A vitória de Luiz Inácio Lula da Silva, com uma vantagem superior a quatro milhões de votos sobre Flávio Bolsonaro, cria uma responsabilidade que ultrapassa a dimensão histórica de sua quarta eleição presidencial.
O próximo mandato precisará responder às expectativas de quem o elegeu e às inseguranças de quem o rejeitou. Seu legado dependerá da capacidade de construir prosperidade em um país dividido.
Entre o primeiro e o segundo turno, Lula passou de 53,9 milhões para 64,3 milhões de votos, um acréscimo de 10,4 milhões. Esse crescimento reúne diferentes escolhas e motivações.
A mobilização dos jovens e dos mais velhos, segundo as primeiras análises, foram imprescindíveis para a virada no segundo turno.
O encontro de gerações congrega diferentes expectativas de futuro. Para quem começa a vida adulta, são urgentes as oportunidades de estudar, trabalhar, empreender e conquistar autonomia em uma sociedade que respeite a diversidade.
Para quem envelheceu, importam a estabilidade de renda, a saúde e a possibilidade de viver com dignidade e segurança. Essas cenas não explicam todos os votos, mas expressam uma esperança compartilhada que o próximo governo tem a responsabilidade de honrar.
Um país que envelhece precisa prosperar
Entre 2012 e 2025, o número de jovens de 15 a 29 anos caiu de cerca de 51 milhões para 46,6 milhões. No mesmo período, a população com 60 anos ou mais cresceu de 22,2 milhões para 35,2 milhões.
Essa mudança na estrutura etária reforça a urgência de transformar a promessa do país do futuro em oportunidades no presente.
O Brasil precisa oferecer perspectivas a quem começa a vida adulta e segurança e dignidade a quem envelheceu esperando prosperidade. Elevar a produtividade tornou-se indispensável para ampliar a renda e sustentar os serviços públicos.
O governo do E
Lula tem a oportunidade de fazer o governo do E: democracia e estabilidade econômica; proteção social e responsabilidade fiscal; emprego e empreendedorismo; produção e natureza. A diversidade econômica, natural, comercial e humana do Brasil pode organizar essa agenda de crescimento.
Em um contexto geopolítico marcado por conflitos e disputas por recursos e tecnologias, segurança alimentar, energética e climática serão prioridades globais. O Brasil reúne condições para ocupar uma posição central na oferta dessas soluções.
Transformar esse potencial em prosperidade exige incorporar tecnologia à produção, desenvolver fornecedores, ampliar mercados e gerar empregos de maior remuneração.
O anúncio holandês de intenção de investir até US$ 500 milhões no Fundo Florestas Tropicais para Sempre, no dia seguinte à eleição, ilustra a capacidade de mobilizar capital em torno dos ativos naturais.
Essa oportunidade precisa se traduzir também em negócios, conhecimento e renda nos territórios.
O governo demorou a dar centralidade às aspirações de quem trabalha por conta própria.
Além dos trabalhadores com carteira assinada, milhões de brasileiros querem ser reconhecidos como empreendedores e encontrar políticas adequadas à sua realidade.
Lançado na reta final da campanha, com evidente apelo eleitoral, o Prospera MEI foi um movimento acertado.
Agora precisa ser executado e conectado à capacitação técnica, à gestão, à tecnologia e ao acesso a mercados.
O mesmo vale para os trabalhadores que precisam se preparar para novas ocupações.
Energia, alimentos, biocombustíveis, fertilizantes, minerais críticos e serviços tecnológicos podem ampliar oportunidades se investimento produtivo, pesquisa aplicada e qualificação avançarem juntos.
Condições para entregar
Essa ambição exige credibilidade fiscal. Na primeira sessão após a eleição, o Ibovespa caiu 13,88% e o dólar subiu 8,21%.
A intensidade do movimento cobra respostas, mas a comparação histórica recomenda precisão: após a vitória de Bolsonaro em 2018, a Bolsa também caiu; após a de Lula em 2022, subiu.
Preços refletem expectativas, riscos e posições anteriores. Cabe ao governo responder com decisões verificáveis sobre gastos, financiamento e dívida.
A definição rápida dos ministros será um primeiro sinal. Lula precisa reunir competência técnica, capacidade de execução e disposição para inovar, incorporando pessoas de fora da bolha petista.
Diante de um Congresso mais conservador, as pontes necessárias também passam pelas empresas, pela ciência e pela sociedade. A conquista do quarto mandato pelo voto popular já entrou para a história.
O legado será construído nas escolhas que começam agora.



