Um estudo científico indica que o Cerrado pode armazenar no solo até seis vezes mais carbono por hectare do que a vegetação da Amazônia, com estoques de até 1.200 toneladas por hectare. Parte desse carbono permanece no solo há até 20 mil anos, especialmente em áreas com solos hidromórficos, como veredas e campos úmidos, onde a decomposição microbiana é lenta e a matéria orgânica se acumula ao longo de milênios.
A pesquisa, publicada na revista Plants, People, Planet, defende que campos, savanas e outros ecossistemas abertos sejam incluídos nos mecanismos de financiamento climático e nos mercados de créditos de carbono. Segundo os autores, as metodologias atuais priorizam florestas e a biomassa visível acima do solo, o que torna invisível grande parte do carbono armazenado subterraneamente no Cerrado.
Fernando Silveira, biólogo e professor de ecologia da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e um dos autores do estudo, compara o bioma à ponta de um iceberg: embora a vegetação seja visível, o estoque de carbono abaixo da terra passa despercebido. Ele afirma que esse carbono subterrâneo é mais seguro a longo prazo e mitiga as mudanças climáticas com maior estabilidade do que o concentrado na vegetação florestal.
O estudo também alerta que o plantio indiscriminado de árvores em áreas naturalmente abertas pode prejudicar a biodiversidade e alterar o funcionamento desses ambientes. Plantas do Cerrado dependem da alta incidência de luz e possuem grande parte de sua estrutura abaixo do solo, nas raízes e em outras estruturas subterrâneas.
Mais de 46% da vegetação original do Cerrado já havia sido desmatada, segundo um estudo de 2022 citado na pesquisa. A conversão para lavouras, pastagens e áreas urbanas libera carbono e compromete estoques que levam séculos para se formar; estimativas apontam que a recuperação de metade da condição original em campos abertos pode levar até 800 anos.
Além do armazenamento de carbono, o Cerrado desempenha papel estratégico na segurança hídrica. O bioma está localizado no Planalto Central e abriga nascentes de oito das 12 grandes bacias hidrográficas brasileiras. Sua destruição pode comprometer o abastecimento de cerca de 50 milhões de brasileiros e afetar a produção agrícola.
A pesquisa recomenda ampliar o reconhecimento dos ecossistemas abertos nas políticas climáticas, desenvolver métodos para medir e validar o carbono presente no solo e nas raízes e direcionar recursos para a conservação e restauração adequadas desses ambientes.



