A crescente desconfiança sobre o uso de inteligência artificial na produção textual, evidenciada pela associação entre correção gramatical e suspeita de geração por IA, afeta alunos, profissionais e candidatos, conforme constata a educadora Carol Jesper, que alerta para o ônus da desconfiança que complica a avaliação de trabalhos escritos com rigor linguístico.
Contexto Histórico e Dinâmicas da Crise na Escrita
Carol Jesper, doutoranda e mestra em educação e criadora da página 'Português é legal', identificou uma mudança paradigmática no receituário da avaliação textual: o medo que antes recaiu sobre quem não dominava a norma-padrão da língua – associado historicamente a deficiências cognitivas ou falta de formação – passou a recair sobre aqueles que a dominavam de forma exemplar.
O levantamento do The Economist, baseado em análise de 55.940 frases e 1,2 milhão de palavras, revelou que apenas o modelo Claude empregou travessões com frequência superior à dos escritores humanos, sinal que foi progressivamente deslocado do contexto natural da pontuação e adoptado como indício inequívoco de intervenção artificial.
A suspeita de uso de IA agora paira sobre quem domina a norma-padrão da língua, transformando virtudes linguísticas em indícios de desonestidade intelectual
Repercussões Institucionais e Desafios na Avaliação Acadêmica
A Polícia Federal e o Ministério da Educação têm intensificado investigações em casos de plágio e geração de textos por IA em processos seletivos e avaliações acadêmicas, diante da dificuldade crescente dos detectores automáticos – como evidenciado por estudo da revista Patterns (2023), que revelou viés sistemático contra falantes não nativos mesmo quando autores humanos.
Carol Jesper defende que a solução não reside em simular erros ou afastar-se do rigor linguístico, mas em promover uma avaliação qualitativa que valorize a construção argumentativa e a originalidade intelectual acima da mera conformidade formal com normas gramaticais.



