Ao defender uma inteligência artificial brasileira, Lula dá à sua quarta vitória uma ambição de autonomia que interessa a todo o mundo de língua portuguesa.
Na noite em que conquistou seu quarto mandato, Lula defendeu uma inteligência artificial brasileira, uma "arma" capaz de reduzir a dependência da China e dos Estados Unidos. Associou-a à educação, à energia renovável e aos centros de dados. Entre os compromissos do discurso, esta é a proposta que mais merece ser ouvida fora do Brasil.
Mas suas propostas entretanto derrotadas Flávio Bolsonaro propunha uma aproximação maior a Washington. A vitória de Lula mantém aberto outro caminho: o da maior nação de língua portuguesa a procurar capacidade própria de decisão num mundo disputado por potências tecnológicas. A autonomia anunciada terá agora de ganhar meios para se tornar efetiva.
É nesse sentido que leio a ambição de pensar em português. O Plano Brasileiro de Inteligência Artificial já prevê modelos na nossa língua, baseados em dados nacionais. O passo decisivo será permitir que investigadores e empresas formulem os seus problemas, desenvolvam soluções e conservem o conhecimento que produzem.
Essa capacidade pode transformar a economia. A energia renovável alimenta a computação; a inteligência artificial pode ajudar a gerir essa energia, melhorar a produção de alimentos e aumentar a produtividade. O interesse brasileiro estará em dominar uma parte crescente da tecnologia que acrescenta valor ao que o país produz.
Para isso, serão precisos profissionais qualificados, acesso à computação e investimento continuado. A língua ganha força económica quando serve para investigar, criar e trabalhar. Uma aplicação que responde em português pode continuar inteiramente dependente de decisões tomadas no estrangeiro.
Portugal tem aqui uma oportunidade concreta. Universidades e empresas dos dois países podem desenvolver ferramentas para a agricultura, a energia ou a saúde, com conhecimento e capacidade de decisão partilhados. Os restantes países de língua portuguesa devem poder participar, com as suas necessidades e variedades linguísticas.
Para o mundo, um Brasil com maior capacidade tecnológica própria alargaria as possibilidades de cooperação para além da disputa entre Washington e Pequim. Uma autonomia de longa duração, longe do ferneso eleitoral, escolhendo parceiros e negociando com eles as melhores condições. Quem sabe, uma nova era para o multilateralismo global.



