Sim, haverá os elementos mais previsíveis: uma réplica em escala real do Salão Oval, vídeos de noites de eleição e manequins vestindo os trajes da primeira-dama.
Mas o Centro Presidencial Obama, que será inaugurado de forma oficial em Chicago neste mês, também terá uma característica que raramente é vista com tanto destaque em bibliotecas presidenciais: obras originais de 30 artistas encomendadas por Barack e Michelle Obama.
A decisão de fazer da arte uma prioridade no projeto de US$ 850 milhões do ex-presidente Barack Obama, financiado com recursos privados, é consistente com o compromisso dos Obamas com as artes ao longo de dois governos.
Durante esses mandatos, o casal destacou artistas como Alma Thomas, cuja obra “Resurrection”, de 1966, foi a primeira pintura de uma mulher afro-americana a integrar a coleção da Casa Branca, além de Kehinde Wiley e Amy Sherald, que pintaram os retratos dos Obamas para a National Portrait Gallery.
“Michelle e eu queríamos que o Centro Presidencial Obama fosse mais do que uma biblioteca ou um museu”, escreveu Obama em comunicado enviado ao jornal The New York Times. “Queríamos que fosse uma importante instituição cultural para Chicago e o [bairro de] South Side, um lugar que pertencesse à comunidade. A arte era central para isso.”
“Quando você encomenda trabalhos de artistas como Richard Hunt ou Julie Mehretu ou qualquer um dos outros 28 que contribuíram para este campus, você está confiando na visão singular deles”, acrescentou o comunicado. “Mas cada um deles, à sua maneira, está lidando com as questões em torno das quais este centro foi construído: de onde viemos, como chegamos aqui, que tipo de futuro podemos imaginar para nós mesmos e para nossas comunidades.”
As artes são um dos vários aspectos não convencionais do Centro Obama, projetado pelo escritório Tod Williams and Billie Tsien Architects, que começou a receber visitantes em pré-estreia no início do mês.
O ex-presidente decidiu criar um campus no histórico Jackson Park de Chicago que pudesse ser usado pela comunidade em vez de funcionar apenas como um arquivo.
Além do obelisco central (que alguns apelidaram de “Obamalisco”), o complexo inclui uma filial da biblioteca pública de Chicago, uma quadra de basquete do tamanho das de NBA, uma cozinha-escola, um parquinho, jardins e uma colina para trenó.
“É exatamente o que eu acho que o presidente sempre quis, que é ser para todos, e a arte importa”, disse Williams. “A música vai importar, a leitura vai importar, a brincadeira vai importar.”
O complexo inicialmente gerou preocupações sobre seu potencial impacto no parque e na gentrificação, bem como sua ruptura com o precedente.
O centro é administrado pela Fundação Obama, não pela Administração Nacional de Arquivos e Registros, a agência federal que administra as bibliotecas e museus de todos os presidentes desde Herbert Hoover (1929 – 1933). Obama explicou que, como seus registros serão digitalizados e disponibilizados ao público online, isso democratizará o acesso.
Para o Centro Obama, Thelma Golden, conselheira da Fundação Obama e diretora e curadora-chefe do Studio Museum no Harlem, em Nova York —junto com Anita Blanchard, médica e colecionadora de Chicago— ajudou a desenvolver um plano artístico, propondo os primeiros seis artistas comissionados.
A lista completa de artistas foi montada ao longo do tempo por Virginia Shore, que atuou por 20 anos como curadora-chefe e diretora interina do escritório Art in Embassies do Departamento de Estado.
“Este local e este projeto inspiraram muitas pessoas a tentar coisas novas”, disse Shore, destacando como Nick Cave e Marie Watt colaboraram em uma grande obra têxtil no saguão principal do museu.
Os artistas incluem Njideka Akunyili Crosby, que pintou o que se diz ser o primeiro retrato formal dos Obamas juntos, que ficará no saguão principal do museu; Rashid Johnson, cujo mosaico em grande escala se baseia em sua série “Broken Men” e está na cozinha-escola; e Martin Puryear, cuja escultura em formato de crista de onda foi inspirada em uma citação que o reverendo Martin Luther King Jr. popularizou, sobre como o arco do universo moral “se curva em direção à justiça”.
“Não consigo pensar em um exemplo em que vi tanta arte em exibição [em uma biblioteca presidencial]”, disse Colleen Shogan, que atuou como arquivista nacional antes de o presidente Donald Trump demiti-la no ano passado. “Isso é algo que eles querem enfatizar ou como querem contar sua história.”
Embora a entrada de adultos no museu do centro custe US$ 30, grande parte do campus é gratuita, e a arte está espalhada por todo o local.
Um teto cônico na contemplativa Sky Room do museu apresenta a instalação de Idris Khan com palavras em cascata do discurso de Obama no 50º aniversário do “Domingo Sangrento” em Selma, no Alabama.
Uma estátua de bronze de Alison Saar, inspirada na Estátua da Liberdade, está no restaurado Women’s Garden do parque.
O mural pintado de Aliza Nisenbaum se estende por 21 metros na Sala de Leitura Principal, retratando escritores como James Baldwin, Toni Morrison e Walt Whitman.
“É uma nova abordagem e mostra sua sensibilidade para uma Presidência que pode ser refletida na cultura”, disse o historiador presidencial Michael Beschloss. “Este é um presidente que, desde o momento em que começou a concorrer até o final de sua Presidência, amava a cultura contemporânea, falava sobre ela, era versado nela e conversava de forma séria com pessoas que a criavam.”
Trabalhar nessas encomendas, disseram vários artistas, foi uma forma de se sentir mais conectado a Obama não apenas como figura histórica, mas como ser humano.
“Eu fiz para Obama”, disse Hugo McCloud, cuja pintura sobrepõe mapas dos lugares de origem do ex-presidente —Indonésia, Quênia, Chicago e Havaí— e apresenta as casas onde Obama cresceu. “Eu queria imaginá-lo pensando: ‘Ah, eu lembro daquela loja do outro lado da rua daquele prédio de apartamentos onde eu costumava comprar aquele suco’. Não é apenas sobre este enorme edifício.”

