Quase 90 milhões de pessoas deslocadas à força vivem em países cada vez mais expostos a secas, inundações e calor extremo relacionados às mudanças climáticas, segundo a agência da ONU para refugiados, o ACNUR. O levantamento foi publicado nesta sexta-feira (6), antes da cúpula climática COP31, que ocorrerá em Antalya, na Turquia, e alerta para a necessidade urgente de mais financiamento para ajudar comunidades vulneráveis a se adaptarem.
O relatório indica que quase três quartos das pessoas deslocadas no mundo residem em nações como Afeganistão e Bangladesh, que enfrentam graves riscos climáticos. As conclusões mostram a sobreposição entre conflito, deslocamento e mudanças climáticas, conforme afirma o documento.
"A adaptação climática em áreas frágeis e afetadas por deslocamentos é uma questão de sobrevivência", afirmou Anton Leis Garcia, alto-comissário adjunto de operações do ACNUR. Ele também declarou: "Precisamos de financiamento climático para alcançar as comunidades onde as necessidades são maiores".
O documento trouxe o relato de uma refugiada sudanesa que fugiu do conflito em al-Fashir em junho de 2023 para o assentamento de Farchana, no leste do Chade. Ela relatou que, às vezes, passa uma semana sem encontrar água potável e precisa caminhar distâncias cada vez maiores à medida que os leitos dos rios sazonais secam devido ao aumento do calor.
O ACNUR alertou que as mudanças climáticas dificultam o retorno sustentável das pessoas deslocadas aos seus lares. No primeiro semestre de 2026, mais de dois terços dos retornos de refugiados ocorreram para países altamente expostos a riscos climáticos.
Na Síria, onde quase 4 milhões de deslocados internos retornaram recentemente, a população enfrenta escassez crescente de água e chuvas irregulares. Inundações ao longo do rio Eufrates, em maio, danificaram casas e desalojaram milhares de pessoas.
Em toda a África subsaariana, um em cada três assentamentos de refugiados poderá sofrer pelo menos 100 dias de calor extremo por ano até 2050. Em alguns assentamentos na Etiópia, incluindo Helaweyn, o calor extremo poderá persistir por mais de 200 dias por ano, aumentando os riscos de insolação e morte prematura.
"Os refugiados muitas vezes têm acesso limitado a refrigeração, água e energia confiável, o que torna mais difícil escapar de temperaturas perigosas", diz o relatório.
O ACNUR também alertou que a previsão de um El Niño de proporções gigantescas poderia agravar os riscos relacionados ao clima em muitos países que acolhem refugiados e desencadear mais deslocamentos.
Na África Oriental, inundações severas podem deslocar até 3 milhões de pessoas na Somália, Quênia, Sudão do Sul e Uganda até o final deste ano. No Sahel, seca, inundações e conflitos podem intensificar a competição por recursos escassos; partes da Ásia enfrentam riscos elevados de secas, inundações e ciclones.
