IníciobrasilVenezuela: Terremotos expõem fragilidade do regime - 05/07/2026 - Mundo

Venezuela: Terremotos expõem fragilidade do regime – 05/07/2026 – Mundo

Há uma semana, no saguão do aeroporto de Miami, na Flórida, María, venezuelana de 68 anos que viajava a Maracay, na Venezuela, para ajudar a família do filho após os terremotos, dizia temer as implicações políticas dessa tragédia.

“Parece-me que agora é que não vamos ter eleições nunca”, afirmou. “Vão usar o terremoto como desculpa para atrasar ainda mais as eleições.”

O prazo constitucional de seis meses para que a líder interina Delcy Rodríguez ficasse no poder, afinal, esgotou-se na sexta-feira (3). E nem a ditadura, tampouco os Estados Unidos, que tutelam o regime, deram qualquer sinal de uma data no horizonte.

Mas o que analistas, pesquisas de opinião e, em especial, os cidadãos, apontam está na contramão do temor daquela avó venezuelana que se divide entre a casa dos três filhos na Espanha, em Miami e em Maracay.

Pesquisa de opinião realizada pela AtlasIntel de 26 a 30 de junho, portanto nos primeiros dias que seguiram os terremotos do último dia 24, mostra um erosão acelerada da imagem de Delcy.

Entre os respondentes, 63,3% dizem desaprovar sua gestão, aumento de mais de 4 pontos percentuais em relação à medição anterior, de maio. Também 53,3% dizem que sua gestão é ruim, ante 31,3% que a caracterizam como regular.

O levantamento conta com 2.581 adultos recrutados digitalmente. A margem de erro é de 2 pontos, para mais ou para menos, e o nível de confiança de 95%. Os resultados são muito aproximados dos obtidos por outras consultorias.

Os números e os analistas apontam para um fim da lua de mel da população com o regime de Delcy tutelado por Washington, um período em que muitos realmente acreditavam que uma transição democrática estava por vir em breve.

Um período, também, no qual o afrouxamento da repressão, com a libertação de centenas de presos políticos importantes, a demissão de líderes militares e a substituição de alguns ministros, trouxe algum respiro. Mas ele não teve fôlego.

Na tragédia humana causada pelos terremotos do dia 24 e os dias que se seguem, há uma frustração generalizada com o Estado, em especial nas ruas da região costeira de La Guaira, onde a destruição foi intensa e onde milhares de pessoas seguem soterradas.

Familiares criticam não apenas a demora na ajuda, mas também informações confusas por parte de membros do Estado e a má gestão da crise, notadamente a situação dos corpos retirados nos escombros, mantidos de maneira de sordenada e improvisada em um porto transformado em necrotério.

Há ainda a ampla insatisfação de famílias que são impedidas pelo órgão de inteligência local de acessar o lugar onde seus familiares morreram. É o caso dos parentes dos mais de 140 deportados pelos Estados Unidos que eram mantidos em um espaço estatal em La Guaira e morreram, como mostrou reportagem da Folha.

“O terremoto tende a apenas acelerar e multiplicar uma tendência que já existia de erosão da paciência que os venezuelanos tinham com esse novo governo”, comenta Andrei Roman, diretor da Atlas, por telefone. “Depois da remoção de [Nicolás] Maduro, [preso pelos EUA em 3 de janeiro] muitos viram com muita expectativa a adoção de medidas diferentes pelo regime da Delcy”, segue.

“Mas o terremoto deixou muito nítida a incapacidade do governo venezuelano de ter uma resposta mínima à aflição que o pais esta passando agora. É o retrato de um Estado e um regime falidos. A demanda por uma mudança real está ficando mais intensa.”

Na mesma pesquisa da Atlas, o problema do país mais mencionado pelos respondentes foi justamente a corrupção (68,9%), seguido pelo enfraquecimento da democracia (35,3%) e pela pobreza (30,8%).

Os venezuelanos parecem ter dois caminhos. O primeiro, pressionar o estabelecimento de novas eleições por meio de protestos nas ruas. A população está nitidamente cansada, e o drama social em La Guaira deve perdurar por muito tempo. Assim, o fôlego para um chamado “estallido social” não é claro.

O segundo, contar com alguma ação dos EUA, que de fato tutelam o regime. Mas o governo de Donald Trump, como mostrou reportagem do Washington Post nesta semana, tem impedido que a líder opositora e Nobel da Paz María Corina Machado retorne ao país e já verbalizou que seu maior interesse é o petróleo, produto que Delcy está disposta a lhes dar.

María Corina é a figura mais popular do país, ainda hoje. A pesquisa da Atlas a coloca em primeiro lugar, com imagem positiva entre 53% dos venezuelanos. É seguida por Trump (50%), Edmundo González (43%), Marco Rubio (42%) e finalmente Delcy (23%).

“O terremoto não apenas derrubou casas e retirou vidas, mas também desmascarou um regime que está aí mas não governa”, diz à reportagem, em Caracas, Henry Alviárez, o chefe do Vente Venezuela, organização de María Corina, que era preso político do regime e foi liberado em fevereiro.

“Nossas relações com os EUA são ótimas. Mas aqueles que tutelam devem observar o que o povo pede. As normas democráticas [como o limite para que Delcy esteja no poder] não podem ser ignoradas por aqueles que querem nos aproximar de uma democracia”, completa.

María Corina é hoje a única figura venezuelanas com patamares elevados de aprovação, ainda que não seja um consenso (28% têm imagem negativa sobre ela). “O seu maior risco é sofrer o mesmo desgaste dos opositores do passado, é o de não conseguir entregar alguma mudança”, diz Roman, da Atlas.

Figuras que até há poucos anos lideravam a oposição venezuelana hoje são rechaçadas em peso.

Juan Guaidó, que se autoproclamou em 2019 presidente interino e foi reconhecido por diversos lideres da região, entre eles o então presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, hoje é tem imagem positiva apenas entre 6%. O mesmo vale para Leopoldo López, que hoje vive exilado na Espanha.

Para Henrique Capriles, a situação é ainda pior. Após ser inabilitado em 2017 e, depois, surpreendente reabilitado pelo regime para concorrer a cargos políticos, o opositor conseguiu se eleger para a Assembleia Nacional nas eleições de 2024; ele goza de uma imagem positiva para apenas 4% dos respondentes.

O destino de María Corina está na mesa, e ela sabe disso. Também por isso suas tentativas e suas declarações públicas de que voltará assim que possível a Caracas são frequentes. A questão é que, agora, é preciso combinar com os EUA.

Veja a matéria completa aqui!

RELATED ARTICLES

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui

- Publicidade -

mais vistas