O estudo do FGV IBRE, publicado em maio de 2026, revela que o crescimento nominal do emprego no Brasil, de 1,3% ao ano desde o fim de 2019, mascara uma erosão significativa do poder de compra real da população, com a renda disponível real caindo 23% em relação à medida oficial, enquanto a taxa de desemprego aparente recua 5 pontos percentuais entre o quarto trimestre de 2019 e o primeiro trimestre de 2026.
Diagnóstico Estatístico e Revisão Metodológica da Renda Real
A pesquisa do FGV IBRE, coordenada pelos economistas Fernando de Holanda Barbosa Filho, Paulo Peruchetti e Janaína Feijó, analisa com rigor técnico a discrepância entre os indicadores oficiais de crescimento econômico e a percepção da população sobre sua condição financeira. O estudo demonstra que o aumento aparente do emprego se deve, em parte, a fatores demográficos como maior escolaridade e envelhecimento populacional, e não à melhora das condições individuais dos trabalhadores. Ao ajustar a taxa de desemprego para excluir esses efeitos de composição populacional, o indicador real sobe de 6,1% para 7,4% no primeiro trimestre de 2026, indicando uma deterioração real do mercado laboral que não consta nos dados oficiais.
Além disso, ao corrigir a renda nominal pelo Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) específico de alimentação no domicílio — item que representa uma parcela crescente do orçamento familiar — o crescimento anual da renda nominal de 1,9% inverte para queda de 2,0% ao ano desde o fim de 2019. Esse recalculado revela que, apesar do discurso oficial sobre valorização salarial, a capacidade efetiva de consumo das famílias tem se reduzido continuamente, especialmente nas camadas mais vulneráveis.
A renda disponível real caiu cerca de 23% em relação à medida oficial divulgada pelos órgãos governamentais.
Consequências Socioeconômicas e Respostas Institucionais
O s dados apontam para um paradoxo estrutural: enquanto o mercado formal registra crescimento e queda do desemprego aparente, a maioria da população enfrenta maior endividamento e redução do poder aquisitivo real. Segundo o Banco Central, o comprometimento da renda familiar com o serviço da dívida subiu para próximo de 30%, acima da faixa histórica entre 2013 e 2019. A fatia do crédito caro — cheque especial, cartão rotativo e crédito pessoal — avançou de 18% para quase 25% entre 2020 e 2026. Esse cenário já se reflete na inadimplência, que atingiu 7,2% em abril de 2026 entre os consumidores livres, revertendo tendência anterior de queda.
Esse quadro tem gerado pressão sobre instituições financeiras e políticas públicas. A CNC aponta que 83,6% das famílias com rendimento até três salários mínimos estão endividadas em abril de 2026, sendo 38,2% com contas em atraso. Além disso, uma pesquisa da Genial Investimentos com Quaest revelou que 69% dos brasileiros consideram seu poder de compra menor que há um ano, sinalizando forte insatisfação social diante do desencontro entre indicadores macroeconômicos e realidade cotidiana.



