A fuga do senador Flávio Bolsonaro (PL), candidato derrotado à Presidência, fortalece o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), como principal voz de oposição ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), na avaliação de aliados da família Bolsonaro.
Com o ex-presidente Jair Bolsonaro em prisão domiciliar e seus filhos Flávio e o ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro fora do país, interlocutores do clã avaliam que Tarcísio reúne as melhores condições para ocupar o espaço que o senador pretendia assumir após a derrota nas urnas.
A avaliação é que, além de governar o maior estado do país, Tarcísio tem capacidade de articulação para dialogar com diferentes setores da direita. Para esses aliados, o governador, reeleito em primeiro turno, também surge como nome natural para disputar a Presidência em 2030.
Entre integrantes da chamada ala moderada, a projeção de Tarcísio é vista ainda como um aceno a uma direita mais moderada, capaz de ampliar o diálogo para além da base bolsonarista.
O governador já era apontado, principalmente por setores do mercado, como o nome preferido para disputar o Planalto neste ano. Jair Bolsonaro, no entanto, escolheu o filho mais velho para representar o bolsonarismo na eleição presidencial.
Depois da decisão do pai, Flávio viajou a São Paulo para comunicá-la a Tarcísio. Inicialmente mais distante da disputa, o governador se reaproximou da campanha e se engajou na reta final, sobretudo no segundo turno.
Tarcísio também esteve entre os aliados que aconselharam Flávio a não contestar o resultado das urnas. O governador participou ainda da reunião em que o senador foi orientado a não fugir do país, apesar de dizer que corria risco de ser preso.
Na avaliação desses aliados, Tarcísio também se sobressai a outros integrantes da família Bolsonaro, como Carlos Bolsonaro e Michelle Bolsonaro, eleitos para o Senado. Filho do ex-presidente, Carlos exerceu o mandato de vereador no Rio de Janeiro por anos e chegará agora a Brasília. Interlocutores do clã afirmam que ele não gosta da articulação política.
Michelle, eleita pelo Distrito Federal, tem sua liderança elogiada pelo presidente do PL, Valdemar Costa Neto, mas ocupará pela primeira vez um cargo eletivo. A ex-primeira-dama também enfrenta resistência dentro da família e de parte dos aliados do bolsonarismo, que apontam dificuldades em sua relação com o grupo.
Interlocutores que acompanharam de perto a campanha de Flávio também veem Tarcísio como o nome mais preparado para função entre os governadores da direita. Foram eleitos neste ano Sergio Moro (PL), no Paraná; Cleitinho Azevedo (Republicanos), em Minas Gerais; Douglas Ruas (PL), no Rio de Janeiro; e Luciano Zucco (PL), no Rio Grande do Sul. Em Santa Catarina, Jorginho Mello (PL) foi reeleito.
Nesta terça-feira (27), dois dias após a vitória de Lula, Tarcísio reconheceu o resultado da eleição e agradeceu a Flávio pela caminhada durante a campanha. O governador, porém, afirmou que aceitar o resultado não significa deixar de questionar o que chamou de excessos na disputa.
Sem citar Lula nominalmente, Tarcísio defendeu que a oposição una forças para cobrar o governo. Na manifestação, ele não comentou a saída de Flávio do Brasil.
“Eleição passou, mas não passou o desejo de ministérios com gente técnica e séria, de um governo que corte gastos e tire o peso dos impostos das costas do cidadão. Esse desejo tem nome, chama-se projeto de país”, disse o governador de São Paulo.
Segundo Tarcísio, mesmo com o fim da eleição, o país continua “fraturado e dividido”. Sem citar nominalmente Lula, ele afirmou ser necessária uma postura séria “de quem lidera” o Brasil.



