A previsão de um pico do El Niño em novembro amplia a preocupação com os contrastes de chuva e seca em regiões fundamentais para a produção agropecuária brasileira. O risco, presente em relatórios de mercado e nas discussões de associações, produtores e cooperativas desde maio, reforça os alertas para possíveis dificuldades nas safras até o primeiro semestre de 2027. A depender do cultivo, os efeitos negativos podem durar mais tempo.
No Paraná, as chuvas comprometeram a produtividade e a qualidade dos grãos de inverno. Segundo relatório do Departamento de Economia Rural (Deral), divulgado em 29 de outubro, a produção deve atingir 2,84 milhões de toneladas, queda de 28% sobre 2025. Para o trigo, a estimativa é de 1,9 milhão de toneladas, recuo de 34%, resultado da redução da área e do rendimento.
Na Amazônia, a possibilidade de novos períodos de calor intenso e seca preocupa a cadeia da castanha. Segundo Patrícia da Costa, pesquisadora da Embrapa Meio Ambiente, o intervalo de 12 a 18 meses entre a floração e a frutificação faz com que as condições climáticas de um período influenciem colheitas posteriores. Dados do IBGE mostram que a produção brasileira oscilava entre 38 mil e 42 mil toneladas antes dos eventos extremos da década passada, mas caiu para cerca de 23 mil toneladas em 2017 após os episódios severos de El Niño de 2015 e 2016.
No Centro-Sul, o excesso de chuvas atrasa a maturação da cana-de-açúcar e o avanço da colheita, elevando os riscos para a produção de açúcar e etanol. Estimativas de mercado apontam atraso superior a 20% na safra e cerca de 50 milhões de toneladas podem deixar de ser colhidas. No Nordeste, a preocupação é com a seca, com estimativa de produção de 55 milhões de toneladas ante 56,3 milhões na safra anterior.
Nas lavouras de café no Sudeste e Sul, as chuvas mantêm boa disponibilidade de umidade. No fim de semana analisado pela World Weather, o Sul de Minas e São Paulo concentraram os maiores volumes, entre 18 e 70 milímetros. O cenário favorece a manutenção da umidade nas áreas produtoras, mas não apresenta estimativas sobre produtividade ou qualidade.
Para a soja brasileira em 2026/27, o cenário é ambivalente. Estudo da Serasa Experian aponta que, se a produtividade repetir o desempenho observado sob o El Niño de 2023/24, a produção poderá ficar 9,7% abaixo de um cenário neutro. Já a StoneX elevou sua estimativa para o recorde de 184,95 milhões de toneladas diante da perspectiva de melhores produtividades em Mato Grosso.



