Em meio à volatilidade dos indicadores macroeconômicos e à transição para um ambiente de juros reais mais restritivos, a análise de José Roberto Mendonça, sócio e fundador da MB Associados, ressalta que a narrativa simplista que atribui a crise de inadimplência das empresas brasileiras exclusivamente ao aumento dos juros é, segundo ele, uma visão superficial e equivocada, ignorando a fragilidade estrutural das estruturas de capital.
Diagnóstico da Vulnerabilidade Estrutural e Antecedentes do Agronegócio
A avaliação de Mendonça, fundamentada em dados do mercado de crédito e na trajetória do agronegócio entre 2021 e 2023, evidencia que empresas com baixo índice de capital próprio em relação à dívida são, por natureza, vulneráveis a aumentos abruptos e inesperados nos juros, especialmente quando realizam expansões patrimoniais sem margem de segurança.
O setor agrícola, que acumulou exuberância durante os anos de 2021 a 2023 impulsionada por preços internacionais elevados e ganhos de produtividade, serviu como exemplo paradigmático da estratégia de crescimento arriscado: com financiamento obtido em bancos e por meio do mercado de capitais, os produtores ampliaram a produção e adquiriram ativos como terrenos vizinhos, aumentando exponencialmente a necessidade de capital de giro e deixando o portfólio financeiro desbalanceado diante da volatilidade do ciclo agropecuário.
A dependência excessiva de crédito externo para financiar expansão patrimonial no agronegócio expõe produtores a riscos sistêmicos quando os preços internacionais recuam ou estabilizam.
Repercussão Setorial e Implicações para o Comércio
As declarações de Mendonça repercutem em fóruns setoriais e reuniões da Associação Brasileira dos Produtores de Soja (ABPS), onde gestores reconhecem a necessidade de reestruturar a relação entre dívida e capital próprio, propondo políticas de amortização antecipada e maior cautela no uso de alavancagem.
No comércio, setores que já enfrentam desafios estruturais na transição para o digital — como varejistas tradicionais com dívida líquida acima de 80% do EBITDA — manifestam dificuldade em suportar o ônus adicional das taxas de juros, ampliando o risco de inadimplência em um cenário de crédito mais caro.



