Em viagens à Europa e ao México para apresentações, seminários e reuniões de trabalho nas três semanas que antecederam o segundo turno das eleições presidenciais no Brasil, o autor ouviu dezenas de vezes a pergunta: “Quem vai ganhar as eleições no Brasil?”. A última indagação ocorreu no check-in do voo de retorno ao Brasil, no sábado anterior à disputa final.
O interesse não se limitou a uma mera curiosidade. Segundo o texto, baseou-se no reconhecimento da representatividade do Brasil em um cenário latino-americano onde forças políticas de direita chegaram recentemente ao poder no Chile, na Colômbia e no Peru, depois de o mesmo ter ocorrido na Argentina, e na noção de que o país alcançou considerável grau de protagonismo e peso específico na esfera internacional.
O texto cita dados como o fato de o Brasil ser a décima maior economia do planeta, possuir 40% do território de toda a América Latina, 32% de sua população e ser responsável por 31% do PIB da região, graças a atividades produtivas diversificadas que vão do agronegócio aos aviões da Embraer.
O autor recorda discurso do primeiro-ministro Mark Carney, do Canadá, em janeiro deste ano no Fórum Econômico Mundial em Davos, na Suíça. Carney afirmou que o mundo vive um processo de ruptura profunda e não de mera transformação, representado pelo uso de tarifas e outras medidas econômicas por grandes potências para ampliar seu alcance e influência, impactando cadeias de suprimentos e o comércio global.
A frase “Se você não está à mesa, você está no cardápio”, atribuída a Carney, deixa clara a ideia de que economias relevantes de médio porte precisam construir alianças alternativas, garantir autonomia estratégica e algum tipo de escudo contra o poder das superpotências e resultado de suas rivalidades.
Esse posicionamento ajudou a criar o movimento P4M (Parceiros pelo Multilateralismo), que se propõe a articular uma maior integração entre aquele grupo de economias intermediárias. A iniciativa ganhou impulso em 20 de setembro de 2026, paralelamente à 81ª Assembleia Geral da ONU em Nova York.
Entre os objetivos do P4M estão a defesa da cooperação multilateral; a busca de soluções para as mudanças climáticas; a regulação da inteligência artificial; a revisão de padrões tradicionais no comércio internacional; e a reforma de instituições globais como a própria ONU. Canadá, Austrália e Brasil fazem parte do grupo inicial de países interessados nesse tema, além de Quênia, Índia e a União Europeia.
Com a virada da página das eleições brasileiras, é mais do que oportuno acelerar reflexões e atitudes destinadas a lutar por um lugar à mesa e ficar fora do cardápio. Para isso, no atual cenário de poderosos vetores geopolíticos globais, não serão efetivos os discursos inflamados ou movimentos aleatórios.
O Brasil conta com dois ativos importantes para contribuir no esforço coletivo das “potências médias”, para usar a definição de Mark Carney: nossa tradicionalmente bem-preparada diplomacia, que pode ajudar a apontar caminhos; e um bom punhado de empresas nacionais e executivos com visão estratégica e capacidade para jogar o jogo que precisa ser jogado.



