As eleições de Meio de Mandato nos Estados Unidos oferecem ao Brasil uma chance de reorganizar sua relação com Washington, embora não resolvam conflitos recentes automaticamente. Com o controle das duas casas do Congresso, os democratas poderão investigar Donald Trump e contestar sanções e tarifas, mas terão que escolher suas batalhas entre temas como Irã, imigração e orçamento.
Para o Brasil, o primeiro efeito é a abertura de novos interlocutores, e não o surgimento de aliados automáticos. Democratas podem questionar tarifas e sanções usadas em disputas brasileiras e examinar a articulação política dos Bolsonaro nos EUA, o que pode constranger certas iniciativas, mas não garante que essa fiscalização prevaleça sobre outras prioridades do governo norte-americano.
O entendimento entre Lula e Trump tem utilidade diplomática, mas oferece pouca estabilidade, pois decisões presidenciais são atravessadas por assessores, coalizões domésticas e crises externas. Uma conversa favorável pode abrir portas, mas não cria compromissos capazes de resistir à próxima divergência, exigindo que o Brasil multiplique canais de comunicação.
Há espaço para cooperação em energia e biocombustíveis, minerais críticos, defesa e segurança. No agronegócio, pesquisa, produtividade e segurança alimentar oferecem pontos de aproximação, ainda que os países disputem mercados. A convergência se constrói projeto a projeto, com investimento e tecnologia, não com afinidades políticas.
Os minerais críticos são um exemplo: Washington quer reduzir a concentração chinesa nas cadeias de suprimento, enquanto Brasília busca processar recursos em território nacional. O potencial brasileiro não assegura parceria, assim como o interesse norte-americano não garante industrialização; é preciso negociar condições atraentes para ambos.
Isso exige uma articulação brasileira em múltiplos níveis, alcançando Congresso, governos estaduais, empresas, agências e instituições de pesquisa com propostas adaptadas a cada interlocutor. Washington funciona de maneira cada vez mais transacional, independentemente de quem esteja no poder.



