O Brasil se prepara para enfrentar um dos cenários climáticos mais desafiadores das últimas décadas. A confirmação do retorno do fenômeno El Niño, somada às temperaturas recordes registradas no planeta, desenha um quadro de calor extremo, alterações profundas no regime de chuvas e impactos diretos sobre a produção e o consumo de energia elétrica. Segundo projeções da agência meteorológica dos Estados Unidos, a Administração Nacional Oceânica e Atmosférica (NOAA), há 63% de probabilidade de o fenômeno atingir intensidade considerada muito forte, um chamado “Super El Niño”, com efeitos que podem se prolongar até 2027.
No Brasil, porém, os impactos não serão uniformes. Enquanto a região Sul deverá enfrentar excesso de chuvas e maior risco de enchentes, a Amazônia, especialmente o Pará, entra em alerta para um período de estiagem severa e temperaturas acima da média histórica.
Calor extremo na Região Metropolitana de Belém
Na Região Metropolitana de Belém, junho tradicionalmente marca a transição para um período menos chuvoso. Neste ano, contudo, a redução das precipitações ocorreu de forma mais abrupta. A tendência é de diminuição significativa das chuvas nos próximos meses, acompanhada de temperaturas elevadas.
As máximas, que normalmente ficam entre 33°C e 35°C, podem atingir entre 38°C e 40°C entre agosto e outubro, intensificando a sensação de abafamento na capital paraense. O efeito é agravado pela elevada umidade do ar, pela grande quantidade de áreas asfaltadas e pela escassez de cobertura vegetal em diversos bairros.
Especialistas alertam que a combinação entre calor intenso e alta umidade pode representar um risco significativo para a saúde pública. “O organismo humano encontra mais dificuldade para dissipar o calor nessas condições. Isso favorece casos de desidratação, agravamento de doenças cardiovasculares e crises hipertensivas, especialmente entre idosos, crianças e pessoas que vivem em áreas mais vulneráveis”, explica a pesquisadora em Saúde Pública e Clima, Helena Vasconcelos.
Estiagem e risco de queimadas no interior do Pará


Se em Belém o principal problema será o calor sufocante, no interior do estado a preocupação se concentra na estiagem prolongada. A previsão é que o período seco se estenda até outubro, reduzindo a umidade do solo e aumentando o risco de incêndios florestais. O cenário remete ao registrado durante o forte El Niño de 2015, quando o Pará enfrentou longos períodos sem chuvas, rios em níveis críticos e aumento expressivo dos focos de queimadas.
A seca também preocupa por seus efeitos sobre a segurança hídrica e o abastecimento de comunidades ribeirinhas, além dos impactos econômicos sobre a agricultura, a pesca e o transporte fluvial.
Impactos do El Niño na geração de energia


Os efeitos do fenômeno climático também atingem diretamente a geração de energia no Pará. A Usina Hidrelétrica de Belo Monte, instalada na bacia do Rio Xingu, opera no chamado sistema “a fio d’água”, sem grandes reservatórios de armazenamento. Dessa forma, sua produção depende diretamente do volume de água disponível no rio. Com a redução das chuvas, a tendência é de queda significativa na capacidade de geração da usina durante o segundo semestre.
O cenário cria um paradoxo: justamente no período em que o consumo de energia dispara, impulsionado pelo uso intenso de aparelhos de refrigeração e ar-condicionado, a principal usina da região perde parte de sua capacidade produtiva.
Segundo especialistas do setor elétrico, o Operador Nacional do Sistema (ONS) poderá ser obrigado a aumentar o acionamento de usinas termelétricas, que utilizam combustíveis fósseis e possuem custo de operação mais elevado.
Conta de luz sob pressão
As consequências não devem ficar restritas ao Pará. Em nível nacional, o El Niño também altera a dinâmica de geração de energia em outras regiões do país. No Nordeste e no Centro-Oeste, o maior número de dias ensolarados e as mudanças nos padrões de circulação atmosférica tendem a favorecer a produção de energia solar e eólica. Entretanto, o sistema elétrico brasileiro ainda enfrenta limitações para armazenar o excedente gerado durante o dia.
À noite, quando a demanda por energia atinge o pico, o país depende novamente das usinas hidrelétricas e termelétricas.
Para especialistas em mercado de energia, esse cenário aumenta a possibilidade de acionamento das bandeiras tarifárias mais caras ao longo do segundo semestre de 2026 e de 2027, elevando os custos para os consumidores.
Desafios e adaptação para o Brasil
Com possibilidade de duração até 2027, o “Super El Niño” representa mais um teste para a capacidade de adaptação das cidades brasileiras e para a resiliência da matriz energética nacional.
No Pará, os próximos meses exigirão atenção redobrada diante de uma combinação particularmente delicada: calor extremo, redução das chuvas, maior risco de incêndios florestais e pressão crescente sobre a infraestrutura elétrica e os serviços de saúde.
Entenda o fenômeno El Niño


O El Niño é um fenômeno climático caracterizado pelo aquecimento anormal das águas superficiais do Oceano Pacífico Equatorial. Essa alteração modifica os padrões de circulação atmosférica em diversas partes do mundo, provocando secas em algumas regiões e excesso de chuvas em outras.
Na Amazônia, o fenômeno costuma estar associado à redução das precipitações, aumento das temperaturas, prolongamento da estiagem e elevação do risco de queimadas e incêndios florestais.

