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Caridade não soluciona a fome no mundo, diz Nobel da Paz – 05/07/2026 – Mundo

Anos antes de se envolver diretamente na política partidária americana, o trilionário Elon Musk causou polêmica ao responder publicamente a uma provocação de David Beasley, então diretor do Programa Mundial de Alimentos (PMA) da ONU, ex-governador da Carolina do Sul e agraciado com o prêmio Nobel da Paz em 2020 em nome do órgão das Nações Unidas.

Em outubro de 2021, Beasley disse à imprensa que, se Musk doasse apenas 2% de sua riqueza (na época, US$ 6 bilhões), poderia salvar 42 milhões de pessoas da inanição.

Em um post no X, o fundador da SpaceX escreveu: “Se o PMA conseguir me dizer, neste post, exatamente como US$ 6 bilhões resolveriam a fome no mundo, venderei ações da Tesla nesse exato momento e as doarei”.

Quando Beasley respondeu que essa quantidade de dinheiro não “resolveria a fome no mundo”, mas teria um impacto incrivelmente positivo, Musk retrucou acusando soldados das forças de paz da ONU de abusar sexualmente de crianças famintas na República Centro-Africana.

Anos depois, o ex-diretor do PMA não se arrepende do episódio. “O aumento de patrimônio líquido médio dos bilionários no auge da pandemia foi US$ 5,2 bilhões. Eu disse que só precisava de um dia do seu lucro para ajudar os milhões de pessoas no mundo todo que estão sofrendo. Será que é pedir demais?”

Beasley, 69, conversou com a Folha às margens da 75ª Reunião do Prêmio Nobel de Lindau, na Alemanha, sobre o combate à fome no mundo, os cortes ao auxílio humanitário feitos pelo governo Donald Trump e a polarização na sociedade americana hoje.

Quais são os principais obstáculos na eliminação da fome e pobreza extrema no mundo hoje?

A guerra e os conflitos são o principal problema. Hoje produzimos comida o bastante para alimentar o mundo, e com a tecnologia, a IA e a pesquisa moderna, isso provavelmente não vai mudar, mesmo com a população do planeta aumentando nos próximos 50 a cem anos.

O problema é a falta de acesso causada pela guerra. A isso se somam choques climáticos e corrupção, de maneira que, pela primeira vez em muito tempo, a insegurança alimentar grave está aumentando.

Há 200 anos, quando a população global era de 1,1 bilhão, 85 a 95% das pessoas viviam em pobreza extrema. Hoje, com 8 bilhões de pessoas, esse número é de 9%. Ou seja, aumentamos significativamente a qualidade de vida de todos os seres humanos. Agora estamos retrocedendo.

Tornou-se um clichê dizer que não há falta de recursos, mas sim de vontade política para erradicar a fome. Por que não há vontade política?

A política é o problema, e não digo isso apenas a nível geral, mas também a nível local, porque a maior parte da política é local. Quando temos conflitos tribais entre pastores e agricultores, geralmente é por falta de recursos.

Prestamos atenção [na guerra] Irã e Estados Unidos, mas não no que acontece no Mali, Burkina Fasso, Chade, Níger, Equador, Colômbia, Venezuela. E quase toda a fome no mundo hoje é evitável.

O senhor acredita que o capitalismo é capaz de erradicar a fome?

Sem dúvida alguma. O setor privado é essencial. Foi assim que obtivemos o sucesso dos últimos 200 anos na minha opinião. Mas, com mais riqueza, vem mais responsabilidade.

Por isso, no auge da pandemia, fiz aquele famoso tuíte. O que quis dizer foi: ok, bilionários, não sou contra você ganharem dinheiro, mas se há pessoas no mundo morrendo por não ter acesso a comida ou remédios que estão disponíveis, mas não podem pagar por eles… Fala sério.

O aumento de patrimônio líquido médio dos bilionários no auge da pandemia foi US$ 5,2 bilhões. Eu disse que só precisava de um dia do seu lucro para ajudar os milhões de pessoas no mundo todo que estão sofrendo. Será que é pedir demais?

Por favor, mostrem que se importam, mostrem que o capitalismo funciona. E ele funciona, mas vem com uma responsabilidade de ajudar os mais pobres. E caridade não é uma solução a longo prazo, embora seja bem-vinda. A solução a longo prazo é desenvolver sistemas que deem a todos emprego e estabilidade.

O senhor teve uma discussão com Elon Musk que terminou com acusações de abuso sexual contra funcionários da ONU. Por que o senhor acha que ele e o governo Trump se opõem de tal maneira à ajuda humanitária?

Quando Trump foi eleito em 2016, ele falava muito sobre cortar ajuda humanitária. Quando fui indicado [ao PMA, em 2017], não quis aceitar, mas um grupo de senadores democratas e republicanos me convenceram.

Então eu sentei na mesa com Trump e sua equipe de governo na Casa Branca e expliquei como a ajuda externa estratégica não apenas salva vidas e estabiliza populações, mas também economiza dinheiro dos americanos. E eu ganhei aquela discussão. Trump e seu governo fizeram literalmente tudo que eu pedi que fizessem. Chamamos isso de o milagre da avenida Pensilvânia [endereço da Casa Branca].

O que mudou?

Bem, na época eu estava nos jornais todos os dias batendo o bumbo, soando o alarme, falando com o Congresso, aparecendo na TV, no rádio, no jornal, nas redes sociais, tudo pra aumentar a conscientização. Isso porque eu descobri que, se o povo americano souber que há pessoas em necessidade, eles reagem e pressionam seus líderes a ajudar. Mas, se eles não sabem o que está acontecendo, estão ocupados com seu dia a dia.

Anos depois, quando Trump foi reeleito, não estou mais no cargo e, por alguma razão, ninguém está tentando conscientizar as pessoas. E aí esse governo cortou a ajuda externa de maneira significativa, e isso foi terrível.

Lógico que alguma ajuda precisa ser cortada, especialmente aquela que não é estratégica ou é motivada politicamente pela extrema esquerda ou extrema direita. O povo americano precisa entender que, se você não quer salvar uma criança passando fome por amor ao próximo, faça por interesse de segurança nacional.

O senhor quer dizer que a ONU e o PMA não estão mais em contato com o governo dos EUA e, por isso, os cortes aconteceram?

Isso você precisa perguntar para eles. Mas, por alguma razão, a mensagem não está chegando [no governo]. E quase todos os países no mundo estão cortando ajuda hoje em dia. Por quê? Primeiro porque os EUA, que são o maior líder da história na ajuda humanitária, perderam o foco e cortaram o auxílio.

Segundo porque a pressão contra a Europa para que gastem mais na Otan, além da guerra na Ucrânia, em Gaza e no Irã, fez com que realocassem a verba da ajuda humanitária. E aí você não vê mais cobertura da mídia sobre crises em curso. Com isso, as taxas de mortalidade infantil estão aumentando, e milhões de crianças estão crescendo com problemas porque não têm as calorias de que precisam.

Mas de onde veio a decisão do governo Trump? Por que essa reação contra a ajuda humanitária?

Não sei. Estou muito desapontado. Marco Rubio [secretário de Estado e responsável por operacionalizar o fechamento da agência de ajuda externa USAID], que sempre foi um grande defensor da ajuda humanitária, por alguma razão, capitulou frente aos enormes cortes feitos por esse governo.

Não sei explicar, mas é de partir o coração. É muito triste.

O senhor ainda é republicano?

Sou americano [risos]. Eu ganhei sete eleições como democrata e uma como republicano. E estou muito desapontado com os dois partidos. Tenho bons amigos nos dois, gente que eu admiro muito, mas parece que os extremos estão dominando o processo político nos EUA hoje em dia.

O americano médio, 80% deles, está no centro. Mas, com a proliferação das redes sociais, da desinformação, os extremos falam mais alto, e isso está destruindo os dois partidos e a democracia.

Como o senhor acha que os americanos sentirão o impacto dos cortes na ajuda externa?

Sabe, muitos políticos nos EUA, na Alemanha, no Canadá, em muitos lugares, de esquerda e de direita, me perguntam: por que eu deveria mandar dinheiro dos meus contribuintes para Guatemala, Honduras e El Salvador se as pessoas aqui no meu país precisam de educação, saúde, infraestrutura? Uma excelente pergunta.

Minha resposta era a seguinte: o Estado Islâmico e a Al Qaeda estão recrutando crianças porque essas crianças têm fome. Isso gera morte, instabilidade, migração em massa. Os europeus deram uma de João-sem-braço e não quiseram lidar com o que estava acontecendo na Síria.

No fim, somente na Alemanha, 1 milhão de refugiados entraram no país em um período de cinco anos. Eles custaram ao Estado alemão 70 euros por dia. O PMA consegue alimentar um sírio na Síria por 50 centavos de euro por dia.

Esse dinheiro perdido poderia ter sido investido em infraestrutura e saúde na Alemanha, mas porque políticos alemães não fizeram nada, pagaram por isso.

A mesma coisa nos EUA. Há cinco anos, o governo gastava, em abrigos de refugiados, US$ 3.750 por criança por semana na fronteira com o México. Dá para fazer um programa de estabilização na Guatemala e em Honduras por US$ 2 por criança por semana. Então, sr. deputado, a escolha é: opção A, US$ 3.750, ou opção B, US$ 2. Não há opção C.

Mas e se a opção C for…

Não existe opção C. Se você não fizer nada, isso vai custar caro. Ou você pode financiar soluções. E elas talvez não vão erradicar a fome, erradicar a migração, mas com certeza vão reduzi-las significativamente.

Mas e se a reação for: não queremos fazer nada a respeito?

Nesse caso, estamos de volta ao cenário dos milhões de refugiados entrando na Alemanha.

Imagine que o senhor está de frente com um deputado Maga [Make America Great Again, slogan de Trump] e ele diz: eu prefiro fechar a fronteira e não quero saber o que acontece com as crianças que estão lá. O que responderia?

Eu diria que essa decisão vai custar caríssimo. A primeira coisa: a América é grande quando ela é boa. Quando a América deixar de ser boa, deixará de ser grande. Tornar a América grande de novo? Não se pode ser grande sem ser bom.

E a instabilidade custa muito mais ao contribuinte, porque quando a fome corre solta, isso gera guerra e conflito. E a guerra é 100 mil vezes mais cara do que a ajuda humanitária.

Qual o futuro do Partido Republicano na opinião do senhor?

Os dois partidos precisam de reflexão. Quando converso com republicanos e democratas, vejo que todos estão muito preocupados com o futuro de seus partidos.

Se o pêndulo político nos EUA for ainda mais ao extremo, vamos balcanizar nosso país. Se ele ficar onde está por muito tempo, vamos balcanizar nosso país. Como voltar o pêndulo para o centro? É difícil. A democracia funciona quando a população está bem informada, não desinformada de tal maneira que isso gera conflito.

A ONU precisa de reformas?

Com certeza. A ONU, assim como o Departamento de Estado americano, funciona assim: um terço faz um trabalho incrível, esplêndido. Um terço precisa ser jogado direto no lixo. E um terço precisa ser reformulado.

Dá pra falar a mesma coisa de várias instituições. Como deixá-las mais estratégicas? Essa é a questão. A ONU precisa ser mais estratégica e mais eficaz. Mas esse é um problema que não é causado pela ONU, mas pelos Estados-membros. A culpa é, em parte, dos EUA e da Europa. Mas essa é outra história.


Raio-X | David Beasley, 69

Nascido em 1957 na cidade de Lamar (EUA), David Muldrow Beasley foi eleito pelo Partido Democrata para a Câmara estadual da Carolina do Sul em 1978, com 21 anos de idade, onde permaneceu até 1993. Em 1991, se filiou ao Partido Republicano e, em 1995, foi eleito governador da Carolina do Sul. Em 2017, por recomendação da então embaixadora dos EUA à ONU, Nikki Haley, foi nomeado diretor do PMA pelo secretário-geral António Guterres. Recebeu o prêmio Nobel da Paz em 2020 em nome do PMA. Deixou o órgão em 2023.

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