O custo da energia elétrica, o acesso ao financiamento e a distribuição dos subsídios foram apontados como principais desafios para garantir uma transição energética socialmente justa na Amazônia. O tema foi debatido nesta quarta-feira (4) durante o evento Transição Energética: A conta da mudança, quem paga, quem ganha e quem pode ficar para trás?, realizado em Belém pelos jornais O Globo e Valor Econômico. O primeiro painel reuniu Gustavo Tavares, gerente de Regulação da Equatorial Pará, Fatima Chamma, CEO da Chamma na Amazônia, e Eugênio Pantoja, diretor-técnico do Fundo Hydro.
Gustavo Tavares afirmou que apenas cerca de 30% do valor pago pelos consumidores na conta de luz é destinado à distribuidora, enquanto o restante cobre geração, transmissão, impostos e encargos setoriais. Segundo ele, é necessário reavaliar a distribuição desses recursos para evitar que os custos da modernização do sistema recaiam de forma desproporcional sobre os consumidores mais vulneráveis. Ele destacou ainda que alguns subsídios destinados à geração termelétrica na Amazônia representam despesas superiores às da Tarifa Social de Energia Elétrica.
A Equatorial Pará possui aproximadamente 3 milhões de consumidores no estado, dos quais cerca de 1 milhão já são elegíveis à Tarifa Social. A empresa estima que outras 60 mil famílias possam ser alcançadas pelo benefício e informou que nos últimos três anos mais de 100 mil pessoas foram atendidas por programas de ampliação do acesso à eletricidade no Pará. Tavares também mencionou que o aumento das temperaturas eleva a demanda por refrigeração e exige investimentos para robustecer a rede elétrica.
Para a empresária Fatima Chamma, a transição energética precisa considerar as condições financeiras de pequenos e médios empreendimentos amazônicos. Ela destacou que longas distâncias, custos de transporte e dificuldades logísticas comprometem a competitividade dos negócios e dificultam a adoção de tecnologias menos poluentes. Segundo ela, em alguns empreendimentos os gastos com energia elétrica chegam a representar 7% do faturamento, enquanto um percentual próximo a 3% seria mais adequado à sustentabilidade financeira dessas atividades.
Fatima defendeu que o acesso ao crédito seja acompanhado de orientação técnica e planejamento, permitindo que os empreendedores avaliem os custos e o tempo necessário para recuperar os investimentos. Ela ressaltou que o financiamento isoladamente não garante a modernização das pequenas empresas e que essas são importantes na geração de emprego e renda, devendo ser incluídas nas políticas de incentivo à transição energética.
O diretor-técnico do Fundo Hydro, Eugênio Pantoja, apresentou iniciativas da empresa voltadas à redução das emissões de gases de efeito estufa e ao aproveitamento de resíduos da produção amazônica. Segundo ele, a Hydro estabeleceu a meta de reduzir suas emissões em 30% até 2030 e alcançar a neutralidade até 2050, priorizando mudanças nos processos industriais em vez da compra de créditos de carbono.
Entre as iniciativas mencionadas está o aproveitamento de caroços de açaí como biomassa para abastecer caldeiras industriais, substituindo parte do uso de carvão mineral. A empresa trabalha com uma estimativa de consumo de 72 mil toneladas de sementes de açaí para essa finalidade. Pantoja também apresentou o programa Corredor, iniciativa territorial iniciada em 2024 com previsão de duração de dez anos.
A Hydro identificou 28 comunidades quilombolas em sua área de atuação e aprovou 36 projetos comunitários relacionados à bioeconomia, restauração florestal, produção de alimentos e fortalecimento de atividades econômicas locais. Entre as atividades estão a produção de mel e chocolate, implantação de sistemas agroflorestais e iniciativas de restauração ambiental. O representante reconheceu dificuldades estruturais relacionadas à logística, infraestrutura e acesso à energia que podem comprometer a execução desses projetos.



