
Doca ou Urso
Edgar Alves Andrade, também conhecido como "Doca" ou "Urso", de 55 anos, é o homem apontado como a principal liderança do CV (Comando Vermelho) no Complexo da Penha, na zona Norte, considerad o "QG" da facção.
Fugitivo do sistema carcerário, Doca é investigado por mais de 100 homicídios, entre eles execuções de crianças e desaparecimentos de moradores.
No final de 2023, Doca foi apontado em investigações como o mandante da execução de três médicos e da tentativa de homicídio de uma quarta vítima, na Barra da Tijuca, zona Oeste do Rio. As vítimas participavam de um congresso de medicina e foram confundidas com milicianos de Rio das Pedras. Um dos mortos foi o irmão da deputada Sâmia Bomfim (PSOL-SP).
Segundo o TJRJ (Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro) e o CNJ (Conselho Nacional de Justiça), há mais de 20 mandados de prisão expedidos em nome de Edgard Andrade.
Pedro Bala
Pedro Paulo Guedes, conhecido pelo apelido de Pedro Bala, é apontado como um dos homens de confiança de Doca e responsável pela parte operacional do grupo conhecido como "Tropa do Urso". Ele é um dos criminosos mais procurados do estado, com diversas passagens e ao menos nove mandados de prisão expedidos.
De acordo com as autoridades, Pedro Bala seria um dos envolvidos na morte de Gabriela Estefany da Silva Pinto, adolescente de 15 anos. As investigações tiveram início em 18 de maio de 2020, quando Gabriela desapareceu no conjunto de favelas do Complexo da Penha.
A vítima teria saído de uma festa na Comunidade Cinco Bocas e teria sido capturada por traficantes da Comunidade Vila Cruzeiro, após ser deixada por um amigo próximo à estação de trem na Penha Circular, não sendo mais vista desde então.
A jovem seria era ex-namorada do traficante de drogas da Vila Cruzeiro Paulo Henrique de Oliveira Gama Silva, o 2P, que teria descoberto que a adolescente estava em um relacionamento com uma pessoa que seria de uma facção rival.
Por conta do ciúme, o criminoso 2P teria armado uma emboscada e entregue a namorada para um grupo de traficantes do Complexo da Penha. Gabriela teria sido submetida ao tribunal do tráfico e morta por 2P e pelos integrantes da quadrilha de Pedro Bala.
Gardenal
Carlos da Costa Neves, popularmente conhecido pelo vulgo "Gardenal", é apontado como um dos principais líderes do Comando Vermelho.
De acordo com relatórios do MPRJ (Ministério Público do Rio de Janeiro) e investigações da Polícia Civil, "Gardenal" atua como gerente-geral do tráfico no Complexo da Penha. Ele seria responsável por coordenar a expansão violenta da facção para áreas da zona Oeste.
Autoridades apontam que "Gardenal" comanda a ações como a aquisição de armamentos pesados, monitoramento por drones e segurança estratégica ("contenção") das comunidades sob seu domínio.
Em abril de 2026, interceptações telefônicas revelaram que o homem negociava diretamente com chefes de milícias presos, como André Costa Barros (o "André Boto"), para facilitar a entrada do Comando Vermelho em comunidades de Bangu.
"Gardenal" também é investigado por supervisionar atos de violência extrema. Um dos casos é uma sessão de tortura que foi transmitida ao vivo para que ele assistisse.
Grandão ou Síndico
Washington César Braga da Silva, de 35 anos, conhecido no mundo do crime como "Grandão" ou "Síndico da Penha", é apontado como um dos principais traficantes e gerentes-gerais do CV no Complexo da Penha. Ele seria um dos homens de maior confiança de Doca.
O apelido de "Síndico" é por conta da função de "gestor" da favela. Grandão seria responsável por organizar o dia a dia do crime, incluindo escalas de plantão para traficantes em pontos de venda de drogas e patrulhas, além de gerir pagamentos.
As autoridades afirmam que o homem controla as células armadas que fazem a segurança de Doca e monitoram a entrada de polícia na região.
Relatórios da Polícia Civil indicam que ele usa grupos de WhatsApp para divulgar ordens, normas de conduta para a quadrilha, e até para cobrar pela escolta na casa de Doca. Além disso, atua como intermediário, filtrando quem pode ou não falar diretamente com "Urso".
BMW
A denúncia considerada como ponto de partida para a megaoperação no Rio de Janeiro apontou a existência de um grupo de matadores chamado de "Equipe Sombra".
Os integrantes seriam liderados por Juan Breno Malta Ramos Rodrigues, conhecido no mundo do crime como "BMW". Ele é tido como homem de confiança de Edgar Alves de Andrade, o "Doca" ou "Urso".
A denúncia diz que o grupo liderado por "BMW" usa armas de fogo de grosso calibre e atua com violência extrema contra os rivais. Ele também aparece no documento como alguém que exerce a função de "treinador de soldados do tráfico".
Mesmo abaixo de "Doca", "BMW" também é apontado como uma liderança do CV. De acordo com a denúncia do MP, ele, ao lado de "Gardenal" também seria responsável por orientar a prática de punições e torturas contra moradores da Penha.
A fila de corpos no Rio de Janeiro
A Praça da Penha, na zona Norte do Rio de Janeiro, amanheceu no dia 29 de outubro de 2025 com uma fila de corpos estendidos em uma lona.
Segundo o ativista Raull Santiago, que estava no local, cerca de 50 corpos foram retirados por moradores da região de mata do Complexo da Penha durante a madrugada do dia seguinte à megaoperação.
Além das mortes e do "cenário de guerra", a megaoperação gerou caos na cidade, com escolas municipais e estaduais fechadas, unidades de saúde suspendendo o funcionamento inicial e linhas de ônibus tendo seus itinerários desviados.
Um ano após a megaoperação
A Operação Contenção completa um ano nesta quarta-feira. Considerada a mais letal da história do país, a ação é alvo de uma investigação do MPRJ (Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro), que busca esclarecer as circunstâncias das 122 mortes registradas durante os confrontos nos complexos do Alemão e da Penha.
Um levantamento do Instituto Sou da Paz aponta que 425 munições apreendidas com suspeitos de serem membros do CV durante a megaoperação foram fabricadas em 2025, ou seja, no mesmo ano da megaoperação. O número corresponde a 46,8% dos 909 cartuchos de fabricação nacional entre as 1.073 munições originais analisadas.
O dado exclusivo obtido pela reportagem da CNN Brasil indica a possibilidade de um desvio recente das munições que chegaram às mãos da facção criminosa. Ao todo, 84,7% do material analisado era de origem nacional. A data de fabricação, isoladamente, não permite determinar quando ou como os cartuchos foram desviados, mas dimensiona a presença de munições produzidas no ano da ação policial.
No total, foram apreendidas 120 armas de fogo, segundo a recontagem oficial da Polícia Civil. O arsenal, que conta com materiais desviados das Forças Armadas, incluía 93 fuzis, cerca de 25 a 26 pistolas e um revólver, além de artefatos explosivos, como granadas, carregadores e munições. A recontagem elevou o valor estimado do material apreendido para mais de R$ 12 milhões.
Até o momento, o GAESP (Grupo de Atuação Especializada em Segurança Pública ) do MPRJ apresentou 12 denúncias contra 28 policiais militares por crimes como furto, peculato, violação de domicílio, constrangimento ilegal de moradores, roubo e recusa de obediência.
Em paralelo, o órgão conduz um PIC (Procedimento Investigatório Criminal) para apurar as mortes ocorridas durante a operação. Segundo o coordenador do GAESP, promotor de Justiça Fabio Corrêa, a investigação inclui depoimentos de policiais envolvidos na ação e de familiares das vítimas, além da análise de mais de quatro mil horas de imagens de câmeras operacionais portáteis e de laudos periciais médico-legais.
O objetivo é esclarecer as circunstâncias de cada morte e eventuais responsabilidades individuais, incluindo os casos de agentes de segurança pública mortos durante os confrontos.



