O mercado financeiro espera um aceno do presidente Lula sobre o compromisso do seu quarto mandato com as contas públicas para recuperar a confiança após a eleição. Economistas ouvidos pela CNN Brasil afirmam que a ausência de uma sinalização pode prolongar a turbulência, pressionar o dólar e encarecer o crédito, com efeitos sobre a economia real.
Na manhã desta segunda-feira (26), as negociações na B3 foram interrompidas e foi acionado o mecanismo do "circuit breaker", uma pausa nas negociações para acalmar o mercado após oscilações de mais de 10% no Ibovespa, o principal índice de referência da Bolsa. O dólar disparou e chegou a subir mais de 10%, passando dos R$ 4,99 de sexta-feira, para cerca de R$ 5,50.
Parte da reação reflete a forte quebra de expectativas, já que o mercado apostava em uma vitória de Flávio Bolsonaro. Segundo Gabriel Barros, economista-chefe da ARX, investidores haviam precificado uma mudança de governo. Como ela não ocorreu, uma forte reversão dessas posições aconteceu.
Economistas concordam que após a reação inicial mais acentuada, os ativos devem recuperar parte das perdas. Mas depois que a turbulência inicial passar, o que resta ainda é um cenário desafiador.
"O problema é que o desafio econômico do Brasil é maiúsculo e concreto, narrativas não vão resolver o desequilíbrio", diz Barros, que acrescenta que o risco não se restringe às questões fiscais, mas à deterioração institucional por causa dos questionamentos sobre as eleições e críticas a decisões consideradas falhas, tanto no âmbito do Superior Tribunal Eleitoral, quanto do Supremo Tribunal Federal.
O foco dos agentes do mercado agora está nos sinais que Lula dará sobre a equipe econômica, o controle dos gastos e a trajetória da dívida, lembrando que a equipe econômica e o arcabouço fiscal deve ser definido em dezembro.
A expectativa no momento é por uma mensagem inicial capaz de cumprir uma função semelhante à da Carta ao Povo Brasileiro, de 2002, de reduzir a desconfiança dos investidores sobre a condução da economia.
Miguel Pinheiro, especialista em câmbio da Blue, prevê volatilidade nos últimos meses do ano e considera decisivas as definições sobre a equipe econômica e a política fiscal. Segundo ele, uma perda de credibilidade na gestão das contas públicas pode provocar saída de capital e uma nova rodada de valorização da moeda americana.
Nesse cenário, afirma, o dólar atual, na casa dos R$ 5,56, pode acabar sendo considerado barato.
Ainda que setores da esquerda critiquem a lógica do mercado e suas reações que aparentemente não levam em consideração as prioridades sociais, os efeitos de uma perda de confiança na capacidade do governo de administrar as contas públicas - a chamada desancoragem fiscal - pode provocar uma deterioração dos ativos que pode atingir a economia real e a população.
A alta do dólar, por exemplo, encarece produtos importados e insumos usados pela indústria e pelo agronegócio, com efeitos sobre os preços pagos pelos consumidores. Isso pode gerar pressão sobre a inflação e a necessidade de manutenção dos juros básicos em patamar elevado, encarecendo o custo do crédito.
A desconfiança sobre a capacidade do governo de estabilizar a dívida também pode elevar os juros exigidos pelos investidores para investir no Brasil e gerar uma saída de dólares que, novamente, pode pressionar os preços.
O desafio do quarto mandato de Lula será, portanto, apresentar propostas que permitam manter as contas públicas em trajetória sustentável para evitar que a turbulência do mercado não ofusque os benefícios que a população pode obter com as suas promessas sociais.



